
DOCE PECADO

The Billionaire's Scandalous Marriage

Emma Darcy




O bilionrio Damien Wynter era arrogante e sedutor como o pecado. A herdeira Charlotte Ramsey no precisava de algum com uma sensualidade to primitiva em sua vida.
Mas ela se decepciona com o homem com quem estava determinada a se casar, e Damien lhe faz uma proposta: que ela se case com ele!
Para Damien, o que impera  t-la! Mas Charlotte quer apenas um beb. Ento, por que no unir o til ao agradvel?


Digitalizao: Ana Cris
Reviso: Crysty

PUBLICADO SOB ACORDO COM HARLEQUIN ENTERPRISES II B.V./S.xl.
Todos os direitos reservados. Proibidos a reproduo, o armazenamento ou a transmisso, no todo ou em parte.
Todos os personagens desta obra so fictcios. Qualquer semelhana com pessoas vivas ou mortas  mera coincidncia.

Ttulo original: THE BILLIONAIRE'S SCANDALOUS MARRIAGE
Copyright (c) 2007 by Emma Darcy
Originalmente publicado em 2007 por Mills & Boon Modem
Romance

Ttulo original: AT THE GREEK BOSS'S BIDDING
Copyright (c) 2007 by Jane Porter
Originalmente publicado em 2007 por Mills & Boon Modem
Romance

Arte-final de capa: Isabelle Paiva
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CAPITULO UM

      Faltavam apenas duas semanas para o casamento dela. Apenas duas semanas. Charlotte Ramsey sempre imaginou que ficaria feliz com isso.
      Mas no estava.
      Nos ltimos dias, havia tentado se manter animada com a proximidade da data de seu casamento com Mark... sem muito sucesso. Por mais que resistisse ao empenho
de seu pai em minar sua felicidade, ele estava conseguindo destru-la. Ento, o problema tinha de ser encarado.
      Agora.
      Antes que a noite chegasse.
      Seu corao era um msculo oprimido e tenso, e sua mente revolvia o dilema sem cessar quando ela partiu para a viagem de uma hora entre Sidney e a manso da
famlia em Palm Beach.
      Seria impossvel ter um casamento feliz se o pai dela insistisse em sua atitude inaceitvel em relao ao homem que ela havia escolhido. Levando-se em considerao
a maneira pomo tratara Mark no Natal... e se ele fizesse o mesmo naquela noite... ela no podia nem imaginar isso. Dava-lhe nuseas. Precisava falar com ele, faz-lo
entender.
      Certo, ele no aprovava Mark como futuro genro. E no havia esperana de que um dia o aceitasse. Mas Mark era o homem certo para ela, o mais apropriado que
conseguia imaginar, e, sem dvida, poderia persuadi-lo a admitir isso, mesmo que no pudesse faz-lo compreender.
      O casamento estava to prximo! Ele teria que ouvi-la dessa vez.
      O rosto de Charlotte ardia ao recordar a violenta discusso que tiveram sobre o noivado, quando decididamente o desafiara, recusando qualquer possibilidade
de desfazer o compromisso.
      - Goste voc ou no, papai, vou me casar com ele. Ele, certamente, no iria gostar.
      - Isso  um capricho seu, Charlotte. Casar-se com Mark Freedman! O que voc v nesse sujeito, afinal? Ele  um playboy, no um verdadeiro...
      - No um verdadeiro homem de negcios - ela o interrompeu, para mostrar que conhecia o ponto de vista do pai e completar com o seu. - O que  justamente o
que eu mais gosto nele. Mark est sempre por perto, no constantemente viajando para fechar contratos em lugares distantes.
      Como voc mesmo fez durante toda a vida, ela poderia ter acrescentado.
      - Ele gosta da minha companhia. Ele quer minha companhia. Ns nos divertimos juntos.
      - Diverso?! - A voz dele ressoou com incontido sarcasmo. - Voc tem o meu sangue nas veias, Charlotte. O tipo de diverso que pode ter com Freedman vai logo
deixar de interessar a voc. De toda forma, pode aproveitar a novidade, no h nada de mau em divertir-se com ele. Mas casamento  um negcio srio.
      - No  sobre negcios que estou falando, pai - ela replicou irritada, notando como ele se referia com desprezo  sua relao. -  sobre sentir-se amada. Isso
 algo que quero que faa parte da minha vida.
      - S que no vai durar - ele disse com desgosto.
      Mas Charlotte estava determinada. Ela j estava com 30 anos. Queria ter filhos. Mark tambm. Eles eram felizes juntos, com os planos para o futuro que vinham
fazendo. Ele no era um playboy. Era um produtor de eventos, e bastante bem-sucedido. Ela pretendia ajud-lo no trabalho depois que estivessem casados.
      Mas tambm no queria romper definitivamente com o pai.
      Nos ltimos meses, ele parecia ter aceitado Mark no crculo social da famlia, mesmo que com relutncia. At que no Natal... Ela precisava garantir que aquilo
no iria acontecer novamente. Antes da noite de Ano-novo no iate. No ia aceitar que o pai maltratasse Mark outra vez.
      Respirou fundo para aliviar a opresso no peito. Uma olhada no relgio do painel do carro e ela viu que a hora do almoo j havia passado. Com alguma sorte,
ele estaria disponvel para uma conversa particular.
      Dissera a Mark que passaria o dia no salo de beleza, preparando-se para a noite. Era melhor que ele no soubesse daquele encontro. Que teria de ser rpido.
Ele estaria aguardando Charlotte no apartamento em que moravam em Double Bay no fim da tarde.
      Pelo resto da viagem, margeando as praias do norte de Sidney, ela mentalmente ensaiou o que pretendia dizer, com a esperana de chegar a um entendimento razovel
com o pai. Quando parou o Mercedes na manso da famlia, sua mente estava totalmente preparada para obter o que queria ali. Entrou no foyer, e para sua desagradvel
surpresa o mordomo estava levando uma bandeja com caf para mais de duas pessoas ao salo principal.
      - Meus pais tm visitas, Charles?
      - Boa tarde, srta. Charlotte - ele disse, para lembr-la de que as boas maneiras no deviam ser negligenciadas. Era um homem alto e imponente, por volta dos
50 anos, a autoridade absoluta no que dizia respeito  administrao da casa e um verdadeiro fantico pelas regras da etiqueta.
      Ela sorriu desconcertada.
      - Perdo.  que estou com pressa. Preciso falar com papai.
      Charles fez um gesto indicando o salo.
      - O sr. Ramsey est com o seu irmo e um amigo londrino, o sr. Damien Wynter. A sra. Ramsey est fora, no cabeleireiro.
      Charlotte mordeu os lbios. Era bom que sua me tivesse sado, mas a presena do amigo de Peter no era esperada, o que significava a necessidade de alguma
conversa social antes que pudesse falar a ss com o pai, que valorizava a relao do filho com esse herdeiro de um outro bilionrio. Os mecanismos do mundo dos grandes
negcios estavam sempre em ao naquele lugar.
      Mas ela possua um objetivo claro. E pretendia alcan-lo.
      - A senhorita se reunir aos cavalheiros para o caf? - Charles perguntou, enquanto ela ainda processava a nova informao.
      - No, obrigada. No vou ficar muito tempo, Charles. - Ela se dirigiu s portas do salo. - Vou apenas cumprimentar Peter e o amigo dele.
      Charles a conduziu, anunciando sua chegada enquanto ela entrava tentando manter uma expresso polida e esconder sua ansiedade.
      Os trs homens levantaram-se dos assentos, Peter e o amigo estavam em poltronas de costas para ela, e o pai em um sof  sua frente, manifestando surpresa
mas tambm alegria com sua chegada.
      - Charlotte... - Recebeu a filha estendendo os braos.
      - Minha irm - ela ouviu Peter murmurar para o amigo, mas no olhou em sua direo.
      Foi at o pai para abra-lo, aliviada em perceber que a rejeio por Mark no interferia em seu amor por ela. Apesar de todas as falhas dele, ela tambm o
amava. E tinha uma grande expectativa de entender-se com ele naquela tarde.
      Srta. Charlotte... irm de Peter... O interesse de Damien Wynter foi imediatamente despertado. A viso imediata que teve dela era de uma mulher espetacular,
fisicamente muito diferente de Peter, que se parecia mais com o pai - olhos azuis, cabelos claros, a pele salpicada de sardas e um considervel fsico.
      Charlotte tinha os cabelos escuros e fartos, com exuberantes mechas caramelo. Apele era de um tom suave de dourado, como se estivesse sempre refletindo a luz
do sol da manh, e ela possua os belos olhos castanhos da me, que tambm revelavam uma inteligncia ativa. O corpo como um todo tinha uma vibrao natural e atraente
- e, mesmo que os traos no formassem um conjunto delicado, eles certamente indicavam um carter forte, compatvel com a sensualidade que emanava de seus lbios
grossos e expressivos.
      Sua figura era extremamente feminina, com intensa voluptuosidade de curvas acentuadas pelo ousado vestido. No que fosse uma pea extravagante no corte. Era
de fato modesta - sem mangas, mas com um decote no muito largo e bem desenhado, e a saia caindo suavemente sobre os quadris at atingir a altura dos joelhos. A
combinao das cores, por outro lado, era incrivelmente acertada e, ao mesmo tempo, alucinante.
      Dominava um singular tom de prpura. Do lado esquerdo, prxima aos quadris, uma grande flor branca com um centro amarelo e traos escarlates na ponta das ptalas.
Havia uma flor similar, mas bem menor, no lado direito. O largo cinto negro contornava uma cintura perfeita, e brancas sandlias tranadas acrescentavam o toque
final de elegncia sexy ao conjunto.
      Apenas uma mulher muito confiante escolheria aquele vestido: uma mulher que conhece as prprias preferncias e no tem medo de expor sua individualidade. E
ela tampouco demonstrava qualquer insegurana nos movimentos. Ousada, confiante e sexy, Damien a definiu, sentindo um interesse ainda mais intenso.
      A irm de Peter Ramsey...
      Um pensamento atravessou a mente de Damien: a mulher que ele vinha buscando para ser sua companheira podia ser aquela. Ela compartilhava o mesmo tipo de ascendncia
em relao  riqueza de suas famlias, de modo que no estaria de olho na riqueza dele. Neste sentido, seria uma relao confivel. J a questo de ela querer constituir
uma famlia tal como ele planejava era uma outra histria. Ela bem podia ser apenas uma garota mimada, como tantas outras herdeiras que ele havia conhecido.
      Mas agora uma palpitao de prazer antecipado percorria suas veias. Se Charlotte Ramsey se assemelhasse a Peter ao menos um pouco no carter, a visita a Sidney
poderia ser o comeo de uma nova vida, tal como ele a imaginara desde que era um garoto - uma vida slida e constante no plano pessoal.
      Charlotte inclinou-se para sussurrar no ouvido do pai:
      - Preciso falar com voc a ss.  importante, papai.
      Os olhos dela imploravam de modo eloqente que ele aceitasse o pedido.
      - Venha conhecer o amigo de Peter antes - ele ordenou, com um tom de censura na voz.
      - Claro - ela concordou prontamente, voltando-se para o visitante em seguida, totalmente despreparada para os efeitos da presena de Damien Wynter.
      Ele no se parecia com um ingls comum, no se parecia com ningum que ela j tivesse conhecido. O homem era incrivelmente belo, e tambm charmoso, talvez
como um latin lover de voz suave e perigosa, ou como um aristocrata espanhol, com sua pele cor de oliva, cabelos negros e olhos mais escuros ainda, que a deixaram
perplexa e maravilhada.
      Os dedos de Charlotte comearam a ficar inquietos. Damien era uma ogiva de energia sexual. Ele era to alto quanto Peter, mais bem composto, com traos perfeitamente
proporcionais, que emergiam de uma camisa branca sem colarinho e jeans preto muito bem adequado ao seu corpo. Havia algo de felino e flexvel em sua figura, que
a fez sentir a iminncia de um salto, como se ele estivesse pronto para agarr-la naquele exato instante, como se ela fosse seu alvo.
      A coluna vertebral de Charlotte pulsava de uma estranha forma de excitao. Mas, em uma reao do bom senso quelas impresses, ela pensou que Damien Wynter
era o tipo de homem que faria qualquer mulher sentir-se daquele jeito. Nesse caso, ela no era especial. Mas, por um momento traioeiro, ela desejou que Mark tivesse
aquele mesmo poder.
      A larga mo do pai estava em suas costas, conduzindo-a para cumprimentar o visitante, o que a fez sair de seu estupor. Ela sorriu, com a esperana de disfarar
os efeitos daquele primeiro impacto. As aparncias podiam ser enganadoras, principalmente a mdio e longo prazos.
      - Damien,  um grande prazer lhe apresentar minha filha Charlotte - disse o pai com gentileza.
      Apertaram-se as mos, a princpio com polidez automtica, mas ela ficou mais uma vez chocada com a intensidade do contato e a segurana dos dedos de Damien
ao envolver os seus. Para tentar fugir de uma situao que poderia se tornar constrangedora, ela tomou a iniciativa de falar:
      - Peter falou-me sobre voc. Tenho certeza de que ele garantir que seja agradvel a visita  Austrlia.
      Os olhos negros fixaram-se nos dela com uma expresso muito pessoal.
      - Estou feliz por ter vindo - Damien disse, ainda segurando a mo dela.
      Charlotte precisava sair dali. As coisas realmente estavam tomando um rumo inesperado, com o mpeto daquela atrao sbita. Ela devia manter seu foco.
      - Desculpem-me por no poder ficar com vocs muito tempo, mas eu tenho alguns assuntos urgentes a tratar com papai. - Ela recolheu a mo e virou o rosto. -
Podemos ir para a biblioteca?
      O pai fez um gesto indicando Charles, que havia voltado com a bandeja:
      - No podemos esperar o caf?
      - Por favor, papai. Foi um longo caminho at aqui.
      - Certo, certo - ele concordou, um pouco irritado. - No demorarei - disse a Peter e Damien.
      - Com licena. - Charlotte lanou um olhar rpido para ambos os homens, sem focalizar diretamente os olhos negros que sentia estarem ainda fixados nela.
      Damien Wynter era, sem dvida, um conquistador profissional e compulsivo, disse a si mesma. Um tipo daqueles no merecia ateno.
      Damien assistiu a sada de Charlotte com o pai com a mente fervilhando de possibilidades excitantes.
      - Ela est comprometida - disse Peter abruptamente. Aquilo fez Damien dar-lhe ateno.
      - O que voc quer dizer com isso?
      - Casamento. Em duas semanas.
      Ao choque seguiu-se um instante de descrena. Ele no podia imaginar aquilo. J tinha imaginado Charlotte Ramsey com ele. No podia ser levada por outro homem.
Lanou um olhar inquisitivo a Peter.
      - E voc gosta do noivo?
      O outro revelou desprezo.
      -  um bajulador atrs de herana, mas ningum consegue fazer com que Charlotte perceba isso.
      Damien sentiu-se ultrajado. Ele teria que faz-la perceber.
      - Eles estaro no iate hoje  noite? - perguntou. Peter olhou-o levemente surpreso com a questo.
      - Estaro. Mas voc no conhece Charlotte, Damien. Ela colocou na cabea que vai se casar com Mark Freedman e, acredite, minha irm  muito cabea-dura. No
h como faz-la perceber e aceitar outros pontos de vista.
      Na primeira oportunidade eu mostrarei, pensou Damien imediatamente, mas naquele momento abandonou o assunto, optando por no revelar totalmente seu interesse
pela irm de Peter.
       noite, ele pretendia saber um pouco mais sobre Charlotte. E, se gostasse do resultado da investigao, nada iria impedi-lo de atuar de acordo com seus objetivos.
      - Ento, para que tanta pressa? - o pai indagou ao fechar a porta da biblioteca. - Voc foi bastante rude com Damien Wynter, dando-lhe a entender que merecia
pouca ateno.
      A crtica era mordaz, especialmente por indicar que o amigo de Peter j havia recebido a aprovao negada a Mark. As palavras cuidadosamente ensaiadas de Charlotte
foram saindo de sua boca.
      - No to rude quanto voc foi com Mark no Natal, maltratando-o quando ele estava apenas tentando...
      - Tentando me bajular. Eu odeio esse tipo de gente. No  possvel, Charlotte! No  possvel que voc no entenda isso! - Levantou as mos em um gesto de
desespero. - Quando voc vai retomar os sentidos? Damien Wynter  o tipo de homem com quem voc deveria se casar, e voc no lhe d dois segundos do seu tempo!
      A raiva queimava dentro dela. Damien Wynter usara aqueles dois segundos de um modo to direto e eficaz que ela ainda estava transtornada.
      - Vou me casar com Mark, papai - insistiu. - E no quero ver voc demonstrando que no gosta dele esta noite.
      - Ento, tire esse sujeito do meu caminho - o pai replicou, em um tom de voz um pouco mais alto e mais irritado.
      Charlotte ergueu o rosto em desafio.
      - Voc me quer fora do seu caminho tambm, papai?  assim que vai ser?
       O rosto dele ficou vermelho de decepo e fria. Levantou a mo, apontando o dedo para ela.
      - Eu disse antes e vou dizer de novo: faa Freedman assinar um acordo pr-nupcial. Se conseguir isso, prometo tolerar o sujeito, por sua causa, Charlotte.
 o melhor que posso fazer. E no teste mais minha pacincia com voc.
      Ento, saiu da biblioteca, batendo a porta,
      Charlotte tremia com a intensidade da clera do pai. Havia acreditado que ele poderia ser ao menos razovel com Mark. Seria apenas uma questo de tempo, uma
vez que ela demonstrasse como era feliz com ele. Mas agora temia que isso no acontecesse jamais.
      Mesmo que levasse Mark a assinar o acordo, o que no queria fazer, isso de fato faria alguma diferena na atitude do pai com ele?
      Ela sentia dio por toda a situao. dio. E odiava Damien Wynter por aparecer de repente e servir como termo de comparao para o pai dela. Obviamente, ele
tinha obtido uma aprovao automtica. Era um deles, nascido na riqueza, para passar toda a vida acumulando mais bens. Ela no queria ser apenas uma esposa socialmente
aceitvel e adequada para um homem como aquele, e por isso havia escolhido Mark.
      Mas no se sentia feliz ao deixar a manso em Palm Beach.
      Estava tomada por uma multido de temores que no pareciam ter uma soluo sensvel.


      CAPITULO DOIS

      Damien Wynter...
      Charlotte lanou olhares faiscantes de rejeio ao homem que saa da limusine, colocando-se ao lado do seu irmo, e de fato excedendo a altura de Peter por
4 ou 5 centmetros. Parecia ainda mais incrvel em um traje formal negro, e ela no tinha dvidas de que todas as mulheres da festa estariam olhando para ele. O
que era at bom, desde que Damien se concentrasse nelas e a esquecesse a noite toda.
      De sua posio no alto do convs do iate de seu pai ela assistia aos dois homens descendo a doca, conversando amigavelmente entre si. Era um motivo de irritao
a mais que Peter gostasse tanto dele sem ter feito qualquer esforo para aproximar-se de Mark. Estaria ela destinada a perder o pai e o irmo ao persistir naquele
casamento?
      Mas tenho minha prpria vida, veio o pensamento angustiado em sua mente. Ser filha e irm no era suficiente. Queria um parceiro que estivesse feliz em compartilhar
uma vida, e at conhecer Mark j havia perdido as esperanas em encontrar algum assim. No era fcil ser Charlotte Ramsey. Apenas Mark tornava a tarefa mais suportvel.
      Mas agora ela estava mais uma vez desnorteada e com medo.
      - Ah, finalmente! - Mark comentou, ao notar o foco das atenes de Charlotte.
      Ela voltou os olhos para o noivo. Haviam estado a bordo por algum tempo, assistindo  chegada dos convidados no iate, que em breve zarparia para o centro do
porto de Sidney, onde ficaria numa posio privilegiada para ver os fogos do rveillon. Era a primeira vez que Mark fora convidado para estar com a famlia Ramsey
no Sea Lion, e ele estava naturalmente vido por aproveitar a experincia.
      - No esto atrasados - Charlotte disse olhando os ponteiros do Cartier que seus pais lhe haviam presenteado no Natal. - Na verdade chegaram bem a tempo. So
20h. Peter sabe que papai no gosta de esperar.
      - Um homem amedrontador, seu pai - Mark observou, de modo estranho.
      Ela forou um sorriso, querendo aliviar qualquer ansiedade que ele pudesse ter relacionada  atitude do pai.
      - No se preocupe com ele. Ns teremos uma noite linda, e eu estou adorando que voc esteja aqui comigo.
      Ele sorriu de volta, o rosto brilhando de satisfao com o encanto inocente de Charlotte. Mark no fora feito nos moldes do macho tradicional, muito embora
fosse bastante msculo ao fazer amor, e ambos tivessem a mesma altura, o que os tornava um par perfeito fisicamente.
      Seus cabelos castanhos, grossos e ondulados eram um convite ao toque, ao contrrio do estilo bem aparado que seu pai preferia. Os olhos sugeriam divertimento
e pequenos prazeres, em vez de impor  fora um desafio irresistvel. As sobrancelhas arqueadas acentuavam-se com a inveno de brincadeiras e gozaes. Ela nunca
as vira expressando desaprovao ou impacincia. O nariz era agudo, o queixo pequeno e bem torneado, e a boca, macia, aconchegante, morna, o que a fazia sentir-se
segura junto a ele.
      O que a fazia sentir-se confortvel.
      Ela nunca estaria confortvel com Damien Wynter.
      - Sou um homem privilegiado - Mark sussurrou. - A mais bela mulher da festa est comigo.
      Ela sorriu, feliz por ele pensar isso. O elogio fazia valer todo o esforo das ltimas horas: aplicar mechas louras e douradas nos longos cabelos, encontrar
e comprar um vestido maravilhoso, tomar todo o cuidado com a maquiagem. No era to bonita, apenas tomava todas as medidas para apresentar-se da melhor maneira possvel,
utilizando os truques que aprendera na escola de modelos, enfatizando seus pontos fortes e minimizando os menos atraentes.
      - Estou surpreso de que seu irmo no tenha rebocado uma mulher esta noite. - Mark levantou as sobrancelhas zombeteiramente. - Que excentricidade, ficar sozinho
na noite de rveillon...
      -  mais provvel que ele no tenha tempo para isso - disse ela com ironia. - Papai organizar seu tradicional jogo de pquer no intervalo dos fogos. Sem dvida,
Peter aproveitar a chance para introduzir o novo amigo de Londres no ritual. Nada exige mais autocontrole e poder de deciso do que um bom jogo de pquer.
      - Voc j jogou?
      Ela admitiu que sim.
      - Desde criana, mas s em casa. Era o que papai costumava jogar conosco. Ele gostava de nos ensinar o clculo das probabilidades.
      Mark balanou a cabea, admirado.
      - Voc teve um infncia estranha, Charlotte.
      - Quero que seja diferente com nossos filhos, Mark - ela disse, sria.
      - E vai ser, minha querida. - Ele ps o brao sobre os ombros dela, puxando suavemente contra si para transmitir confiana, e confirmando com palavras suaves
no seu ouvido: - Voc pode ficar tranqila.
      Ela recostou-se, esperando que sua inquietao fosse aplacada pela maneira amvel como Mark a tratava, em uma proximidade fsica to fcil e natural. Os Ramsey
no eram muito expansivos em seus afetos, mas a famlia sempre fora um grupo coeso, separado das pessoas comuns por sua opulncia e tradio.
      Charlotte havia tentado romper essa barreira em vrias ocasies, apenas para ser censurada com comentrios dolorosos, como "Voc pode tudo,  uma Ramsey",
o que significava que ela teria tudo o que quisesse e poderia se livrar de qualquer situao embaraosa sem maiores danos. Isso no era verdade, mas os outros a
percebiam e julgavam desse modo, e nada que ela pudesse dizer iria mudar a opinio das pessoas.
      Mark tinha sido o nico homem que vira alm do valor de seu sobrenome, e a admirava por quem ela era individualmente, algo que todo o dinheiro do mundo no
seria capaz de comprar. Talvez porque no fizesse parte de seu mundo, tinha certa curiosidade a respeito dele, e, assim, um primeiro interesse fora despertado, junto
com a vontade de conhec-lo mais profundamente. Quaisquer que fossem as razes, elas o tornavam atraente pela maneira como faziam dele uma pessoa atenciosa e disponvel,
to diferente dos herdeiros arrogantes que normalmente freqentavam seu crculo social.
      Mas, para sua frustrao, ela queria que ele a excitasse mais sexualmente. At aquela tarde no tinha imaginado que um homem pudesse causar o impacto que Damien
Wynter lhe causara. Por outro lado, era certamente s uma impresso inicial. No deveria preocupar-se com aquilo. Mark era um amante muito gentil e sempre se esforava
em lhe proporcionar prazer.
      As poderosas engrenagens do iate entraram em operao.
      - Agora que esto todos a bordo, vamos passar ao convs dianteiro - Charlotte sugeriu. - Assim ficamos no melhor lugar para assistir  queima de fogos.
      Cumprimentaram outros convidados no caminho, pararam para conversar, encheram as taas de champanhe e experimentaram alguns dos canaps que os garons contratados
para aquela noite ofereciam. O clima da festa fez a angstia de Charlotte ceder. Ela apreciava o jeito espirituoso e as maneiras simples de Mark. Ele era uma boa
companhia, sempre havia sido, e sempre seria, pensou.
      No deveria importar, e no importava, que seu pai e seu irmo fossem sempre preferir a companhia de homens como Damien Wynter. Ela no queria que sua vida
fosse como a de sua me: ocupando-se com aes de caridade enquanto o marido circulava e fazia transaes em seu prprio territrio. Ela teria pena da mulher com
a qual Peter se casasse, quem ela fosse, condenada a estar sempre em segundo plano no mundo dos negcios.
      Mark a queria como assistente pessoal, ajudando a organizar os eventos que produzia. Eles compartilhariam tudo. O prximo ano seria maravilhoso, pensou, o
melhor de todos.
      At mesmo os fogos de artifcio foram anunciados como algo ainda mais extraordinrio dessa vez. O porto chegava a estar congestionado com a quantidade de pessoas.
Ao redor do Sea Lion flutuavam muitos barcos de passeio, com os seus convidados para o rveillon. Ao aproximarem-se as 21h, o momento da primeira queima de fogos,
Mark a conduziu por entre os convidados at a balaustrada, para assegurar uma boa viso do espetculo.
      - Ento a est voc!
      A voz de Peter cobrava sua ateno. Ela se virou para ver-se frente a frente tanto com o irmo quanto com a outra companhia, indesejada. Os olhos negros instantaneamente
capturaram os dela, com uma intensidade que provocou reao das foras que queriam se rebelar em seu interior. Mas Charlotte no ia admitir uma nova investida daquele
animal obstinado, nem por um minuto. Ele era um deles, to arrogante e seguro em seus domnios, sem dvida querendo mulheres como posse, no como parceiras.
      - Damien, voc j conhece minha irm, Charlotte, de passagem, por assim dizer. Este  o noivo dela, Mark Freedman.
      A apresentao foi completada por ele prprio:
      - Damien Wynter.
      Mas sequer concedeu a Mark um olhar, preferindo concentrar a fora do seu carisma em Charlotte e oferecendo-lhe a mo mais uma vez.
      - Espero que possamos nos conhecer melhor esta noite, Charlotte - disse, despejando seu charme sobre ela, com um estudado sorriso, para aturdi-la.
      Isso a deixou abalada de tal maneira que ela teve de reunir toda sua fora de vontade para manter uma aparncia socialmente aceitvel. Estendeu a mo para
corresponder  que lhe tinha sido oferecida, esforando-se em apresentar um sorriso frio e polido.
      - Bem, acredito que voc poder conhecer muito bem a sociedade de Sidney, Damien, mas no posso dizer o mesmo em relao a mim.
      - Como assim? - ele perguntou, como se nunca tivesse escutado antes uma rplica daquele tipo vinda de uma mulher.
      Ela ergueu o rosto.
      - Seu objetivo no  fazer contatos? Verificar o quanto as pessoas podem lhe ser teis? Peter me falou sobre...
      O irmo sorriu.
      - Charlotte est se referindo ao modo como voc reagiu quele estpido brinde que Tom Benedict me ofereceu no clube em Londres ano passado, declarando que
estvamos entre amigos, quando na verdade quase todos eram desconhecidos para mim, e a nica coisa que tnhamos em comum era a fortuna de nossos pais.
      Damien demonstrou irritao com a lembrana.
      - Tom Benedict no tem um mnimo de inteligncia.
      - Talvez ele s quisesse ser gentil - Charlotte contraps. - E isso no tem nada a ver com inteligncia. - Fez uma pausa para deixar claro o ponto. - Tem a
ver com outras qualidades que talvez voc no conhea.
      Como Mark conhecia.
      O que era uma das razes pelas quais ela o preferia a Damien Wynter, apesar dos atributos bvios do homem que pensava poder simplesmente entrar em cena e ser
alvo de todas as atenes.
      A mente de Damien registrou o golpe. Procurou os olhos castanhos que permaneciam insondveis e recusavam qualquer indicao do que ela estava pensando. Por
que, de repente, havia se tornado o alvo de tanta indignao? No houvera nenhum trao disso no breve encontro daquela tarde. Mas aquele tinha sido um encontro inesperado.
Agora ela tivera tempo de pensar sobre ele, e as conseqncias disso ele teria que verificar agora.
      - Peter lhe deu a entender que sou um homem cruel? - perguntou, indo direto ao ponto.
      - De forma alguma - Charlotte sorriu para remover qualquer indcio de ofensa. - Ele apreciou sua honestidade.
      - Mas voc no - disse Damien, colocando-a no centro da discusso.
      Ela no perdeu a oportunidade.
      - Pelo contrrio,  sempre bom saber com quem estamos lidando.
      - E com quem voc imagina que est lidando, Charlotte?
      - Voc  que no precisa ficar imaginando coisas, Damien. Apenas me contaram que, em resposta ao brinde de Tom Benedict, voc comentou que Peter no era seu
amigo porque nunca o havia encontrado antes, e estava interessado nele apenas pelo que isso poderia significar para seus negcios.
      - Em resumo, eu dei um fim na baboseira hipcrita de Tom.
      - E assim ganhou minha confiana e minha amizade - acrescentou Peter.
      - O que  um sentimento recproco - afirmou Damien, bem-humorado.
      - E sempre bom que espritos semelhantes se encontrem - disse Charlotte com um trao suspeito de suavidade na voz. - Eu sei o quanto sou feliz por ter encontrado
Mark.
      Esticou o brao ao redor do noivo, sutilmente, mas sem hesitao, colocando-se ao lado dele, tendo estabelecido com perspiccia que Damien e Peter formavam
uma unidade totalmente diferente, em um planeta distante daquele onde pretendia viver com Mark Freedman.
      Damien voltou sua ateno para o homem que Peter havia descrito como um bajulador e caador de fortunas, e que mantinha sua irm cega para uma verdade conhecida
por todos. Mas ela no era tola. Longe disso. Tinha uma mente afiada como uma navalha. Ento, Damien decidiu fazer sua prpria avaliao do homem que Charlotte Ramsey
escolhera como parceiro.
      - Minhas desculpas, Mark. - Sorriu em um gesto de reconciliao. - Eu no pretendia ignor-lo.
      - Sem problemas - veio a resposta imediata e despreocupada. - Eu estava interessado no histrico de sua relao com Peter.
      O modo de cumprimentar de Mark tinha um toque de deferncia, como que se pretendesse agradar e no transformar tudo em uma disputa de egos masculinos. Seus
olhos animavam-se com verdadeira curiosidade, querendo participar, querendo ser parte do mundo ao qual Charlotte estava decidida a dar as costas, pensou Damien.
      - De fato, a histria me levou a pensar o quanto nossas relaes esto associadas ao que podemos extrair delas em nosso proveito - Mark comentou inesperadamente.
- No ficamos por perto daqueles que no podem nos oferecer nada, no  mesmo?
      O breve discurso era de uma argcia singular, comeando com algo que poderia ser usado como um ataque contra sua integridade pela relao que mantinha com
uma herdeira e, em seguida, mudando todo o quadro ao generalizar o princpio que havia mencionado.
      - Ns evitamos ser tediosos - ele prosseguiu - e, naturalmente, gravitamos em torno de quem faz nossa vida mais agradvel e prazerosa.
      Sorriu para Charlotte, dando-lhe a sensao de que era a principal motivao desses sentimentos, e Damien sentiu uma vontade surpreendente de dar-lhe um soco.
O homem era um mestre da manipulao, um feiticeiro de primeira e o sorriso que agora lhe assomava ao rosto, para manter um ar jovial, criou um impulso quase incontrolvel
em seus msculos.
      Olhou para Charlotte, aquela mulher que estava lhe fazendo sentir uma necessidade imediata de reverter toda aquela situao. Seria porque era a irm de Peter,
e ele compreendia o desgosto do amigo com o tipo de casamento que ela ia contrair? Ou seria porque ela no daria a ele, Damien, o que j estava to prodigamente
concedendo quele paspalho?
      Ele havia conhecido muitas outras belas mulheres, mas o sorriso de Charlotte para Mark Freedman iluminava a singularidade de seu encanto, tornando-o infinitamente
mais forte. Fixou-se na graciosa curva do pescoo descoberto. Ela no usava jias, e a pele exposta, de algum modo, revelava uma vulnerabilidade que atiava os instintos
mais primrios de Damien. O protetor da manada e o caador agressivo estavam prontos para a batalha, e ele sabia que j no recuaria em seus objetivos em relao
a Charlotte Ramsey.
      Reparou no vestido que ela escolhera para a noite. Era laranja escuro, brilhante, uma cor que poucas mulheres usariam com sucesso, e que reafirmava a impresso
de confiana que ela exalava.
      De confiana e desafio.
      A curva do decote era simples, contornada por um fio de prolas. No todo, o vestido era muito elegante. Mais uma vez, no afrontosamente sexy, mas, mesmo assim,
extremamente sugestivo ao apenas insinuar suas curvas em vez de exibi-las ostensivamente. Damien entendeu que era uma mulher mais preocupada em ser admirada como
pessoa do que por seus atributos como objeto sexual.
      Teria sido essa a estratgia de Mark para conquist-la?
      - A contagem regressiva para os fogos est comeando - disse Peter, indicando a Damien que se juntasse a ele na balaustrada enquanto os outros convidados tambm
se deslocavam para l.
      Milhes de vozes no porto comearam a contar:
      - Dez, nove, oito...
      Charlotte separou-se do noivo para voltar os olhos  famosa ponte suspensa que obviamente seria o centro do show pirotcnico. Mark Freedman virou-se tambm,
apertando-a de volta levemente pela cintura. Damien se colocou entre Peter e Charlotte, determinado a faz-la notar sua presena, quisesse ou no.
      -... trs, dois, um...
      O grande arco da ponte foi intensamente iluminado quando fogos brancos se espalharam no cu.
      Uma promessa de algo verdadeiramente grande, pensou Damien, com a excitao causada pelo estrpito dos fogos alimentando sua ansiedade pelo que estava por
vir. Aquilo definia exatamente seus sentimentos por Charlotte Ramsey. De uma forma ou de outra, ele a tomaria de Mark Freedman, para que ficasse livre de um erro
grave.
      Livre. Para ele.


      CAPITULO TRS

      A noite foi invadida por magnficas exploses de cor, alando-se sobre as formas navais da abbada do teatro da pera e sobre os pilares de arenito da ponte.
As vultosas cascatas de luz eram belssimas, fascinantes, e, ainda assim, a felicidade com que Charlotte esperava v-las foi diminuda devido  presena de Damien
Wynter, que parecia sugar suas energias.
      0 que estava muito, muito errado.
      E era ultrajante.
      Mark, ao seu lado, a abraava. Estava falando com ela, compartilhando o prazer com a exibio primorosa, apontando para maravilhosos efeitos especiais que
o impressionavam particularmente. E Charlotte tentava corresponder, com alegria e naturalidade.
      Mas estava ainda envolvida com a maneira como Damien Wynter a estivera olhando antes do incio da contagem regressiva, registrando todos os detalhes de sua
aparncia como se os comparasse a um modelo em sua mente. Ela disse a si mesma que ele, provavelmente, fazia o mesmo com qualquer mulher que entrasse em sua linha
de tiro, e que era totalmente irrelevante a pontuao que receberia de acordo com os padres de beleza e atratividade feminina em questo. O que ele pensava no
tinha importncia. No podia ter. E isso tornava ainda mais irritante para Charlotte que estivesse perdendo a serenidade.
      At mesmo a voz dele a distraa do que Mark estava dizendo, com seus ouvidos subitamente hipersensveis ao tom penetrante com que fazia comentrios para Peter,
dizendo que ele estava gostando do show.
      E por que no?
      Nenhuma outra cidade do mundo tinha um local mais apropriado para uma noite como aquela, e o Sea Lion permitia uma viso integral de tudo. Charlotte era, provavelmente,
a nica espectadora que ansiava pelo trmino dos fogos. Apenas ento seu irmo levaria Damien Wynter embora e ela estaria livre da terrvel conscincia de sua proximidade.
      Uma intensa seqncia de foguetes marcou o ltimo minuto do show. Uma chuva dourada caiu da ponte bem abaixo do centro do arco, e um enorme corao vermelho
surgiu, pulsando com gradaes de cor.
      - O corao de Sidney - ela murmurou.
      - O corao do amor - Mark soprou em seu ouvido.
      O que teria feito seu prprio corao bater de felicidade, mas sua mente estava muito ocupada em especular se Damien Wynter tinha corao. Sem dvida, ele
doava parte considervel de seu dinheiro para instituies de caridade, para obter iseno de impostos, o que no significava exatamente seu envolvimento com problemas
sociais. Ser que ele se preocupava com qualquer coisa alm de demarcar seu territrio e aument-lo em todas as oportunidades?
      - Por enquanto  isso - Peter disse a ele. - Haver um show ainda maior  meia-noite.
      - Vai ser difcil ser melhor do que este - comentou Damien. - O corao pulsando na noite foi um toque notvel.
      - , ele de fato se sobressaiu na escurido - replicou Peter.
      - Sim. Como algo que resiste a ser esquecido - Charlotte no pde conter estas palavras.
      Foi um erro.
      Os olhos negros de Damien Wynter instantaneamente fixaram-se nos seus, faiscando de interesse. Ele sorriu, devagar e sensualmente, com dentes to brancos que
Charlotte pensou no marfim das presas de alguns animais selvagens.
      - Voc se lembrou de algo? - ele perguntou, provocativamente devolvendo-lhe a questo.
      E ela teve que seguir adiante, maldizendo-se por iniciar outra conversa com ele.
      - Quando se tem um, no  sequer possvel esquec-lo, voc no acha?
      - Tenho certeza disso - respondeu Damien rapidamente, completando com um desafio. - Isso a surpreende, Charlotte?
      Peter a livrou da resposta.
      - Damien doa enormes quantias de recursos para programas de desenvolvimento na frica.
      Ela no pde deixar de perguntar:
      - Por que para a frica?
      - Voc j esteve l? - indagou Damien.
      - No. Eu sempre imaginei a frica como um lugar amedrontador e perigoso, que seria melhor evitar.
      - Ento, deixe-me lev-la. Estar segura sob minha proteo e poder verificar em que emprego meu dinheiro.
      Parte dela realmente queria ir. Uma curiosidade perigosa, disse a si mesma, e retraiu-se para um terreno menos arriscado.
      - Obrigado pelo convite, mas Mark e eu vamos nos casar em duas semanas...
      - Entendo que esteja ocupada agora, mas quando for conveniente... - Sorriu para Mark. - Voc iria para a frica como meu convidado?
      - Sem dvida - Mark respondeu, sem debater o assunto com ela.
      Eles no conheciam aquele homem. Por que Mark aceitaria ir com ele em uma viagem pela frica? No fazia sentido. No com Damien Wynter. Parecia errado. Mesmo
porque ela estaria desconfortvel em sua companhia.
      -  melhor levar Damien para o salo se vocs forem jogar pquer com papai, Peter - Charlotte lembrou ao irmo, querendo terminar aquele encontro.
      - Voc joga, Mark? - Damien perguntou, aparentemente satisfeito com a possibilidade de ter o noivo de Charlotte includo no grupo.
      Mas ela sabia que isso no era factvel. Mark no a trocaria por uma diverso estritamente masculina. No na primeira noite de Ano-novo que passavam juntos.
      - No  minha rea. Eu sou desastrado - ele disse, o que no era exatamente o tipo de argumento que ela esperava. Uma desculpa lamentvel.
      - E voc, Charlotte?
      A impertinncia da questo a deixou sem voz por um momento. Como ela iria jogar se Mark no o faria?
      Peter sorriu, dando um tapa amigvel nas costas de Damien.
      - Acredite em mim, esta no  uma boa idia.
      - E por que no?
      - Ela nos deixaria atordoados. Minha irm  uma jogadora implacvel.
      A boca de Damien formou uma expresso lasciva. Seus olhos, que no tinham deixado os dela por um segundo, ferviam com o desafio que pareciam estar imaginando.
      - Eu adoraria passar por essa experincia, Peter. Charlotte queimava por dentro.
      Damien Wynter no estava falando de pquer. Ele a tinha avaliado e decidido que era desejvel. Ainda mais por estar comprometida com outro homem. Por isso
tinha sacado suas cartas e iniciado um jogo que consistia em aceitar riscos e tomar decises rpidas.
      A arrogncia daquele homem era insuportvel! A mente dela fervilhava em busca de maneiras de atingir seu ego. Antes que ela pudesse dar um golpe, Mark interveio:
      - Sabe, eu at gostaria de ver isso - disse em tom de curiosidade. - Espectadores so aceitos?
      Charlotte ficou bastante incomodada.
      - Mark, eu no quero jogar, eu quero ficar com voc!
      - Mark pode assistir, Charlotte - Peter ponderou, subitamente querendo satisfazer o capricho do amigo. - Ele poder ficar bem atrs de voc.
      - No  a mesma coisa - ela respondeu ao irmo.
      - Eu gostaria mesmo de ir, querida - Mark insistiu, sorrindo de modo persuasivo. -  uma parte da vida que ainda  um mistrio para mim. Eu gostaria de ter
uma chance de entender sobre os cacifes, as combinaes de cartas, as probabilidades.
      - Eu pensei que iramos danar - ela protestou, odiando aquela conivncia involuntria de Mark com um homem que a levaria embora se tivesse chance.
      - Ns podemos danar todas as noites - ele argumentou.
      - Ele tem razo - Peter disse, para encerrar o assunto.
      - Vamos, Charlotte. Sei que voc adora jogar. Est no seu sangue.
      A sensao de estar sendo manipulada aumentou a irritao que Damien Wynter j vinha alimentando, e Peter tinha soado tanto como seu pai com aquele ltimo
comentrio que Charlotte quase comeou bufar de exasperao.
      -  apenas um jogo, Peter. E eu posso escolher jogar ou no. Eu no preciso disso na minha vida.
      - Desculpe, querida - Mark comentou, em sinal de preocupao. - E claro que voc pode escolher.
      - Mas nos daria enorme satisfao se nos acompanhasse. - Damien interferiu com gentileza.
      Para pint-la como uma menina mimada e egosta se recusasse.
      Charlotte avaliou o caso. Mark podia assistir a uma partida de pquer na televiso se estava to interessado na questo das probabilidades. Aquilo lhe parecia
um argumento estpido. Mais provavelmente, o que ele queria era estar perto de Peter e Damien Wynter, e ser parte do crculo privilegiado de jogadores de seu pai.
      Uma suspeita repulsiva invadiu sua mente. Mark a estaria usando como trampolim para alcanar outros objetivos?
      Ela no queria acreditar. No queria, mas... por que agarrar to avidamente a chance de ser convidado de Damien na frica?
      Maldito Damien Wynter! Eleja tinha conseguido estragar sua noite com Mark.
      - Est certo! Eu vou! - decidiu, com um trao de beligerncia na voz, ao aceitar um embate com um homem que j havia provocado tantas mudanas desagradveis
em seu interior.
      - Esplndido! - aprovou Damien, sorrindo como um lobo ao ver a jugular de sua vtima.
      Se eu estiver com sorte,  o seu sangue que vai jorrar, pensou Charlotte perversamente. E virou-se para Mark:
      - Avise-me se estiver entediado, querido, que eu entrego os pontos - disse, pontuando que tinha aceitado a provocao por causa dele, por nenhum outro motivo.
      Mark tocou seu rosto em um gesto sensvel de reconhecimento, com os olhos radiantes de alegria.
      - Minha garota valente... - murmurou. - Parece que voc estar nadando entre tubares nessa mesa de pquer, mas eu a resgatarei ao primeiro sinal.
      O aperto no peito de Charlotte diminuiu um pouco. Mark realmente a amava. Era uma estupidez ficar exaltada com pequenas coisas que podiam ser atribudas a
uma curiosidade natural. Damien Wynter estava contaminando seus pensamentos.
      Virou-se para o irmo e disse:
      - Ento vamos, Peter. Ns o seguiremos at o salo. - E notou que Damien observava Mark como que para escolher as armas que usaria para aniquil-lo.
      Por isso, ele o queria como convidado na frica! Na primeira oportunidade, atiraria Mark aos lees para conseguir Charlotte. Era esta a isca que tinha lanado.
Devia estar com o orgulho ferido por ela no ter ficado completamente a seus ps desde o princpio, venerando-o por quem e pelo que ele era, para no dizer pelo
que possua. Homens assim sempre pensavam que poderiam ter qualquer mulher.
      No esta, ela silenciosamente assegurou, direcionando a mensagem para as costas de Damien quando Peter o conduzia para o salo. E no iria entrar em nenhum
confronto com ele na mesa de pquer. De forma alguma pretendia entrar naquele jogo.
      O plano era deix-lo frustrado, no tentar uma vitria. Quando ele aumentasse suas apostas, ela se retiraria, mesmo que fosse promissora. Assim, passaria por
aquela provao... e jamais teria que enfrentar aquilo novamente.
      Satisfeita por ter tomado uma deciso sensata, que Damien Wynter no apreciaria, Charlotte sentiu-se mais calma e confiante para lidar com as circunstncias
sem a ocorrncia de sentimentos imprevisveis.
      A msica comeou a tocar na discoteca do iate assim que eles chegaram s escadas. O DJ havia colocado uma faixa mais agitada para animar os convidados. Charlotte
sorriu ao reconhecer a voz de Nancy Sinatra cantando I'll Be Your Good-Time Girl.
      Ela estaria danando com Mark se ele no tivesse preferido assistir ao jogo de pquer.
      Mas agora precisava evitar que seu corao comeasse a bater no ritmo das jogadas de Damien Wynter.


      CAPITULO QUATRO

      Damien perdera os traos de cansao pelo fuso horrio que estava revelando antes. Entrar em confronto aberto com algum sempre lhe injetara doses extras de
adrenalina. Que dessa vez fosse uma mulher s tornava tudo mais estimulante, especialmente sendo Charlotte Ramsey.
      Peter lanou-lhe um olhar de soslaio enquanto desciam as escadas, perguntando, em voz baixa:
      - Estou mesmo notando um interesse especial em minha irm?
      - Isso seria um problema para voc?
      Irmos mais velhos podem ser suscetveis nesses casos. Damien no queria envolver-se com a famlia Ramsey por um caminho imprprio. Peter era um bom amigo,
tanto pessoal quanto profissionalmente, e seu pai seria um inimigo dos mais difceis. E, ainda assim, no queria ser excessivamente cauteloso em sua aproximao
de Charlotte. Isso trairia sua natureza.
      Um sorriso despreocupado foi a resposta.
      - No me afetar, de modo algum. Mas voc deve saber, meu amigo, que minha irm  uma adversria incansvel.
      - O que s aumenta minha disposio, Peter.
      - Ento, se voc quer vencer, precisa lev-la a srio. No pense que vai ser presa fcil.  uma pessoa capaz de enfrentar meu pai. Como poucas neste mundo.
      Definitivamente, no era algo fcil. Isso j estava evidente para ele. Mark Freedman devia ter descoberto algum ponto fraco, aproveitando-o para atingir o
corao dela. Sem dvida, o prmio justificava o trabalho duro para um homem decidido a dar um golpe, e o dia da premiao j estava marcado para duas semanas depois.
      - Ela no devia estar com Freedman - murmurou Damien.
      - Ningum devia estar com Freedman - Peter concordou com sarcasmo. - Mas ele pe um pouco de doura na vida de Charlotte. E voc est longe de ser, digamos
assim, uma colher de acar.
      No, ele no era. E no tinha mesmo nenhuma inteno de adoar a vida de ningum. No havia nem tempo para isso. Precisava agir rapidamente, mudar o prprio
jeito de pensar de Charlotte, atingir logo o centro de sua personalidade. A doura podia enjoar com o tempo, e seus instintos lhe diziam que o paladar dela apreciava
sabores mais cidos.
      - Estou no ramo de outras especiarias - falou Damien. Peter deu uma risada.
      - Bem, eu mesmo, gosto de temperos fortes, meu amigo. No vivo sem sal e pimenta. E, para dizer a verdade, a prpria Charlotte nunca foi uma criatura dcil,
nem quando tinha 16 anos.
      - E quantos anos ela tem agora?
      - Trinta. - Os olhos azuis de Peter ficaram mais srios ao penetrar naquele terreno. - Dois anos mais nova que eu e com a inteno de comear uma famlia.
Duvido que troque algo certo por uma aventura com voc.
      - Algo certo que certamente vai ser um fracasso assim que Freedman mostrar seu verdadeiro rosto. Ele j escorregou duas vezes esta noite, Peter.  melhor sua
irm sair fora.
      - Eu concordo, mas... - Ele demonstrou seu desnimo. - Nem mesmo meu pai consegue tir-la dessa enrascada.
      - Ela quer sair fora.
      - Se voc fizer com que ela queira, tiro o meu chapu.
      Chegaram ao convs inferior e entraram no salo. Damien estava satisfeito por estarem de acordo sobre o futuro de Charlotte com Mark Freedman. Ter filhos com
o homem errado era um desastre, em sua opinio, tanto quanto ter filhos com a mulher errada. Seus instintos lhe diziam que Charlotte Ramsey podia ser a mulher certa
para ele. Ela queria comear uma famlia... e Damien no tinha nenhum problema quanto a isso.
      Casamento no estava em seus planos imediatos. No era algo que pudesse ser programado, pois dependia do encontro com uma mulher com quem quisesse se casar.
Estava com 34 anos e at agora havia negligenciado a questo. As relaes que tivera nunca haviam durado muito, com a paixo se extinguindo quando a incompatibilidade
tornava o tempo passado juntos mais exaustivo do que excitante. Precisava de algum que pudesse incorporar  sua vida... que pudesse viv-la com ele.
      No ia eliminar a possibilidade de que Charlotte Ramsey pudesse ser essa mulher.
      O salo de pquer estava pronto para o jogo: oito cadeiras em volta de uma grande mesa oval, um lugar extra para o dealer, fichas de apostas distribudas e
os convidados especiais de sr. Ramsey circulando ao redor enquanto terminavam seus drinques. Mas havia mesas menores por trs das cadeiras onde as taas poderiam
ser colocadas, ao alcance da mo.
      Quando Charlotte entrou com Mark, viu Peter conversando com o pai, cujo olhar imediatamente a localizou. Era a nica mulher no salo e podia no ser uma presena
bem-vinda. Damien Wynter no podia pedir ao pai de Charlotte que a deixasse ficar. Ningum dizia a Lloyd Ramsey o que fazer. De todo modo, agora que tinha vindo,
ela no queria ser convidada a sair, o que seria uma atitude desdenhosa em relao a Mark.
      O brao dela enlaou o do noivo quando seu pai tocou o chapu em sinal de considerao, escutando Peter lhe explicar a situao que ele e Damien haviam criado.
A tenso de Charlotte transformou-se em raiva quando viu a boca do pai expressar seu deleite. O desafio de Damien Wynter no era nenhuma brincadeira para ela. Queria
terminar com aquilo o quanto antes. Manteve o foco no pai e no irmo, recusando-se em conceder ao outro a recompensa de seu olhar.
      - Charlotte, que prazer inesperado! - o pai disse, em boas-vindas, sua larga boca num sorriso que invariavelmente recordava a figura de um tubaro. Havia ficado
calvo alguns anos antes e sua testa grande, seu protuberante nariz e os dentes brancos contribuam para a lembrana do predador marinho. Virou-se para seu assistente:
      - Mais duas cadeiras  mesa, por favor.
      - Eu no vou jogar, sr. Ramsey - Mark rapidamente o interrompeu.
      O "senhor" deferente e servil machucava os ouvidos de Charlotte. Ela no queria seu futuro marido rebaixando-se diante de seu pai, particularmente no aquela
noite, na frente de Damien Wynter.
      - Mas, se no for incmodo, gostaria de ver Charlotte jogando - ele prosseguiu, no tom submisso que a exasperava. Realmente soava como bajulao.
      - Certo! - O pai aprovou, com o sorriso de tubaro estampado na face. - Mas saiba que poder ter uma viso muito diferente da Charlotte que voc conhece.
      Estava afiando suas presas, no esnobando Mark de maneira decidida, mas insinuando que ele poderia ter um conhecimento superficial da noiva. O que no era
verdade. Ela no era apenas um cofre recheado para Mark. Embora ele, de fato, parecesse estar atrado pelo estilo de vida que aquele casamento poderia proporcionar.
      - Bem, eu acho que a conheo bastante - declarou com alguma confiana, procurando dissipar a irritao de Charlotte. Mas no sabia o que estava sendo gerado
dentro dela naquele momento: o rancor totalmente perverso de que ele no fosse mais parecido com Damien Wynter, que no possusse aquela mesma desenvoltura e segurana
dos que se sentem no direito de estar em qualquer lugar e de ter tudo o que querem.
      Charlotte tentou fazer-se recordar que Damien havia nascido em um meio que naturalmente o havia moldado daquele jeito. Mark, no. E ela gostava da diferena.
No havia sentido em questionar o prprio juzo nesse ponto. Antes de perceber que estava infringindo uma resoluo, lanou um olhar orgulhoso e desafiante ao homem
que estava minando as bases de suas certezas, na tentativa de mostrar-se imune a qualquer influncia que ele pretendesse exercer sobre ela.
      A sensao de que ele a estivera olhando por um longo tempo, esperando ser correspondido, querendo que isso acontecesse, a fez ficar agitada. Damien parecia
exultar de satisfao. Ela o viu pensando: Voc no pode escapar, Charlotte, e seu corao logo se ps em um ritmo acelerado. Sim, eu posso, seus olhos telegrafaram-lhe
de volta.
      Ele detectou as cadeiras sendo colocadas para ela e para Mark, e ento, de modo explcito, pediu a que se situava frontalmente ao local onde estariam acomodados.
      - Sentem-se, cavalheiros - o pai indicou, direcionando-lhe um sorriso. - Minha filha testar suas habilidades contra as dos senhores.
      A hilaridade espalhou-se pelo salo. Era bvio para Charlotte que aqueles poderosos convidados no a consideravam uma ameaa. Eram condescendentes com ela
por causa de seu pai. O anfitrio a havia aceitado  mesa e, portanto, qualquer protesto teria sido impensvel.
      - Fiquem avisados de que ela no deve ser subestimada como jogadora - Lloyd Ramsey continuou. - Charlotte j me deixou liso mais vezes que sou capaz de lembrar.
      - A mim tambm - disse Peter. - Tem nervos de ao. Ela no teria chegado a ser um s do mercado financeiro sem isso.
      - s do mercado financeiro? - Damien mostrou-se claramente surpreso, olhando para Peter, que estava em uma cadeira ao seu lado.
      - Charlotte trabalhou para um banco internacional.
      - Isso sim  uma novidade.
      Charlotte fez sua prpria expresso de triunfo quando Damien Wynter a encarou de um modo completamente novo. Ele, provavelmente, j a tinha rotulado como uma
socialite, com mais nada para fazer alm de manter a elegncia - uma mulher moldada para postar-se ao seu lado e cumprir todos os papis sociais que lhe fossem pedidos.
      Peter dirigiu a ela um olhar significativo ao coroar sua fala:
      - Era considerada um fenmeno, e no exatamente por causa dos seus vestidos.
      - Fascinante - murmurou Damien, com as pupilas subitamente em brasa, seu interesse atiado, em vez de atenuado com a nova informao.
      Para consternao de Charlotte, sua espinha foi percorrida por um jato de estmulo sexual, e seus mamilos contraram-se imediatamente. Ela no queria ter esse
tipo de reao fsica a Damien Wynter. E por que, afinal, ele gostaria do fato de que ela tivesse um crebro que muitos homens evitariam por impor-lhes uma competio?
      - Tenho coisa melhor para fazer com minha vida agora - declarou prontamente, voltando-se para Mark, que estava sentado bem atrs. Tomou a mo dele para exibir
sua cumplicidade. - Fiquei feliz de abandonar aquele emprego para assumir uma carreira muito mais recompensadora como companheira de Mark pelo resto da vida.
      Tome esta, Damien Wynter, pensou, furiosa com a resposta do seu corpo s investidas dele e mal notando a alegria de Mark com seu pequeno discurso.
      - Chega de conversa! - o pai comandou, visivelmente irritado com Charlotte. Ele no apreciava a expresso pblica da devoo da filha ao noivo. Indicou ao
dealer que iniciasse o jogo e foi instantaneamente obedecido.
      Enquanto as cartas eram distribudas, Charlotte meditou sobre a desaprovao do pai. Ela compreendia que ele preferisse um homem como Damien Wynter, vinculando
riqueza a riqueza, mas, no que dizia respeito  sua vida pessoal, ela possua outras prioridades, e no estava disposta a renunciar a elas apenas pelo impacto de
uma atrao sexual.
      Pegou as cartas que lhe foram dadas e concentrou-se nelas, determinada a manter seu plano de jogo, evitando todo embate direto com o homem que queria enfrent-la
no campo de batalha.
      Uma hora depois, Damien tinha certeza de que ela escolhera a ttica de vencer o inimigo pelo cansao. Tinha apostado apenas quando ela estava fora do jogo.
E ainda assim os ganhos de Charlotte foram maiores que as perdas, o que significava que suas escolhas no eram de todo infundadas. Nem sempre ela entrava no jogo
quando ele saa, mas, invariavelmente, ficava de fora quando ele fazia uma aposta, mesmo que suas cartas fossem promissoras. Ao menos esse tinha sido o caso em uma
oportunidade, porque Mark a olhara com surpresa diante de sua deciso.
      Mark no sabia manter as aparncias necessrias em uma mesa de pquer. Charlotte, por outro lado, no alterava sua fisionomia sequer ao ver as cartas. Era
impossvel dizer se estava blefando ou no ao fazer suas apostas. De toda forma, se sua habilidade no tinha sido respeitada antes do incio do jogo, isto foi mudando
 medida que sua pilha de fichas crescia e outras minguavam.
      Damien tambm estava alcanando sucesso com suas cartas, mas retirava pouca satisfao disso. Queria que Charlotte o enfrentasse, que parasse de fugir. Finalmente,
a frustrao o levou a desafi-la:
      - Voc est com medo de perder para mim, Charlotte? - disse com sarcasmo, tentando atingi-la por sob a armadura.
      Os olhos dela zombaram da investida.
      - Terei lhe privado do prazer de uma vitria sobre mim, Damien? - replicou, como se no tivesse sido essa sua inteno. - Ento, vamos ver minha prxima mo.
Se receber cartas que me derem boas chances e voc pensar o mesmo das suas... mas no posso dizer nada de mos vazias, no  mesmo?
      O sorriso de Charlotte o deixou com suspeitas. No era um sorriso descuidado. Demonstrava uma inteno secreta. As aes dela no dependiam da sorte. Ela sabia
precisamente quais seriam seus movimentos, e contrari-lo lhe dava prazer.
      As cartas foram distribudas mais uma vez. Damien pegou o s de copas e o s de paus, um par imbatvel quela altura do jogo. Empurrou suas fichas, declarando
que estava jogando naquela rodada e aguardou a deciso de Charlotte. Fixou-se em seus clios abaixados enquanto ela avaliava suas cartas.
      Quando chegou sua vez, ela casualmente empurrou algumas fichas, o que de imediato chamou a ateno de todos. O desafio de Damien havia despertado algum interesse.
Os outros jogadores, queriam v-los frente a frente, os dois maiores vencedores enfim em confronto aberto.
      Estaria Charlotte apenas querendo satisfazer a expectativa deles? Abandonaria a rodada assim que recebesse suas prximas cartas? O corao de Damien acelerou
enquanto ele imaginava essas possibilidades. Nunca antes uma mulher o enfrentara com tal determinao.
      Olhou para Mark Freedman, em busca de algum sinal sobre a mo de Charlotte. Uma leve dobra em sua testa indicava desconcerto. Ou ela estaria blefando ou Mark
no compreendia o valor das possveis combinaes.
      Dois jogadores estavam dispostos a continuar. Os outros se retiraram da partida. O dealer estendeu as cartas abertas: um cinco de espadas, uma rainha de copas
e um s de espadas. Damien ficou entusiasmado. Agora ele tinha trs ases, o que fazia dele um oponente difcil de ser batido. Mesmo que Charlotte tivesse trs rainhas
ou trs cincos, ela no poderia super-lo.
      Ainda assim, sem nenhuma hesitao, ela declarou:
      - Estou dentro. - E arrastou todas as suas fichas para o centro da mesa.
      Ergueu o olhar na direo do adversrio, deliberadamente incitando sua participao no jogo. A excitao tomou o corpo inteiro de Damien, esquentando-lhe o
sangue e os msculos. Ele a queria. E naquele momento decidiu que de maneira alguma a deixaria escapar.
      Mas a quantidade de fichas em questo era intimidante. Os dois outros jogadores restantes imediatamente entregaram os pontos. Para seguir adiante, ele teria
que arriscar tudo o que tinha ganhado at aquele momento e ainda mais.
      Estudou as cartas. Havia duas do naipe de espadas sobre a mesa. Se ela tivesse outras duas e o turn ou o river, ainda por serem expostos, fossem tambm de
espadas, ela poderia venc-lo com flush. Mas as probabilidades iam contra isso. Ela poderia estar arriscando um straight-ace se tivesse duas cartas que pudessem
complet-lo e uma terceira surgisse, mas aquela tambm era uma chance remota. Quatro rainhas ou quatro cincos estavam quase fora de questo.
      Ele olhou em sua direo.
      A boca de Charlotte exibia um leve sorriso de escrnio.
      Derrotado, era a mensagem que ela telegrafava.
      Ele no acreditava nela, e no acreditaria, no naquelas circunstncias.
      - Ento vamos l - disse, empurrando as fichas, somando assim de longe a maior quantia apostada em toda a noite at aquele momento, e criando um ar de eltrica
expectativa ao redor, com todos atentos ao desfecho.
      Charlotte recostou-se como se no estivesse nem um pouco preocupada. Um sorriso sutil ainda permanecia em seus lbios, e seus olhos pareciam refletir uma verdadeira
felicidade interna.
      Uma certeza tomou a mente de Damien: fiz o movimento errado, o movimento que ela queria que eu fizesse. Estava condenado a perder e no podia mais desistir.
O turn j ia ser exposto.
      Era um oito de ouros.
      O que no lhe servia para nada.
      Para ela tambm no, pensou.
      Finalmente surgiu o river: um seis de copas.
      E nem por um segundo Charlotte mostrou estar decepcionada. Com um gesto negligente, apenas lanou suas cartas sobre a mesa. Se o river fosse de espadas, ela
teria amflush completo, se fosse um trs, teria um straight. Mas aquilo a deixava sem nada.
      - Acho que no foi desta vez - ela disse, sorrindo com vivacidade. - O que voc tem, Damien?
      - Trs ases. - Ele baixou as cartas.
      - A mesa  sua. - Ela levantou-se para cumpriment-lo. - Meus parabns!
      A compreenso foi imediata. Ela havia deliberadamente se arriscado com uma jogada em que era quase impossvel vencer. Tinha de fato entregado a vitria a ele.
E, sem mais nenhuma ficha, no poderia mais jogar, uma fuga perfeita, enquanto ele ficava preso  mesa pela montanha de fichas que ela praticamente lhe havia cedido.
      Damien levantou-se, a admirao e o desgosto sobrepondo-se.
      - At a prxima, Charlotte. - Ofereceu-lhe o cumprimento, com uma mensagem nos olhos de que aquela fuga era apenas provisria, apertando-lhe a mo por alguns
segundos a mais, antes de libert-la.
      Percebeu como ela estava aliviada ao dirigir-se aos outros jogadores:
      - Obrigada pelo jogo, senhores. Continuem aproveitando.
      Comentrios de apreciao foram feitos enquanto ela e Mark Freedman saam do salo. Damien retomou seu assento e Peter inclinou-se para lhe dizer:
      - Voc caiu direitinho, meu amigo.
      - Eu sei - reconheceu. - Sua irm  esquiva como uma gazela.
      - Eu desisti de jogar xadrez com ela quando era adolescente - disse Peter.
      - No vai ser to fcil comigo - Damien respondeu.
      Charlotte Ramsey era tudo o que ele queria de uma mulher.
      Ele a raptaria antes do casamento se tivesse de faz-lo.
      Durante a hora seguinte conseguiu perder todas as fichas, simulando m sorte em fracassos consecutivos e ainda deixando os outros jogadores alegres com suas
vitrias.
      - A noite  uma criana - disse ao ouvido de Peter ao retirar-se do jogo.
      - Boa sorte - foi a resposta apropriada. Eram 23h30.
      Damien foi at o convs superior do Sea Lion procurar a mulher que agora mais do que nunca desejava. A festa de rveillon estava no auge, com todos os convidados
cantando e danando, em xtase com a msica mais famosa de Nancy Sinatra: These Boots Are Made for Walking.
      Ele capturou Charlotte com o olhar quando ela se deliciava danando aquela msica.
      Ela no vai escapar, Damien sentenciou, abrindo caminho na multido at o local onde Mark Freedman a acompanhava. Queria estar sozinho com Charlotte Ramsey
e nada iria impedi-lo.


      CAPITULO CINCO

      - Voc se importaria se eu danasse com a irm de Peter?
      O choque transformou os ps de Charlotte em blocos de chumbo. Ela olhou, sem acreditar no que ouvia, para aquele homem imperturbvel, apesar de ter sido logrado
e manipulado na mesa de pquer. De acordo com sua experincia, os homens nunca queriam as mulheres que os tivessem vencido em um jogo. Egos atingidos no andavam
lado a lado com o desejo.
      Ele tinha de estar com raiva.
      Seu corao batia em protesto quando Mark abriu caminho para que ele a tomasse come par.
      - Desde que voc no se importe em me devolv-la antes da meia-noite. - Mark sorriu para Charlotte, com seus pequenos olhos brilhando de satisfao antecipada
por passar aquele momento mgico com ela.
      - Certo - disse Damien, dispensando quaisquer outras necessidades de entendimento com Mark Freedman.
      - Estarei no bar - Mark disse para Charlotte ao partir, possivelmente sentindo as vibraes de que sua atitude em relao a Damien no a agradava.
      Ele daria a ela as liberdades que quisesse, mas Charlotte no as queria. No no que se referia a Damien Wynter. Mark no deveria afastar-se dela.
      - Deixe-o ir - falou Damien enquanto ela acompanhava a sada do noivo com o olhar.
      Sua cabea virou-se para o homem que estava determinado a confront-la novamente. Os olhos estavam inflamados de dio pelo tom de menosprezo em suas palavras,
mas ele no se intimidou.
      - Este sujeito no a merece, Charlotte.
      - E quem  voc para julgar? - As palavras saltaram-lhe da boca em um acesso de fria com aquela crtica presunosa.
      - Se voc fosse minha...
      - Eu no sou sua!
      - ...eu no concederia meu lugar a seu lado a nenhum outro homem. Eu lutaria por voc. - Fez uma pausa para deixar que ela compreendesse todo o significado
do que dizia. - Como, estou lutando agora.
      Em sua voz ressoava um propsito infatigvel, fazendo com que o corao de Charlotte comeasse a galopar de maneira selvagem.
      - Por que voc est fazendo isso? - ela disse, em desespero com a maneira como aquele homem estava revolvendo suas emoes. - Por que voc no est l embaixo
jogando pquer?
      - Ganhar um jogo de pquer  muito menos importante do que ganhar voc.
      - Mas eu o deixei com fichas suficientes para...
      - Para jogar como um cavalheiro, arriscando muito em mos de poucas probabilidades de vitria. Como voc fez comigo. De propsito.
      Sorriu de admirao ao expor seu entendimento do plano. Aquilo no estava de acordo com a avaliao que ela havia feito dele. Ele no estava ferido por ter
sido enganado. Na verdade, Damien tinha, inclusive, copiado a ttica e a reconhecia abertamente.
      Charlotte balanou a cabea, tentando clarear seus pensamentos em meio  confuso que ele era capaz de provocar nela.
      - Eu no sou um prmio - disse. - Como, ento, voc acha que poderia me ganhar?
      - Voc no  um prmio qualquer - ele respondeu. - Voc  algo muito, muito especial para mim.
      Certamente, ele deveria ter vrios outros trofus conquistados em diversas partes do mundo, todos expostos em uma galeria de fotos em sua manso inglesa. Seria
sua resistncia que estava provocando aquela determinao?
      Os olhos dele se fixaram nos dela com confiana quando declarou:
      - Eu acredito que somos almas gmeas, Charlotte Ramsey.
      E aquilo era to inesperado, to desconcertante, que Charlotte perdeu a respirao. E ele no se deteve nisso, aproveitando a oportunidade para tom-la pela
cintura e provocando uma onda de calor em todo o corpo.
      - Dance comigo - ele pediu, com palavras que soavam como um chamado da natureza para que ela o acompanhasse.
      - Tire suas mos de mim! - Charlotte recuperou-se do seu atordoamento. Aquelas mos no tinham direito sobre o seu corpo. Lutando contra um ataque de pnico
pela proximidade de Damien, com a ameaa de que ele assumisse o controle sobre ela, afirmou sua independncia com ferocidade: - Ns podemos danar separados.
      - Certo. Ento vamos danar separados - ele concordou, com o tom de desafio ainda presente na voz. - D o ritmo, Charlotte, eu a acompanharei.
      Ela deveria ter negado. Deveria ter sado da pista de dana e procurado Mark no bar. Mas isso no significaria que estava com medo dele, medo do que ele lhe
causava? Alm do mais, estava com raiva de Mark, por t-la deixado com aquele homem! E usou a raiva para colocar-se em movimento no ritmo da msica, dizendo a si
mesma que iria impingir a Damien uma outra humilhao.
      Mas ele era um bom danarino. Ela recorreu a tudo que aprendera na escola de dana e ele no perdeu sequer um passo, no apenas a acompanhando, mas, expondo
sua prpria habilidade, forando-a a seguir seus movimentos. E, apesar da exasperao com a arrogncia de Damien, Charlotte por fim sentiu que estava mais uma vez
excitada ao confront-lo.
      Ele acrescentava um toque de perigo ao embate. Ela sentia estar sendo perseguida por um animal que preparava o bote, e poderia atac-la a qualquer momento,
mas, por enquanto, limitava-se a exalar o forte cheiro de sua presena. Havia uma provocao contnua nos olhos dele, o que a levava a revelar tudo o que ele no
poderia ter sem sua permisso. E ela nunca daria essa permisso. Nunca!
      Era o que os olhos dela diziam.
      Eles diziam: Olhe o quanto quiser, Damien Wynter. Olhe o quanto quiser... o que voc jamais poder ter!
      E, apesar disso, ela era obrigada a admitir o seguinte: danar com ele gerava um carga de energia sexual em torno de ambos que nunca sentira com Mark. Danar
com Mark era divertido. Isso era algo mais misterioso, mais primitivo, que despertava lugares que pareciam esquecidos dentro dela. A sensibilidade de Charlotte quela
aproximao era evidente; flechas de excitao atingiam suas coxas enquanto danavam, algo tremia em seu peito, o corao batia mais rapidamente e com mais fora.
      - Termine tudo com Freedman - ele disse quando uma redoma de sensualidade parecia t-los isolado dos outros danarinos na pista.
      - Por voc? - Ela deu uma risada.
      - Ele no  sua alma gmea. Ele  seu cachorrinho de estimao.
      Charlotte ficou chocada com a audcia daquela definio.
      - Voc sente afeio porque ele faz tudo o que voc quer e est sempre abanando o rabinho - Damien prosseguiu, com escrnio. - E, sem dvida, as lambidas que
ele d a fazem sentir-se amada.
      Ela no pde impedir que a imagem invadisse sua mente a repugnasse. Damien estava encarando Charlotte, os olhos negros inflamados de convico.
      - Ele no serve para voc, Charlotte.
      - Melhor um cachorrinho que um lobo - ela lanou de volta.
      - E voc no sabe que  uma loba, Charlotte? Minha parceira em todos os sentidos?
      Ela ficou ultrajada com aquela leitura de seu carter, vinculando-o ao dele.
      - Eu no sou assim! - gritou.
      - Sim, voc . Voc protege seu territrio com Mark melhor do que ele. E no s morde como vai direto na jugular quando se sente ameaada.
      - No vejo ainda nenhum sangue em voc - ela argumentou com veemncia. - Se sou to perigosa, por que no desiste?
      - Porque estou disposto a morrer em seus braos se for preciso.
      A vontade de realmente mord-lo lhe ocorreu. Em vez disso, ela se afastou, descarregando o dio em uma violenta seqncia de passos de dana. Ele a seguiu,
como uma presena magntica no podia ser ignorada, um redemoinho de energia masculina ao seu redor, exigindo que ela o encarasse. E o orgulho prprio insistia que
o fizesse.
      - 0 que eu tenho com Mark  muito srio - declarou, mantendo uma crosta de segurana por sobre o desejo que flua em seu corpo, traioeiramente ativando instintos
incontrolveis.
      - Voc construiu uma fantasia a esse respeito, no  real, Charlotte, no pode ser real, porque h paixo pulsando entre ns.
      - Voc est errado.
      - No, no estou. Voc  que no quer admitir algo que arruinaria seus planos. Mas a verdade  que eles j esto abalados, Charlotte.
      - No deixarei que isso acontea - ela disse com uma determinao cega. - Caso voc no saiba, h uma grande diferena entre atrao fsica e amor.
      - Freedman assinou um acordo pr-nupcial?
      Ela balanou a cabea com total rejeio por aquele tipo de atitude calculista.
      - Eu no pedi que o fizesse.
      Os lbios de Damien delinearam um sorriso de menosprezo.
      - Caso voc no saiba, h uma grande diferena entre amor e dinheiro. Teste-o, Charlotte.
      - Isso significaria falta de confiana. Amor e confiana andam lado a lado.
      - Se ele realmente ama voc, assinar o acordo de olhos fechados.
      - Eu no vou pedir isso a ele.
      - Covarde.
      Aquilo doeu. Era pior do que todas as outras coisas que ele tinha dito. Ela o olhou em muda frustrao, repudiando a maneira como ele estava sempre investindo
contra suas defesas, minando sua segurana na relao com Mark. Seus ps pararam de danar. Os braos penderam para os lados, as mos tensas e fechadas. Ela no
se importava em ser chamada de covarde por terminar aquele encontro. Ela o terminaria.
      - Basta! Voc teve sua dana, Damien Wynter, e eu gostaria que ficasse longe de mim pelo resto da noite.
      Girou nos calcanhares, pronta para ir at Mark, que a estaria esperando no bar. Mas, antes que pudesse dar um passo, braos fortes a seguraram pela cintura,
puxando de volta todo o seu corpo, colocando-o em contato com o homem que havia dispensado.
      - Entenda o que eu sinto por voc, Charlotte - ele murmurou, e deu-lhe um beijo arrepiante na curva exposta do pescoo.
      Por um momento ela esteve muito aturdida para reagir. Sentia o corpo como se estivesse preso por correntes de ferro. A sensao de calor da virilha de Damien
atrs dela. A pele em chamas. Estava sem sada.
      - Voc nunca ter dele o que pode ter de mim - veio o sussurro obsceno.
      Isso a incitou a uma resposta furiosa:
      - Eu nunca terei de voc o que posso ter dele. E agora me deixe ir ou ficar com a marca dos meus dentes no brao.
      Charlotte disse isso j se arrependendo no meio da frase.  claro que uma ameaa daquelas s aumentava o nvel da tenso sexual entre os dois. Esperou a rplica
de Damien quase desfalecendo. Mas, ao contrrio do que imaginava, ele apenas afrouxou a pegada, com um sorriso vitorioso no rosto.
      - V buscar seu cachorrinho. Ele no servir de nada diante das verdades que eu lhe disse hoje.
      Ela se desvencilhou das mos que continuavam a toc-la e saiu sem olhar para trs, bufando com a ultrajante presuno do homem que deixava para trs.
      Damien Wynter era uma encarnao do demnio, instigando dvidas e alimentando tentaes, mas as resolues dela no iam ser abandonadas. Mark Freedman era
quem ela havia escolhido para casar-se, por muito boas razes, e Charlotte ia manter sua deciso. Damien Wynter era apenas um navio escuro e misterioso que passava
na noite.
      Todos os sentimentos indesejveis que havia despertado iam passar.
      O que ela e Mark tinham juntos no era uma fantasia.
      Era algo slido.
      Algo que ia durar.
      Algo que ela ia fazer com que durasse.


      CAPTULO SEIS

      Quase meia-noite.
      Charlotte havia bebido uma taa de champanhe no bar antes de sair com Mark para assegurar uma boa posio na balaustrada da proa mais uma vez. O efeito rpido
do lcool, necessrio para desfazer a impresso fsica que Damien havia deixado em seu corpo, no se misturou muito bem com o ar fresco do lado de fora do salo.
      Sentindo uma vertigem desagradvel, apoiou-se em Mark at chegar ao local determinado, e, ento, respirou fundo, com a esperana de atenuar o nauseante redemoinho
em sua cabea. Seu desconforto no diminuiu quando Mark moveu-se atrs dela, passando os braos pela cintura dela e dando um beijo no mesmo lugar que ele havia beijado.
Sentiu uma repulsa instantnea. E profundamente inquietante.
      - Voc est com frio, querida? - Mark perguntou, percebendo a reao de Charlotte diante daquela demonstrao de intimidade.
      - Est um pouco fresco aqui fora - Charlotte desculpou-se, odiando-se por sentir to negativamente o toque do homem que ela amava. Sim, ela o amava. E para
prov-lo virou-se e ps os braos em volta de seu pescoo, sorrindo com ternura quando a contagem regressiva para os fogos da virada do ano comeou. - Eu acho que
um beijo me esquentaria.
      Mark deliciou-se com a sugesto. Nenhuma sombra sobre a relao de ambos pairava em sua cabea, e ele a beijou com um fervor que deveria ter-lhe derretido
os ossos. E ela esforou-se em entrar em um clima de paixo, tocando a lngua dele com vontade, as coxas apertando-se contra seu corpo, os seios comprimindo-se ao
seu peito, as mos segurando-lhe a cabea, forando a conexo dos lbios em continuar. Mas a cabea de Charlotte no ajudava.
      Ela pensava se Damien Wynter os estaria observando. Fervilhava de mensagens telepticas para ele. Este  o meu homem. No voc. Veja minha paixo por ele.
Voc no estragou nada entre ns. Eu no vou deixar que isso acontea.
      O problema era que uma verdade diferente havia capturado seu corpo, privando-lhe de sua resposta habitual ao contato com Mark. Ela no se sentia excitada.
Apesar da necessidade urgente em assegurar-se de sua escolha, sentia-se estranhamente vazia quando Mark interrompeu o beijo para ver as cascatas de cores inundando
o cu. Sentia-se terrivelmente s e subitamente em dvida quanto ao futuro daquela relao.
      Olhou para o corao vermelho, ainda pulsando dramaticamente no centro da ponte. Por que nossos coraes no esto mais enlaados?, perguntou-se em um desespero
silencioso. Tudo era to bom com ele antes que Damien Wynter aparecesse! Ela nem mesmo suportava aquele homem. Como poderia gostar dele?
      E ela no combinava com ele, tampouco. No era bonita, e ele era belo como um astro de cinema. Apesar de dizer que ela era especial. Palavras, Charlotte pensou,
so s palavras. Ela no podia, de fato, acreditar que significasse algo para ele. Mais provavelmente, era a idia de uma conquista em territrio proibido que lhe
havia incitado a persegui-la, o que era muito mais recompensador do que alcanar as coisas com facilidade.
      Os fogos de artifcio no provocavam nenhuma sensao de alegria, apesar da incrvel exibio que marcava seu trmino. A promessa do que traria o Ano-novo,
seu casamento, um matrimnio feliz com Mark, engravidar, ter um beb... parecia estar se dissolvendo na atmosfera, tornando-se menos real. Ela queria agarrar-se
quilo. Mas at sua fora de vontade tinha sido atingida pelo contraste de suas sensaes com os dois beijos que recebera naquela noite.
      - Em quanto tempo o iate volta s docas? - Mark perguntou, sua boca soprando-lhe os cabelos que pendiam na face.
      - Ficamos at 01h.
      - Muito tempo - ele respondeu, com a respirao prxima aos ouvidos de Charlotte, e ento lambendo seus lbulos. - Eu quero fazer amor com voc.
      Lambendo... como um cachorrinho.
      Charlotte fechou os olhos com fora mas no conseguiu afastar a imagem de sua cabea. Com os punhos cerrados, precisava lutar para elimin-la com todas as
energias que possua. Mark no era aquilo. Amaldioou Damien Wynter por t-la deixado com aquela incmoda sensao. No era justo. E, mesmo que fosse, havia mais
amor em um cachorrinho do que em um predador que preferia tomar a oferecer.
      E ainda assim ela estremecia com a possibilidade de fazer amor com Mark naquela noite. Estava com medo de no conseguir corresponder, de no ser capaz de sentir
prazer. E fingir seria abominvel. Precisava de tempo para superar aquilo, tempo para esquecer o que podia ser somente uma qumica sexual fermentando em seu sangue,
injetada nele por um homem decidido a atrapalhar sua vida. Se ele ficasse fora do seu caminho...
      - Mais duas semanas e estaremos casados, Mark. Eu estive pensando... - Um sentimento de vergonha com a trapaa que estava prestes a fazer inibiu sua fala.
      - Esteve pensando o qu?
      Era uma trapaa ou o melhor recurso para proteger o que acreditava ter com Mark? Respirou fundo e virou o rosto para ele, as mos pousando com suavidade em
seu peito e os olhos implorando sua compreenso.
      - Voc se importaria se no fizssemos mais amor at a noite de npcias?
      -  um pouco difcil quando estamos dividindo o mesmo apartamento, querida.
      Ele havia abandonado seu apartamento e mudado para o dela meses antes, colocando os prprios mveis em um depsito at que comprassem uma casa maior. A mudana
havia gerado a observao do pai de Charlotte de que Mark estava aproveitando a oportunidade para economizar dinheiro, mas ela sabia que apenas pensara no que seria
melhor para os dois.
      - Eu poderia ir para a casa de meus pais esta noite - Charlotte sugeriu, desesperadamente esperando que ele concordasse. - Mame vai querer estar comigo por
esses dias, de qualquer forma, checando os arranjos do casamento. Vai ser mais fcil se eu ficar por l e...
      - E voc quer se sentir uma verdadeira noiva no dia do casamento - Mark interpretou, levantando as mos para o rosto dela e a acariciando compreensivamente.
      O alvio a tomou de tal maneira que s pde aumentar suas dvidas quanto ao futuro com Mark. Isso vai passar, disse a si mesma. Tem que passar.
      - Mas seria uma pena desperdiar o clima de romance desta noite, meu amor - ele insistiu, fazendo-a tremer de nervosismo enquanto procurava uma sada daquela
situao.
      Era natural... era a noite de rveillon...
      - Hummmm... - ela disse, como que considerando a idia, enquanto tentava eliminar o sentimento de repulsa que havia gerado. - Vamos danar enquanto eu penso
nisso.
      Mark estava animado e esforou-se em anim-la tambm, aceitando a proposta. Mas Charlotte ficou surpresa quando as engrenagens do iate entraram em movimento.
O tempo teria passado to rpido? Uma olhada no relgio lhe indicou que no. Ainda faltavam vinte minutos para 01h. Entrou em pnico. Por que de todas as noites
seu pai tinha de mudar o planejamento justo quando ela precisava de todos os minutos disponveis para afastar os demnios que Damien Wynter havia inoculado nela?
      - Estamos partindo antes - Mark comentou, feliz com a antecipao.
      - Parece que sim - ela respondeu automaticamente, seu instinto ainda recusando a possibilidade de deitar-se com ele.
      E a detestvel razo daquilo tudo - em pessoa - teve a audcia de meter-se entre eles quando danavam, no instante em que ela havia explicitamente pedido que
a deixasse em paz pelo resto da noite. Damien at mesmo a segurou pelo brao para que ela no deixasse de not-lo. Charlotte sentiu-se ofendida quase ao ponto de
comear a gritar. Mas ele falou primeiro, com um tom grave na voz que bloqueou o acesso de raiva:
      - Charlotte, voc est sendo chamada l embaixo.
      - Por qu? - Mark perguntou.
      Damien Wynter o ignorou, seus olhos percebendo o antagonismo dos dela, e tentando alert-la de problemas que iam alm de qualquer questo entre os dois.
      - Seu pai no est bem - ele disse com seriedade. - Peter est com ele. E j chamei sua me.
      O choque atingiu-lhe o corao. Agora tudo se explicava: a antecipao da partida do iate s podia ser devida a algum tipo de emergncia.
      - Muito mal? - ela perguntou, temendo pela vida do pai.
      Os olhos negros de Damien demonstraram compaixo, o que a fez esperar notcias piores. Parou de respirar at que ele respondesse:
      - No sei. Um mdico, um dos convidados, o est examinando. Uma ambulncia foi chamada para lev-lo ao hospital assim que chegarmos s docas. Venha, Charlotte.
      - Sim. - Estava muito preocupada com o pai para pensar em qualquer outra coisa. No reclamou quando Damien Wynter postou-se protetoramente ao seu lado e a
levou com ele, abrindo caminho entre a multido de danarinos, deixando Mark para trs. Ela estava estremecida e grata pela fora que emanava dele naquele momento,
ao gui-la com firmeza at o convs inferior.
      O assistente do pai estava guardando a porta do salo. Ele fez um gesto respeitoso na direo dela.
      - Srta. Ramsey, seu irmo me orientou a explicar a situao aos convidados e pedir-lhes que permaneam no convs superior at que seu pai seja retirado. Os
motoristas da famlia foram alertados. Eles estaro aguardando para seguir a ambulncia at o hospital.
      - Obrigada, Giles.
      Ele os conduziu ao salo. Os jogadores de pquer haviam partido. O pai estava deitado no cho, com o rosto, usualmente vermelho, totalmente sem cor, a pele
em um atemorizante tom de cinza. Seus olhos estavam fechados. Charlotte reconheceu o mdico ajoelhado ao seu lado - um famoso cirurgio, dr. Eric Lee. Estava segurando
o pulso de seu pai, checando os batimentos cardacos, e Charlotte sentiu imensa gratido pelo trabalho de caridade de sua me junto  Heart Foundation, o que fazia
com que aquele convidado estivesse ali.
      Sua me estava ajoelhada do outro lado, a mo esquerda dele entre as dela, com as marcas da ansiedade no rosto. Ela viu Charlotte entrar. Seus grandes olhos
castanhos estavam imersos em angstia, e seus cabelos, geralmente assentados com perfeio, estavam revolvidos com o transtorno de seus sentimentos. Charlotte sentiu
que a me estava profundamente ligada ao pai, apesar de seus diferentes estilos de vida. Se ela o perdesse...
      Nem pense nisso, Charlotte reprimiu a si mesma, sentindo seu prprio corao tremer com a possibilidade. Ela queria avanar para dar um abrao na me, mas
esta logo se concentrou novamente no marido, e a filha sentiu que no devia intrometer-se naquela silenciosa comunho, percebendo o quanto sua me desejava que ele
sobrevivesse e voltasse para ela.
      Peter estava sentado em uma cadeira atrs do mdico, curvado, com os cotovelos sobre os joelhos, esfregando as mos inquietamente. Eram as nicas pessoas no
local, apartadas do barulho l de cima.
      Damien ps uma cadeira ao lado da de Peter para que Charlotte sentasse. O irmo lanou um olhar de agradecimento  ajuda do amigo. Ento, voltou-se para Charlotte,
tomando-lhe as mos.
      - Parece que foi um ataque cardaco. No sabemos de que intensidade. Eles avaliaro o risco assim que chegarmos ao hospital.
      Ela apertou-lhe a mo com carinho fraternal. Esperaram em silncio at que o iate atracasse. Ela estava consciente da presena de Damien atrs da cadeira de
Peter, disponvel se alguma ajuda fosse necessria, e, apesar de toda a atribulao que ele lhe causara, no podia deixar de apreciar aquela atitude.
      Mark estava sentado em uma cadeira prxima, e Charlotte sabia que ele se sentia ligado a ela naquelas circunstncias, mas no podia sentir o mesmo. De alguma
forma, ele no fazia parte do que estava acontecendo ali. No sabia o que estava acontecendo. Ignorava o que era ser um Ramsey.
      Lloyd Ramsey era um gigante em todos os sentidos, e enquanto ela tentava encontrar uma sada do mundo que ele havia construdo, tentando forjar um tipo diferente
de vida com Mark, sabia tambm que ficaria arrasada em no t-lo por perto, indomvel como sempre fora, desafiando-a a se portar com o que e quem ela era, sentindo
orgulho de sua filha.
      Estaria ele certo em questionar sua "diverso" com um homem como Mark? Charlotte teria sido excessivamente teimosa? Ele tinha mostrado tanta decepo com ela
naquela tarde! Seria culpada por aquele ataque?
      Viva, papai, por favor. Ns precisamos conversar de novo.
      O iate parou. A porta do salo foi aberta. Ela ouviu Giles dando instrues. Em segundos, paramdicos entravam com uma maa. Peter moveu-se com agilidade para
ajudar a me a levantar-se. Charlotte comeou a empurrar as cadeiras de volta para a mesa de pquer, abrindo mais espao para a ao. Mark aproveitou a oportunidade
para falar-lhe:
      - Voc quer que eu v at o hospital com voc, Charlotte?
      Ela compadeceu-se com o tom de sua voz. Seria culpada por faz-lo sentir-se excludo? Mas ele era um excludo naquele caso. O pai no gostava dele, no o teria
na famlia se dependesse dele.
      - Eu vou com mame, Mark. Acho que no  necessrio. Volte para casa. Eu o chamo quando... quando tiver notcias.
      Ele consentiu de imediato, parecendo aliviado por ter se livrado de uma noite no hospital. Charlotte tambm teve a desagradvel sensao de que ele no se
afetaria se o pai morresse. Antes sentiria isso como a remoo de um entrave na relao de ambos. E ela sequer poderia culp-lo, com a recepo que ele tivera na
famlia, mas, de todo modo, preferia no t-lo por perto aquela noite. Qualquer conforto vindo dele ia soar falso.
      A me apoiou-se em Peter, querendo-o a seu lado na corrida para o hospital, seu filho, feito nos mesmos moldes do marido, e no uma filha rebelde que o desafiava.
Charlotte havia pensado que sua me entenderia sua escolha por um casamento diferente, mas, chegado um momento crtico, era a Peter que ela recorria para consol-la,
fazendo a filha sentir-se dolorosamente rejeitada.
      O irmo compreendia o que ela estava sentindo, e fez um apelo ao amigo:
      - Voc pode acompanhar Charlotte, por mim, Damien?
      - Claro - foi a resposta instantnea. - V, Peter, ns o seguiremos.
      Novamente, ela foi tomada pelos braos fortes e protetores de Damien. Ele a levou at a limusine e a acomodou no banco de trs, tomando um lugar a seu lado.
Ela no poderia repelir sua companhia. Ele era do mundo de Peter, do mundo de seu pai, familiar com seus mecanismos, com seus privilgios e responsabilidades. Ser
um deles no era exatamente algo censurvel naquele momento.
      A limusine partiu, seguindo a de sua me. Charlotte mantinha as mos no colo, tentando silenciar as emoes que a assaltavam, mas mal evitando que lgrimas
lhe jorrassem dos olhos.
      - Se fosse sua me que estivesse sendo levada, seu pai escolheria voc para acompanh-lo, Charlotte - Damien disse pausadamente. -  algo instintivo, buscar
o conforto no sexo oposto. No  nada pessoal.
      Seria verdade? Talvez fosse. A sensao que ambos os pais a estavam abandonando diminuiu, mas a dor no peito no foi embora. Ocorreu-lhe que Damien podia estar
agindo em interesse prprio.
      Lanou-lhe um olhar irnico em sua desolao:
      - Se isso  um convite para que eu busque conforto com voc, pode desistir. Mas se voc est realmente...
      - Por que voc mandou Mark embora? - ele a interrompeu.
      Charlotte virou o rosto, olhando atravs da janela:
      - No porque eu quisesse estar com voc, ento no imagine isso nem por um momento.
      - Eu no imagino isso. Apenas fiz uma pergunta pertinente sobre sua relao com o homem com quem pretende se casar.
      - No  da sua conta o que sinto por Mark. - Ela fez uma pausa antes de prosseguir com uma explicao. - Eu o mandei embora por causa de meu pai. No quero
v-lo angustiado com nada enquanto estiver fisicamente frgil.
      - Ento seu pai no aprova seu casamento.
      A satisfao em sua voz a levou a encar-lo.
      - O tempo vai provar que ele est errado em relao a Mark. - Mas ela j no estava to certa disso. Seria correto insistir no casamento com dvidas e temores
lhe bombardeando a todo momento?
      - O tempo pode provar que ele est com a razo - Damien contraps. - O tempo pode provar que Mark Freedman  um caador de fortunas, e que ele est manipulando
voc para conseguir uma vida tranqila.
      Charlotte sentiu-se ofendida com aquela insinuao de sua vulnerabilidade.
      - Eu no sou to facilmente manipulvel.
      - Tem certeza? Ento faa com que ele assine o acordo pr-nupcial, Charlotte. Isso vai acalmar seu pai. E  muito provvel que elimine um dos motivos de estresse
que levaram a esse ataque.
      Ela respirou profundamente, tentando afugentar o acesso de culpa que agora atacava seu prprio corao.
      - Voc no pode fazer esse julgamento. Pode ter sido por causa do colesterol, entupimento de artrias, algo errado com a sade de meu pai.
      -  verdade - ele concedeu. - Eu estava apenas recordando agora a expresso no rosto dele quando voc deixou o salo de pquer com Freedman esta noite.
      A culpa a apunhalou ainda mais dolorosamente. Sua mente agarrava-se  possibilidade de que Damien Wynter estivesse compondo uma cena que servisse ao seu propsito
- o de tirar Mark de sua vida.
      - Sem dvida, voc avaliou de uma maneira particular - ela argumentou.
      Damien deu um sorriso sarcstico.
      - Sem dvida, voc no quer ver a verdade. Ela suspirou, impaciente.
      - Isso  muito desgastante. Voc est jogando um jogo s seu, Damien Wynter, e no  uma boa hora para isso.
      - No, Charlotte. Esse jogo  nosso. E envolve tambm a tranqilidade de seu pai, de sua famlia. - Ele fez uma pausa. - Voc est prestes a cometer um grande
erro. E eu tenho que aproveitar todo tempo disponvel para fazer com que voc entenda que sou o homem que procura, no Freedman. Eu estou aqui ao seu lado, Charlotte.
Pense nisso.
      - No foi eu que pedi para que viesse - ela replicou no ato.
      - Mas voc aceitou.
      - Em um momento difcil.
      - Precisamente. Confie mais nos seus instintos. So eles que entram em ao nessas horas.
      O corao de Charlotte estava a mil por hora. Ela odiava o poder que ele tinha de deix-la daquele jeito.
      - Voc insiste em Mark por orgulho - Damien prosseguiu, incansvel. - E o orgulho no costuma fazer boas escolhas. So melhores as provenientes da afinidade.
      Ele percebeu que o peito de Charlotte arfava de agitao; as mos dela ainda estavam no colo, protegendo a fonte vulnervel de sua sexualidade; os joelhos
tremiam, talvez com medo de que ele fosse investir contra ela naquele instante. E se a beijasse? O que ela iria sentir?
      De fato, no poderia ter ido dormir com Mark.
      Era terrvel pensar que o ataque do corao de seu pai pudesse ter sido providencial, livrando-a de qualquer presso sobre o que faria.
      - Por favor, pare - ela falou, implorando com sincera fragilidade, suas foras mal suportando toda a carga de sentimentos e vontades que toda a situao envolvia.
      - Eu no posso parar de sentir o que sinto por voc, Charlotte - Damien respondeu com convico.
      -  a hora errada! - ela gritou, sem saber se estava se referindo quele instante dentro da limusine ou ao momento de sua vida que Damien Wynter tinha escolhido
para aparecer.
      Ele entendeu o recado. E, ento, disse, em um tom intenso, fixando os olhos negros nos dela para exprimir todo o significado do que estava falando, querendo
transmitir-lhe sua certeza com total exatido:
      - Essas coisas no tm hora para acontecer. Essas coisas simplesmente acontecem.
      E no disse mais nada. Suas palavras ainda ficaram suspensas na atmosfera do interior do veculo por algum tempo.
      Charlotte percebeu que contra aquela verdade ela no tinha o que opor. Mas no queria ceder a uma simples falta de argumentos.
      Em um silncio tenso, no qual se podia ouvir a respirao transtornada de Charlotte Ramsey e sentir a energia contida que emanava do corpo de Damien Wynter,
fizeram o restante do percurso a caminho hospital.


      CAPTULO SETE

      - Como est seu pai? - Mark perguntou, soando mais atencioso do que tinha sido quando ela lhe telefonara s 8h.
      Charlotte achou irritante, at mesmo ofensivo, que ele tivesse ido para casa e mergulhado em um sono profundo, para depois apenas dizer-lhe que o ataque de
seu pai havia sido apenas um aviso e no um perigo real, de modo que ele se recuperaria facilmente. A resposta pouco simptica e quase contrariada s novas noticias
a fizeram pensar inclusive se Mark no teria preferido ouvir que um funeral estava sendo preparado.
      - Vou para casa com mame agora - declarou bruscamente. - Ligo para voc depois de visitar meu pai  noite.
      - Certo - ele assentiu, de m vontade, como se estivesse de ressaca por causa de uma bebedeira. Teria celebrado os eventos da noite anterior? Ela valeria muito
mais com o pai morto.
      Terrveis pensamentos.
      E sem fundamentos reais.
      Sua mente estava afetada de um modo doentio por Damien Wynter.
      Eram 21h quando se isolou em sua sute privativa da manso em Palm Beach, longe de Peter e de seu amigo, que tambm estava ali hospedado. Ela descobrira isso
tarde demais! No podia afast-lo de sua cabea mas queria ser completamente honesta com Mark nessa conversa, sem atribuir a ele intenes injustificadas.
      - H apenas uma palavra parra descrever meu pai esta noite. Intratvel - Charlotte disse, tentando aliviar a tenso entre ela e o noivo. - Ele odeia ficar
doente. Quer vir para casa e est de pssimo humor porque mame insiste em que fique em observao por mais um dia.
      - Parece que j est pronto para outra - Mark respondeu.
      - Pelo menos  o que ele pensa. Eu perguntei se queria que adissemos o casamento, e ele retrucou que no  um invlido e estar ao lado da filha no dia marcado,
e com disposio ainda maior se ela seguir seus conselhos.
      - O que isso significa? - Mark interferiu, soando bastante desconfiado nesse ponto.
      Ela suspirou, sabendo que agora tinha que expor Mark a este teste, e no apenas pela paz de esprito do pai. Suas prprias dvidas precisavam ser solucionadas.
      - Papai disse que se eu realmente gosto dele, preciso fazer o que est pedindo antes do casamento. Eu sei que  chantagem emocional, Mark, mas... no vai fazer
diferena nenhuma para ns, no  mesmo?
      - O que no vai fazer diferena?
      - Assinar um acordo pr-nupcial.
      Silncio.
      Charlotte contou at dez, tentando controlar a tenso dentro dela.
      - Pensei que voc confiava em nosso amor, Charlotte - ele disse, enfim, em um tom magoado que lhe dava um aperto no corao. - Casar-se j pensando no divrcio...
que espcie de compromisso  esse?
      - Por favor, no olhe as coisas desse jeito, Mark.
      - E de que jeito devo olhar? - ele indagou, fazendo Charlotte recordar que eram os mesmos argumentos que usara com seu pai contra a idia do contrato, querendo
acreditar em um amor duradouro.
      Ela se concentrou em manter sua linha de raciocnio.
      - Eu quero apenas deixar papai aliviado. Se assinarmos o acordo, ele se sentir bem melhor com o casamento.
      - Isso  insultante.  um insulto aos meus sentimentos por voc, Charlotte.
      - Mark, se eu conheo seus sentimentos, e voc conhece seus sentimentos, isso no muda nada. Entendo que esteja chateado, mas ns podemos provar a papai que
ele est errado no futuro.  apenas um papel. Se o considerarmos sem significado para ns, ele realmente no ter valor algum.
      Outro silncio.
      Charlotte comeou a pensar que o papel significava algo para Mark.
      E no deveria significar nada.
      No deveria significar nada, a no ser que ele j estivesse contando com um divrcio.
      No era Damien Wynter agindo em seus pensamentos. Era o prprio Mark, transformando o que poderia ser apenas uma inquietao banal em algo realmente srio.
      Ela ficou impaciente com o silncio dele, impaciente com a sensao de que ele estava procurando uma maneira de manipul-la.
      - Eu coloco a tranqilidade de meu pai antes de tudo, Mark, particularmente nestas circunstncias.
      - Voc est colocando seu pai antes de mim - ele replicou, o ressentimento pulsando em cada palavra.
      O que estava por trs daquilo? O ego? Ou a possvel perda de milhes de dlares por ocasio de um divrcio?
      O que quer que fosse, Charlotte no estava gostando. Ela endureceu a voz.
      - Sim, estou, nesse caso. Voc no acabou de sofrer um ataque do corao, Mark. Meu pai no quer impedir o casamento, ele s...
      - Ele s impe limitaes a ele.
      - Apenas limitaes financeiras - ela pontuou com frieza. - Voc v algum problema nisso, Mark?
      Charlotte ouviu um suspiro, e, ento, uma rplica brusca:
      - S na medida em que ele pensa que eu sou um patife.
      - Bem, ele vai deixar de pensar isso assim se voc assinar o acordo.
      - Duvido - veio a declarao relutante.
      - Olha, eu disse para meu pai, quando o visitei esta noite, que assinaramos o contrato. Eu no vejo razo para no faz-lo. Sinto que voc est muito afetado
com a idia, mas...
      - Tudo bem. Eu posso superar isso - ele falou, mudando o tom de voz. - Foi s um pouco surpreendente enfrentar essa humilhao justo agora, faltando duas semanas
do casamento.
      Humilhao?
      Charlotte franziu o cenho com a palavra. Com toda justia, ela admitia que o pedido do acordo era um questionamento  integridade de Mark, mas ele no precisava
sentir-se humilhado com isso. Era uma oportunidade de mostrar-se superior a tudo aquilo.
      - Papai sempre quis isso, Mark. Ele sempre me censurou por no seguir seu conselho. E, agora, prometi que assinaremos o acordo preparado pelo advogado da famlia
amanh de manh. A que horas  melhor para voc?
      Aps considervel hesitao de Mark, combinaram para as 10h no escritrio do advogado. Charlotte sentia-se irritada com ele, e terminou o telefonema abruptamente,
sem querer ouvir mais nenhuma palavra do noivo:
      - At l.
      Est tudo arruinado, pensou, odiando Damien Wynter por sua atuao para corroer sua felicidade com Mark, e odiando a si mesma por ficar to perturbada com
aquele homem. Por que no podia recuperar o que tinha com Mark antes que ele aparecesse? Teria construdo uma fantasia a respeito de seu casamento, uma fantasia
 qual Mark se esforara a se adequar por causa de sua riqueza?
      E seria capaz de sentir-se realmente satisfeita e decidida se ele assinasse o acordo, mesmo que o fizesse de boa vontade?
      Charlotte revolveu particularmente essa questo  noite. Sua sute mais parecia com uma cmara de torturas psicolgicas do que um lugar de repouso. Foi um
alvio quando, enfim, chegou a manh. Tomou um longo banho, tentando livrar-se de suas fadigas e angstias, dizendo a si mesma que tudo estaria bem quando se encontrasse
com Mark.
      Havia um cesto de frutas frescas sobre a mesa da copa. Uma banana e uma pra foram suficientes como caf-da-manh. Ela no queria nenhum contato com Damien
Wynter para preservar a tranqilidade de sua mente. E de seu corpo. O homem jorrava sensualidade, mas isso significava que qualquer mulher, e no apenas ela, sentiria
uma descarga hormonal por causa dele, se estivesse prximo. No podia deixar que isso a distrasse do que era realmente importante. J estava quente, e como a meteorologia
havia previsto que seria um abafado dia de janeiro de ate 40 graus, Charlotte vestiu-se adequadamente: um top sem mangas, uma saia preta e branca de desenhos geomtricos
e sandlias escuras.
      Seu prprio carro estava ainda no apartamento de Double Bay, mas o txi que chamara a esperava no porto s 9h, e ela conseguiu sair sem encontrar ningum
a quem tivesse que dar alguma explicao. A corrida de uma hora de Palm Beach at a cidade no conforto do ar condicionado deu-lhe tempo para direcionar os pensamentos
para perspectivas positivas.
      Tinha pedido a Giles que agendasse o compromisso com o advogado da famlia. Mark a encontraria no escritrio de King Street. Eles assinariam o papel, ento
teriam um almoo agradvel juntos. Tudo seria assim: fcil e feliz, como sempre tinha sido.
      Mas no foi exatamente desse modo que comeou.
      Seu corao no se encheu de alegria quando Mark a cumprimentou dizendo que estava linda. Os olhos dele no sorriam e ela sentiu que ele ainda estava com raiva
por se forado a assinar o acordo. Entraram no escritrio do advogado, de mos dadas, mas Charlotte no sentia que seus espritos estavam unidos. Sentaram-se em
cadeiras de couro separadas, vendo o especialista atrs de sua mesa explicar os termos do contrato pr-nupcial, enquanto Mark fazia perguntas sobre cada clusula
e cada detalhe.
      Ela ficou constrangida com aquela atitude. Por que ele estava to interessado naquelas mincias?
      No se requeria dele que pagasse qualquer quantia no caso de divrcio. Toda discusso sobre os termos parecia terrivelmente mesquinha e despropositada.
      Porm, quando finalmente ele foi convidado a assinar, levantou-se e com agilidade inclinou-se sobre a mesa do advogado, pegando a caneta que lhe foi oferecida
e escrevendo no documento, cumprindo a promessa que havia feito para que o casamento pudesse acontecer, o casamento que tinham planejado, mesmo que no fosse mais
aguardado com a mesma expectativa de antes.
      - Temo que isso possa no nos servir, senhor - o advogado disse ao erguer com severidade os olhos do que havia sido escrito.
      - Mas  a verdade - Mark respondeu.
      - Estas palavras, sob presso, tornam o documento invlido em um tribunal. No serve  proposta do acordo.
      - Voc escreveu isso? - Charlotte inquiriu, levantando-se da cadeira para ver por si prpria, descrente do que estava acontecendo.
      -  como me sinto - Mark replicou, possivelmente esperando que ela lhe lambesse as feridas e fizesse as pazes, desistindo do acordo.
      Ela olhou diretamente para a evidncia de que o dinheiro era um fator determinante no amor que ele dizia sentir. A fantasia desmoronou. De forma alguma poderia
ser reconstruda novamente. Charlotte tirou a aliana de noivado e estendeu-a para ele.
      - O que voc est fazendo? - Mark perguntou, assustado com aquela reao.
      - Est acabado - ela declarou. - No vou me casar com voc.
      Mark a olhou, incrdulo.
      - Voc vai deixar que seu pai se coloque entre ns?
      A boca de Charlotte afiou-se de ironia.
      - No  ele que est entre ns. O dinheiro est entre ns.
      Ainda assim, ele no podia acreditar naquela deciso sbita.
      - Mas o casamento...
      - No vai haver casamento algum. - Ele no tinha apanhado a aliana. Ela a colocou sobre o documento que ele tornara intil. - Adeus, Mark.
      - No, no. Eu o assinarei do jeito certo - ele comeou a falar, em pnico, virando-se para o advogado. - Voc deve ter outra cpia.
      - No seja ridculo. - Ela caminhou para a porta.
      Ele implorou. Ela no recuou. Seu corao estava fechado para ele. As ltimas palavras que ele lanou a ela foram:
      - Eu entrarei na justia pela posse do apartamento. Ns tnhamos uma relao estvel, Charlotte, e isso me d certos direitos.
      A riqueza dos Ramsey  uma maldio, ela pensou. E no havia nenhuma fada madrinha para livr-la do feitio. Ela havia sido uma tola ao acreditar em uma vida
feliz com Mark. A realidade lhe tinha dado uma lio e agora ela teria que lidar com aquilo.
      A pior parte era a seguinte: a realidade tinha o rosto de Damien Wynter.
      E o futuro parecia negro como os olhos dele. Os olhos que a tinham feito ver como estava errada em relao a Mark Freedman.




      CAPITULO OITO

      Felizmente um txi vazio estava descendo King Street quando Charlotte saiu do escritrio do advogado. Ela fez sinal e em questo de segundos estava livre de
qualquer risco de perseguio por parte de Mark. Repudiava qualquer possibilidade de contato com ele. Que ficasse com o apartamento, onde s poderia viver novamente
em meio a lembranas amargas.
      Tendo direcionado o motorista para a manso da famlia em Palm Beach, recostou-se no banco do carro com a sensao de que fizera o que tinha de ser feito.
A nusea diminua  medida que o txi a afastava de Mark, mas a nvoa escura do abatimento estava no horizonte.
      Ela havia abandonado o emprego no banco por causa do casamento com Mark... casamento e filhos... e agora tinha um grande vazio  sua frente. Trinta anos e
sem destino na vida, Alm disso, ela teria uma boa dose de humilhao a enfrentar.
      Todos iriam se perguntar o motivo de o casamento ter sido desfeito. Sem dvida, ela seria alvo de muitos boatos. Talvez a viagem planejada como lua-de-mel
para o estrangeiro servisse como fuga, apesar de provavelmente acentuar sua angstia por estar sozinha, uma lua-de-mel que no era uma lua-de-mel.
      Por vrias vezes as lgrimas ameaaram jorrar e Charlotte lutou contra elas com raiva, raiva de ter sido enganada, de ter acreditado que Mark era tudo o que
queria que fosse. Cega, cega, cega! E cabea-dura. Deveria ter ouvido o pai, respeitado sua experincia. E escutado a me, tambm.
      - Voc no acha que ele  encantador at demais, minha filha?
      De modo diverso do seu pai, Charlotte havia interpretado a dedicao de Mark na ocasio. Sua me julgava todos os homens por aquele padro, e Lloyd Ramsey
no era exatamente encantador. Mas era algum em quem se podia confiar. Sem enganos! Charlotte no queria ser enganada nunca mais.
      Olhar nos olhos dos pais seria a parte mais difcil. Reconhecer que eles estiveram certos e ela, errada. Por outro lado, talvez ficassem to aliviados que
simplesmente dissessem estar contentes pelo equvoco ter sido desfeito antes do casamento. Mas isso no a fazia sentir-se melhor. S piorava as coisas.
      Fechou as plpebras para represar outra torrente de lgrimas quando o txi chegou  manso. Havia tanto o que cancelar em to pouco tempo... Duas semanas!
Seria de fato totalmente irresponsvel e covarde ceder ao impulso de ir embora e esconder-se, sofrendo de modo egosta e solitrio. Precisava encontrar sua me,
contar o que acontecera.
      Aps pagar o motorista do txi, Charlotte aferrou-se ao seu objetivo, encontrando a me na estufa exibindo suas premiadas plantas exticas.
      Para Damien Wynter.
      Seus msculos instantaneamente retesaram-se. Sentiu uma pancada no peito. O n na garganta a impedia de falar. Ambos haviam percebido sua chegada, arrastando
as sandlias, e viraram-se na expectativa de que dissesse algo. Os olhos dodos de Charlotte no suportaram a intensidade dos de Damien. Ela fixou-se em sua me,
desesperadamente tentando exclu-lo do campo de viso.
      - Sim, querida? - a me perguntou, enquanto Charlotte tentava desatar o n em sua garganta.
      - Voc est bem, Charlotte? - ele perguntou, a preocupao em sua voz causando-lhe um acesso de emoes que estilhaaram um controle to dificilmente conquistado.
      - O casamento no vai acontecer - ela soltou de uma vez.
      O anncio foi como uma bomba caindo sobre sua cabea. A represa das lgrimas cedeu, cedendo a um choro convulsivo. Retomar qualquer equilbrio era impossvel.
E ela fugiu, com o impulso cego de humilhao direcionando-lhe os ps no caminho mais rpido para sua sute.
      Eu no o quero de volta!
      Eram as palavras enfticas que ressoavam na mente de Charlotte. Haviam sido as ltimas que dissera  sua me, pedindo uma ao imediata para cancelar o casamento.
O choro tinha cessado quando Kate Ramsey sentara-se ao seu lado na cama, acariciando-lhe os cabelos e murmurando palavras suaves. Charlotte conseguiu, ento, contar
tudo o que havia acontecido no escritrio do advogado, como Mark reagira ao acordo, porque no se casaria com ele. Sua me compreendia aqueles sentimentos, mas ainda
assim insistiu em que ela esperasse at o dia seguinte antes de tomar qualquer providncia.
      - D um cochilo, meu bem - ela disse antes de sair para o hospital. - Voc est emocionalmente exausta agora.
      O que era verdade, mas no modificava a situao. Talvez sua me pensasse que se Mark se retratasse ela iria perdo-lo. Nunca!
      O relgio ao lado da cama marcava 15h23. Ela estava suando. Por que o ar condicionado no estava funcionando? Rolou na cama e viu a porta de correr da varanda
aberta at a metade, deixando entrar os 40 graus e a umidade externos. Ela mesma a havia aberto, em sua agitao depois que a me sara, esquecendo-se de fechar
a porta antes de se deitar.
      Vou dar um mergulho, pensou. Isso esfriaria sua cabea. Pulou da cama, fechou a porta da varanda, lavou o rosto, penteou os cabelos, prendeu-os em um rabo-de-cavalo,
pegou um maio preto de natao e desceu para a piscina coberta que era usada principalmente pelo pai, em seu exerccio favorito.
      Era um lugar relaxante, com espreguiadeiras prximas  parede de vidro que permitia ver as marinas de Pittwater. Podia-se deitar e assistir  passagem dos
iates. O bar oferecia toda variedade de drinques. Charlotte esperava ficar l sozinha. Sua me e Peter estariam no hospital e Damien Wynter, certamente, envolvido
com seus negcios na Austrlia.
      No to certamente assim.
      O corao de Charlotte afundou como uma pedra com a viso do homem casualmente esticado em uma das espreguiadeiras, uma caneta em uma das mos e um jornal
dobrado na outra. Estava quase nu, apenas de calo de banho escuro com os braos e as pernas torneados por msculos perfeitos.
      Ela ficou apavorada.
      A cabea dele girou em sua direo. Olhos negros e incisivos rapidamente catalogaram cada detalhe de sua aparncia, fazendo com que se sentisse exposta e desprotegida.
Ela contraiu o maxilar com a determinao de no se deixar abalar. No podia simplesmente fugir. O orgulho insistia em que enfrentasse a situao e fizesse o que
tinha ido fazer: nadar.
      - Voc  boa em palavras cruzadas? - ele perguntou. - Eu preciso de uma palavra de nove letras para fraudador profissional e de boa lbia.
      - Vigarista! - ela soltou imediatamente, pensando em Mark Freedman.
      - Perfeito - ele percebeu, com um sorriso ferino no rosto.
      - Agora, com licena. - Charlotte terminou o dilogo com a inteno de ignor-lo, dando um passo  frente e pulando na piscina.
      Dez voltas na piscina sem uma pausa abrandaram a energia frentica que ele havia ativado, o que tambm servia para demonstrar que ela estava suportando bem
o desfecho daquela manh, apesar do acesso de choro que ele testemunhara parcialmente. No iria se esquivar do que tinha de ser encarado. Nem mesmo dele. E se Damien
lhe oferecesse um gro de simpatia por seu equvoco, ela provavelmente o insultaria abertamente pela hipocrisia.
      - Sentindo-se melhor? - ele perguntou, quando ela parou de nadar e estava subindo as escadas para recuperar o flego. A voz suave flutuava-lhe por sobre a
cabea, e o fato que no o estava vendo tornava mais fcil tocar nos assuntos pendentes entre ambos.
      - Eu estou bem. E voc? Sentindo-se melhor por estar com a razo? - ela replicou, propositalmente lanando a isca para que ele fizesse algum comentrio ofensivo.
      - No que  que estou com a razo? - Damien simulou ingenuidade, exigindo que ela prpria se pronunciasse.
      - Meu ex-noivo queria a riqueza dos Ramsey mais do que a mim.
      - No me surpreende - foi a resposta. - Mas no se deixe abater, Charlotte. Dentre as mulheres que conheci, voc brilha como um diamante. Todos os aspectos
da sua personalidade so fascinantes. Eu a levaria comigo mesmo que no tivesse um tosto.
      Apesar da temperatura baixa da gua, o sangue dela ferveu. Aquilo no era um homem, era um demnio. Tirava vantagem de todas as situaes. E a deixava absolutamente
exasperada.
      - Isso  para me fazer sentir bem? - ela zombou, negando que as palavras dele fizessem qualquer efeito.
      - Sim. E por que no?  perda de tempo alimentar um sonho - Damien devolveu, no mesmo tom. - Especialmente quando voc pode se consolar comigo.
      Ela deu uma risada.
      - Isso  um outro sonho. E este no sou eu quem alimenta.
      - No, eu no penso assim - ele disse, com mais seriedade. - Acredito que tudo o que tivssemos juntos seria bem real. E uma certeza em particular  evidente
para mim: a questo da fortuna  irrelevante em nosso relacionamento.
      - Ns no temos um relacionamento - ela lembrou com firmeza.
      - Tambm no  verdade. Ns temos, desde que nos encontramos, Charlotte. E agora o principal obstculo caiu.
      - Isso no quer dizer que os portes estejam abertos para voc, Damien Wynter.
      Para provar o que estava dizendo, ela pulou na gua e comeou a nadar novamente, afastando-se daquela irresistvel atrao. Ele estava apenas se entretendo
com ela, fazendo jogos de palavras. O que atiava sua mente consideravelmente, ela devia admitir, para no dizer da vitalidade que injetava em seu corpo.
      Atingiu o outro lado da piscina, virou e viu que ele havia se levantado e estava ao lado da escada, segurando uma toalha, pronto para quando ela sasse da
gua. De p, seu fsico era ainda mais admirvel.
      Ele tinha os contornos de um nadador profissional: ombros largos, peito forte, quadris compactos, sem nada sobrando em lugar algum. Um homem magnfico, Charlotte
no pde deixar de pensar, e sentiu uma onda de atrao sexual. O que a levou a nadar com determinao novamente, mais trs voltas, ignorando a espera dele, pelo
menos at que entendesse que ela no se deixaria dominar por sua vontade.
      Ainda assim, no podia parar de pensar nele, uma espcie completamente diferente de homem em comparao com aquele que a tinha enganado, talvez o antdoto
agora necessrio para combater o gosto amargo do fim de sua relao com Mark. No mnimo, Damien Wynter a fazia sentir-se pronta para uma nova batalha. A adrenalina
ainda bombeava quando emergiu da piscina e pegou a toalha que lhe era oferecida.
      - Obrigada - disse, com a convico de ser fria e polida.
      Ele apontou para o bar.
      - Posso preparar-lhe um drinque?
      Ela assentiu.
      - Um Blood Mary est timo.
      Ele deu uma risada.
      - Um substituto para o meu sangue, Charlotte?
      - Voc no perde uma chance, no  mesmo? - ela disse, terminando de se secar, concentrada em no reagir aos olhares que lhe eram lanados.
      - Estar com voc  to revigorante que eu tenho que aproveitar cada momento.
      Ela ergueu as sobrancelhas com uma suspeita:
      - Voc estava esperando que eu viesse aqui?
      - Uma tarde quente. Sua necessidade de afugentar energias negativas. Presumi que daria um mergulho. Felizmente estava certo - ele exps, espantando-a com os
clculos que Damien colocava em atividade na sua perseguio.
      Os olhos dela o acusaram de ter cometido uma impertinncia.
      - Eu no estou exatamente feliz com isso.
      - Bobagem! Discutir comigo  um passatempo muito mais divertido do que passar as horas sozinha lamentando-se por no ter percebido as intenes de Freedman.
      A confiana dele exigia uma retaliao.
      - Eu no estou me divertindo nem um pouco. Vai levar muito tempo para que isso acontea, Damien Wynter.
      - timo! - ele replicou. - Assim tudo fica ainda mais divertido para mim.
      Ela lanou-lhe um olhar spero.
      - E nessa brincadeira sua meta  ganhar Charlotte Ramsey no final, no ?
      O sorriso dele expandiu-se.
      - Sim, apenas isso. Sem nenhum outro objetivo.
      Aquilo era golpe baixo, uma referncia direta os objetivos que Mark tivera em relao ao casamento. Charlotte respirou fundo. Rplicas furiosas tomaram sua
mente. Mas a satisfao brilhando nos olhos de Damien a lembrou de que ele estaria esperando uma rplica daquelas para us-la em proveito prprio.
      Ela comps um sorriso.
      - Voc  to bom quanto suas respostas, Damien?
      - Sempre - ele falou, sem piscar os olhos. Ela indicou o bar.
      - Eu quero uma dose generosa de pimenta no Blood Mary que voc vai fazer para mim.
      - Eu o farei to estimulante quanto esse seu jeito de dar ordens - ele observou, e foi direto para o bar.
      A sensao de que Damien Wynter nunca aceitaria uma derrota tornava ainda mais sem sentido que ela quisesse confront-lo. Talvez fosse o efeito dos ferimentos
em seu orgulho, uma instintiva necessidade de descarregar o dio em algum, especialmente em quem havia plantado as sementes de dvida que a levaram s revelaes
da manh. Ou, talvez, quisesse comprovar se a atrao que ele dizia sentir era genuna, ou apenas um jogo de poder.
      Tendo enrolado a toalha na cintura, Charlotte foi  espreguiadeira ao lado da que ele tinha ocupado e esticou-se nela, fingindo estar completamente relaxada.
Ele havia colocado o jornal e a caneta na mesa ao lado e ela os pegou, curiosa em saber se ele realmente estivera fazendo palavras cruzadas.
      - Quer me ajudar a termin-la? - ele perguntou. Havia ainda cinco palavras a preencher.
      - No vejo onde voc ps "Vigarista".
      - Essa eu inventei para voc.
      Ela lanou-lhe um olhar de desafio.
      - Um teste?
      Ele vinha em seu encontro, com um longo drinque vermelho em cada mo.
      - Voc no me desapontou.
      - No conte mais comigo - avisou Charlotte, os nervos em alerta enquanto ele se aproximava, sua virilidade a fazendo sentir-se ameaada.
      Mas ele no a tocou, e sequer entregou-lhe o drinque. Ps ambas as taas sobre a mesa. Havia, inclusive, colocado rodelas de limo nas bordas, assegurando-se
de que ficassem impecveis. No entanto, em vez de deitar-se na espreguiadeira, sentou-se, olhando-a nos olhos, um pequeno sorriso sobressaindo de seus primorosamente
esculpidos lbios.
      - Obrigada - ela disse, largando a caneta e o jornal ao pegar o drinque. - Eu realmente no quero fazer as palavras cruzadas com voc. No estou no clima para
jogos deste tipo.
      - Ento deixe-me fazer-lhe uma proposta, Charlotte.
      Ela o observou cautelosamente por sobre a borda do copo, provando o Blood Mary que tinha sido feito do modo como pedira. No aceite nada, disse a si mesma.
Mas deixe-o dizer o que passa em sua cabea. Assim ficamos sabendo o que ele realmente quer.
      - Meu palpite  que voc organizou o tipo de casamento que tinha imaginado desde que era criana - Damien sugeriu, os olhos negros agora mais brandos, sem
pretender agit-la, apenas querendo verificar sua reao. - Tudo meticulosamente planejado para cri-lo, at o ltimo detalhe - prosseguiu. - O ia perfeito...
      - No to perfeito na falta de um noivo.
      -  verdade.  onde eu entro.
      - Voc? - ela assustou-se com o movimento estranho que ele estava preparando.
      - Vamos ter um dia perfeito, Charlotte. Comigo no lugar de Freedman.
      Aquilo, definitivamente, a tirou do srio. Por um momento ficou emudecida de espanto. Enfim, teve foras para replicar:
      - Voc s pode estar brincando!
      - No, no estou. Pense nisso. - Seus olhos exprimiam a seriedade de suas intenes. - No haver um convidado no casamento, isso eu lhe prometo, que no vai
consider-lo uma unio perfeita. Todos se esquecero de Mark Freedman. No haver questes sobre o porqu de sua escolha. Voc no sofrer qualquer arranho em seu
orgulho. Sero feitos apenas comentrios sobre o romance fabuloso que estar tendo seu desfecho.
      - Romance! - Ela perdeu o ar com a palavra.
      - Sim. E dos mais grandiosos. O prncipe obstinado entra em cena e salva a princesa de um engano, arrebatando-a para si. No pode haver melhor histria. Vai
rodar o mundo.
      Ela balanou a cabea.
      - Isso  loucura.
      Ele sorriu feliz.
      - Uma loucura magnfica, Charlotte.
      - Pare! - ela pediu, a raiva comeando a sobrepor-se ao choque. - Voc est imaginando um conto de fadas. E isso - os olhos delas inflamaram-se de escrnio
- depois de ter afirmado que tudo entre ns seria real. Um casamento marca o incio de um matrimnio. No  apenas... o desfecho de um romance fabuloso.
      - Mas seria sensacional - ele retomou sem perder o ritmo. - Mostrar a todos como eu quero me casar com voc. Como eu quero voc como minha esposa, minha parceira
em todos os aspectos.
      Ele a deixou mais uma vez sem reao.
      Ela estava sem ar, prestes a perder os sentidos.
      Isso era totalmente inesperado... e absurdo.
      O rosto dele expressava uma intensidade de propsitos que lhe penetrava diretamente no esprito e atingia seu corao.
      - No pense nem por um segundo que isso no  real.  to real quanto estarmos juntos aqui neste instante. E eu no tenho dvidas de que voc e eu podemos
ser um casal bastante verdadeiro.
      Ele no estava brincando.
      Estava falando srio.
      - Tudo o que voc precisa  querer reverter essa situao. E eu sei que voc quer, Charlotte... sei que voc quer.


      CAPITULO NOVE

      Reverter a situao...
      A mente de Charlotte girava ao redor dessas palavras. E tudo mais que ele tinha dito. Sem cancelamentos. Sem fofocas humilhantes. Sem esconder o rosto de vergonha
por ter sido enganada por Mark. Com Damien Wynter como seu noivo, todos a veriam como uma noiva triunfante, no um objeto de compaixo.
      E seu pai, certamente, aprovaria sua nova opo. Sem dvida, isso lhe traria novas foras. Tudo no jardim dos Ramsey ficaria florido novamente. O espinho que
faria a fortuna da famlia sangrar teria sido extirpado, e ela apareceria como a vtima inocente de uma trama maligna. O toque final era Damien Wynter, o raio de
sol que finalmente a iluminara.
      Mas isso significava casar-se com ele!
      Casar-se com um homem que mal conhecia, vinculando seu futuro ao dele, sem saber aonde isso levava!
      - No posso fazer isso - ela disse, abismada de que o orgulho e a vontade de fazer as pazes com o pai a tivessem levado a considerar a proposta.
      - Por que no?
      - Eu no amo voc.
      -  irrelevante. - O olhos dele zombavam do argumento enquanto prosseguia. - Metade dos casamentos no mundo so feitos sem amor. Vidas se juntam por interesses
comuns, para somar propriedades e criar filhos.
      - Voc quer filhos?
      - Com voc, sim. - Ele sorriu, convidando-a a imaginar como seria. -Acho que teramos crianas maravilhosas juntos.
      Talvez fosse verdade. Mas, ainda assim... ela queria ter um marido que a amasse. E queria estar apaixonada por ele tambm. Sem aquela ligao espiritual...
      - Voc quer filhos, no quer? - Damien inquiriu.
      - Sim. - Mais um sonho que vinha alimentando.
      - E j est com 30 anos - ele a fez lembrar sem rodeios. - Peter me disse. Se quiser uma famlia, est na hora de come-la.
      Ela sabia disso. Ele no precisava esfregar sal naquele ferimento. Mark parecia ter sido a resposta para aquela necessidade particular, mas no poderia casar-se
com Mark agora. Encontraria ainda um outro homem que amasse? Poderia confiar em qualquer amor que lhe fosse declarado? Sua confiana na natureza humana tinha sofrido
uma descarga letal.
      Ao menos um amor incondicional flua entre uma me e seus filhos. Ela sempre saberia que esse amor no estava contaminado por outros fatores. E se precisasse
escolher um doador de esperma, o cdigo gentico de Damien levava considervel vantagem. Tinha um corpo soberbo e uma inteligncia natural. Que, por sinal, estava
usando para plantar aqueles pensamentos nela.
      Com que propsito?
      Ele no estava professando seu amor por ela. O que estava correto, porque, de maneira alguma Charlotte acreditaria naquilo. Ento, algo a mais estava por trs
de sua resoluo, na qual avanava sem nenhuma conversa hipcrita sobre amor. Verdades duras e ntidas para ela considerar, verdades amargas, eram as ferramentas
que ele usava para fazer seu caminho. Mas ela no era tola. Pular da frigideira para o fogo no lhe traria qualquer felicidade.
      Olhou-o com firmeza, perscrutando suas intenes. Lev-la para a cama era uma coisa. Ele havia utilizado um vis sexual desde o comeo. Mas casamento era muito
diferente, um compromisso para toda a vida.
      Serviria aquilo para selar algum negcio iminente com Peter? Obviamente, ele pedira ao seu irmo informaes pessoais sobre ela. Sua idade, por exemplo...
e talvez algo mais. Teriam os dois falado sobre "somar propriedades"?
      - Onde Peter entra nessa histria? - ela perguntou diretamente, na esperana de extrair alguma informao dele.
      - Ele no entra.
      A resposta foi imediata. Mas o jogo de pquer havia ensinado a Charlotte o quanto ele blefava bem.
      - Ora, vamos - ela insistiu. - Mentir agora no  uma boa idia. Quando eu descobrir... e eu vou descobrir...
      - Peter apenas sabe que eu tenho interesse pessoal por voc - Damien assegurou. - Ele percebeu isso no iate. Na verdade, deu-me inclusive poucas esperanas
de que voc mudaria de opinio a respeito de Freedman. - Fez uma pausa. - Mas voc mudou, Charlotte. O que me d a oportunidade de sugerir uma alternativa: a de
construir um futuro comigo.
      - Porque sou filha de meu pai? - Charlotte arriscou.
      - Seu pai  um homem desafiador, e, nesse sentido, voc  de fato filha dele - ele sorriu com a constatao.
      -  o que provoca seu interesse, no ? O desafio?
      - Certamente adiciona um pouco de tempero.
      - Mas se voc me conquistar, no serei mais um desafio. Ento, como voc v nossa vida juntos depois de um casamento? - ela perguntou, e levou o drinque 
boca como se no esperasse nenhuma resposta, ao menos uma resposta satisfatria.
      - No consigo imaginar que viver com voc possa se tornar algo montono - ele afirmou, com uma espcie de antecipao do prazer nos olhos. - Voc estaria sempre
me questionando, me avaliando, me provocando, como est fazendo agora, e eu teria que manter a forma. Um passo em falso e estou acabado. No  mesmo, Charlotte?
      Isso extraiu um sorriso lnguido dos, lbios dela.
      - Sem dvida. Voc est lidando com uma mulher perigosa, Damien Wynter.
      Ele deu uma risada, nem um pouco perturbado com a perspectiva, e aquela risada parecia roar a pele de Charlotte, tornando-a consciente da atrao que tentara
deixar de lado. Ele era um homem excitante, tanto fsica quanto mentalmente. No seria um casamento montono, Charlotte teve que concordar. Tudo, menos montono.
      - Voc gosta de viver perigosamente? - ela inquiriu, para tentar alcanar um melhor conhecimento dele.
      - Gosto. E voc tambm, Charlotte. No teria trabalhado no mercado financeiro, no fosse por isso. Nem jogaria pquer como joga. O exame mental das probabilidades,
a adrenalina, o risco, a excitao de um blefe... voc sabe do que estou falando. Est no seu sangue tanto quanto no meu.
      Ela ficou contrariada com a repetio das palavras de seu pai. No queria uma vida com um homem como o pai, queria? Ou era o tipo de casamento que sua me
tivera com ele que no desejava?
      - Eu estava procurando segurana. O oposto do que voc est propondo, Damien. Eu queria contar com meu marido quando precisasse dele, no do outro jeito, como
tem sido com minha me.
      Ele ficou meditativo por um instante.
      - Talvez sua me tenha escolhido um papel subserviente, feliz por permanecer  sombra de seu pai. E uma gerao diferente, Charlotte. Eu no esperaria isso
de voc. Eu no iria querer isto de voc.
      Ela lanou-lhe um olhar ctico.
      -  fcil falar.
      - Faa um teste - ele contraps. - O que voc tem a perder? Se nosso casamento no lhe agradar, eu no poderei prend-la a ele. E vou assinar uma garantia
legal de que no pedirei nenhum ressarcimento em caso de divrcio. Voc poder sair fora ilesa.
      Ela contraiu os lbios ao lembrar das ltimas palavras que Mark lhe dirigira. Ao menos a riqueza dos Ramsey parecia irrelevante para Damien Wynter, se sua
palavra fosse confivel. Mas, de todo modo, um acordo financeiro certamente seria assinado antes do casamento. Agir com base na confiana era uma ingenuidade.
      - Mas voc no pode me devolver o tempo gasto tentando descobrir se me agrada ser sua esposa - ela argumentou em meio a uma nvoa de desiluso. -  o que eu
perderia. Eu perderia meu tempo.
      - O mesmo vale para mim - Damien afirmou em voz baixa, elevando o tom em seguida. - Mas estou apostando em ns, Charlotte.
      Ele exalava confiana, o que a levou a contestar:
      - O fator tempo no significa o mesmo para voc. Com que idade voc est? Trinta e cinco?
      - Trinta e quatro.
      - Voc ainda poder ter filhos daqui a dcadas. No precisa de mim. Por que est inventando isso agora?
      - Porque meus instintos dizem que  a coisa certa a fazer. Comece a ouvir os seus, Charlotte. - Ele inclinou-se na direo dela com intensa determinao. -
Esquea Freedman. Foi uma precipitao causada pela ansiedade. Mas sua verdadeira conexo  comigo. E voc sente isso tanto quanto eu. Goste ou no,  algo que flui
entre ns. E no h mais razes para negar.
      Sua verdadeira conexo... Estas palavras assaltaram-lhe o corao e a mente. Charlotte sabia que estivera lutando contra, elas, colocando a barreira de sua
lealdade ao compromisso assumido, considerando suas reaes diante de Damien um distrbio hormonal sem importncia, e odiando a sensao de vulnerabilidade que isso
provocava. Ele era muito arrogante, muito dominador, muito tudo, o que significava que faria as coisas sempre do seu jeito. Um deles. Como o pai. Mas havia tocado
em regies dela que reclamavam pelo que ele tinha a dar.
      A fora dele era, ao mesmo tempo, intimidante e atrativa. E havia ainda a proteo. Ela gostava de estar protegida. Damien, certamente, evitaria que ela fosse
humilhada se persistisse com a data do casamento. Mas Charlotte no se sentia exatamente segura ao seu lado. No no plano emocional. Seus instintos lhe diziam que
era melhor ser cautelosa.
      - Voc quer alguma coisa com isso.
      No houve qualquer dvida quanto  sinceridade do desejo obstinado que ele exprimiu em suas palavras:
      - Eu quero voc. Eu quero voc, Charlotte Ramsey, como nunca antes quis outra mulher em minha vida.
      Uma onda de calor mais uma vez percorreu a pele de Charlotte. Ela assistiu em catatnico desamparo ao homem levantando-se em sua direo; um macho predatrio
com todos os atributos para domin-la. Seu corao debatia-se enlouquecido. Ele deu um passo  frente e tomou o copo das mos dela, cujos dedos trmulos e frgeis
facilmente cederam ao comando. O corpo de Charlotte comeou a pulsar de antecipao do prazer. Ela queria que ele a tomasse nos braos, que a envolvesse em sua masculinidade
viril, que a fizesse sentir como estava certa em ficar com ele.
      Ainda assim, quando Damien a alcanou, um novo acesso de medo levou Charlotte a afastar-se e tomar uma posio defensiva, compreendendo que se cedesse ao controle
dele estaria sem mais cartas para jogar. O que seria uma situao de grande risco.
      - Se voc me quer tanto ento poder esperar at a noite de npcias - ela imps o desafio, encarando-o com determinao. - Vamos ver se voc sustenta suas
palavras, Damien Wynter. Pode pedir ao meu pai minha mo em casamento esta noite. Ento, ter que conseguir uma autorizao legal para tornar vlida nossa unio
na data marcada. E assinar um acordo declarando que no far nunca qualquer exigncia relacionada a minha fortuna pessoal.
      - E voc acha que eu no vou at o fim com isso, Charlotte? - Damien deu um sorriso satisfeito.
      Ento ela percebeu que tinha acabado de comprometer-se com aquele homem. E todos os seus sentidos ficaram  beira de um colapso. Mas algo a impedia de retirar
o que tinha dito enquanto era tempo. De maneira que apenas acrescentou:
      - Pague o preo, Damien. No haver amostras grtis antes que voc o faa.
      Isso no o preocupou nem um pouco. Seus olhos pareciam danar como dois pequenos demnios negros.
      - Eu gosto da idia de ter uma noiva com quem nunca dormi antes. Ser um estimulante perfeito para nosso casamento perfeito. E, obviamente, voc vale o esforo,
no  mesmo, Charlotte?
      Apesar da investida aberta contra seus nervos, Charlotte permaneceu em solo conhecido, com orgulho e indiferena.
      - J que voc me quer como nunca quis outra mulher, eu diria que voc no tem o que questionar. S no espere que eu me torne sua escrava sexual.
      - Escrava, no. Parceira, sim.
      - E, como voc me fez lembrar com tanta gentileza, fao questo de ter filhos.
      Sua mente apegou-se a essa perspectiva para justificar de algum modo a loucura que tinha feito. Sim, eles teriam filhos maravilhosos, fazendo o casamento valer
a pena. Quanto ao resto... ela simplesmente deixaria acontecer. Planejar toda uma vida com Mark no havia funcionado. Talvez fazer essa aposta insensata com Damien
Wynter fosse a melhor atitude agora. Os dois eram da mesma espcie, haviam tido o mesmo tipo de criao. Ento, no mnimo, teriam sempre valores e costumes em comum
para conviverem.
      Ela estava totalmente consciente do olhar dele voltado para sua toalha, ainda amarrada em torno da cintura. A boca de Damien fez um breve movimento sensual,
como se a estivesse imaginando nua, pronta para receb-lo em sua intimidade. Os dedos de Charlotte comearam a se contorcer. Era um alvio que ele no pudesse v-los.
      - Ento vamos divulgar as boas notcias! - ele disse para test-la. - Trocamos de roupa e vamos visitar seu pai. De acordo?
      Nas veias de Charlotte o sangue corria a uma velocidade alucinante diante daquela proposta.
      - Voc quer dizer... agora?
      - Agora - ele confirmou. - Nada como a ao para provar que sou um homem de palavra.
      Como ela havia pedido.
      Charlotte foi subitamente tomada pela sensao de que uma armadilha tinha sido tramada contra ela. E, ainda assim, seu orgulho no lhe permitiria dar nenhum
passo atrs naquela altura. Ele a estava perscrutando. Ela recusou-se a deix-lo perceber qualquer sinal de fraqueza em sua fisionomia. Se Damien estava decidido
a levar aquilo adiante, ela tambm.
      - Preciso de uma hora para estar pronta. Ele consentiu.
      - Estarei esperando no porto.                                  ;
      Seria um reencontro inusitado com o pai, Charlotte pensou ironicamente. Ele, sem dvida, aceitaria Damien como genro, mas at que ponto estava disposto a entender
sua imediata troca de noivos? Respeitaria essa deciso?
      - No pense nem por um segundo que no estou certo do que fao, Charlotte - Damien avisou.
      - Vamos ver se meu pai tambm est to convicto em relao a voc - ela respondeu, j indo trocar de roupa.
      Damien deu uma gargalhada, como se no tivesse nenhuma dvida dos seus poderes de persuaso, de sua capacidade de conseguir o que quisesse na vida.
      Charlotte disse a si mesma que o que ele queria no importava, porque ela queria ter filhos, e conseguiria isso dele.
      E daria aos filhos todo o amor que tinha para dar.
      Alm disso, se o sexo com Damien Wynter correspondesse s suas expectativas...
      A ela ganharia algo a mais com aquele casamento.


      CAPITULO DEZ

      Damien estivera preocupado com a possibilidade de que seu comunicado agravasse a condio de Lloyd Ramsey, mas este no demonstrou surpresa. Seus olhos azuis
mantiveram o brilho do vigor recuperado nos ltimos dias enquanto ele se assegurava da situao.
      - Ento voc quer se casar com Charlotte? - disse, como que experimentando o gosto das palavras para ver se eram do seu agrado.
      - Sim.
      - E ela sabe disso?
      Damien assentiu.
      - Charlotte me acompanhou at aqui. Ela est esperando que eu saia com sua aprovao.
      Isso deixou Lloyd Ramsey perplexo.
      - Que eficincia! Ela terminou com Mark Freedman esta manh!
      - Freedman foi apenas uma preliminar do grande evento.
      - Isso quer dizer... voc?
      -  no que acredito, e estou agindo de acordo.
      - Tem mesmo certeza? Damien no hesitou.
      - Tenho.
      A resposta curta e enftica deixou Lloyd Ramsey mais meditativo.
      - Eu tambm tinha certeza em relao a Kate. Na primeira vez que nos encontramos - disse pausadamente. - S que ela no era noiva de ningum.
      Damien estava determinado a ignorar o que j era passado e a concentrar-se no futuro.
      - No ser preciso cancelar o casamento. Podemos aproveitar os arranjos que j foram feitos.
      Lloyd refletiu durante segundos enquanto os nervos de Damien preparavam-se para a briga. O pai de Charlotte poderia, sem dvida, protestar contra a velocidade
com que tudo acontecera, mas velocidade fazia parte da prpria essncia dos acontecimentos. Charlotte estava com ele em uma montanha-russa, e Damien no queria arriscar
uma pausa que a levasse a pensar duas vezes.
      Um sorriso irnico se exibiu na boca de Lloyd.
      - Bem, eu no me importarei de ter um genro que possa realmente acrescentar algo  famlia.
      - Falando nisso - Damien aproveitou a oportunidade -, se o seu advogado for instrudo a redigir um acordo pr-nupcial, declarando que no terei nenhum direito
pecunirio com essa unio, eu o assinarei imediatamente.
      - E quanto  sua prpria fortuna, Damien?
      - Eu estou apostando que o casamento ir durar.
      - Ento voc tem certeza mesmo!
      - Charlotte precisa que eu tenha. Ela est vivendo um momento delicado.
      - Certo. Voc  um homem inteligente - Lloyd Ramsey reconheceu. - Apesar de estar assumindo um risco de grandes propores. Se no for o marido que Charlotte
espera, ela poder muito bem lhe deixar em dificuldades.
      - Ento eu pagarei o preo por um mau julgamento de carter.
      Novamente, houve uma pausa tensa enquanto Lloyd avaliava a posio de Damien. Finalmente ele disse:
      - Antes que eu comece a escrever um comunicado  ir imprensa explicando essa extraordinria mudana de planos, pea que minha filha entre. Quero ouvir o que
ela tem a dizer sobre esse casamento.
      -  claro - Damien concordou, em sua confiana inabalvel.
      Saiu da sute VIP de Lloyd Ramsey no hospital sabendo que aquele seria um momento crucial. Se Charlotte hesitasse na frente do pai, o castelo de cartas que
construra viria abaixo. Os procedimentos preliminares de um casamento tinham que ser todos cumpridos - incluindo a obteno de uma aprovao incondicional do pai
da noiva. Sem isso, Damien se colocava em uma posio difcil.
      Sem amostras grtis antes da noite de npcias, ela dissera.
      Mas isso no significava que ele no pudesse usar o sexo para conquist-la, ou ao menos dar-lhe pistas do que estariam por compartilhar. Ela era vulnervel
 poderosa qumica entre os dois. Sua recusa veemente a todo contato fsico quando estiveram danando; sua rigidez defensiva quando a segurou logo em seguida; seu
estremecimento na piscina com a proximidade dos corpos expostos... tudo era indicaes fortes de que fenmenos vulcnicos agiam dentro dela por trs da mscara de
frieza e indiferena.
      Ele no podia contar com o orgulho como o nico motivo das aes de Charlotte. Ele no queria contar com apenas isso.
      Ele precisava tom-la nos braos, beij-la, faz-la sentir o fogo que queimava dentro dele. Desde o momento em que fora desafiado na noite do Ano-novo. Ele
a teria. No podia imaginar outra coisa. Mas era necessrio assegurar-se de que ela se entregaria por uma s razo: desejo. Uma vontade que precisava imprimir-lhe
no corpo antes que entrasse para encarar o pai.
      Aceitar riscos estava no seu sangue.
      Este casamento no ia ser cancelado.
      Charlotte estava na sala de espera dos visitantes. Desde a hora do jantar, sozinha, sem ningum a observar sua agitao. Era impossvel sentar-se e relaxar.
Sua mente zunia, imaginando uma dzia de variaes sobre a conversa entre Damien Wynter e seu pai.
      No tinha dvidas de que Damien saberia enfrentar quaisquer contratempos. Mas sua mudana de planos certamente seria questionada. E teria que responder questes
realmente traioeiras. Poderia simplesmente afirmar que era o que queria e sair-se com essa? At onde seu pai iria acreditar?
      Ele tinha lutado contra sua deciso de casar-se com Mark.
      Mas aquele tinha, enfim, se revelado de fato um caador de fortunas, um alpinista social, o que no era o caso agora.
      Iria ele se importar com seus sentimentos, com o processo que a levara a fazer aquela opo, ou estaria apenas feliz com o resultado, a despeito das circunstncias?
Talvez um casamento daqueles parecesse to bvio em termos sociais e financeiros que apenas ela se perguntasse sobre a sensatez do que estava prestes a fazer.
;
      E ela se questionava. Ainda podia voltar atrs. Nada tinha se tornado pblico ainda.
      Um momento de loucura podia ser anulado desde que sua divulgao fosse impedida.
      Parou diante de uma das janelas do quinto andar, vendo o trfego nas ruas l embaixo, pessoas ocupadas em levarem suas vidas. No deveria ela dar uma boa examinada
no que mais poderia ser feito com a sua vida antes de dar aquele passo arriscado?
      - Charlotte...
      O timbre profundo da voz de Damien Wynter pareceu vibrar em sua espinha dorsal, interrompendo o curso de seus pensamentos. Ela tentou se acalmar, pois precisaria
de todas as faculdades intactas para lidar com ele novamente.
      Mas a pele de Charlotte comeou a responder a uma espcie de campo magntico que parecia ser lanado por ele, um aviso de que estava perto. Perigosamente perto!
Ela precisava encar-lo, mant-lo a uma distncia razovel para que pudesse pensar direito. Mas a mo de Damien pousou em seu ombro justamente quando estava girando
o corpo. A outra mo tocou sua cintura, e somente com um gesto abrupto e defensivo ela o impediu de entrar em contato frontal com seu corpo.
      - Est tudo bem? - ele perguntou, preocupado.
      - Voc convenceu meu pai de suas intenes? - ela perguntou, lutando contra a sensao de estar sob a ao de uma fora intensa que ameaava deixar-lhe entregue
a Damien Wynter sem nenhuma chance de escolha.
      Ele deu um sorriso lento e sensual ao perguntar:
      - Acredito que sim. Mas ele quer ouvir sobre seus motivos de seus prprios lbios.
      Como ela havia esperado, sem que conseguisse afastar a insegurana com a possibilidade de ter que se explicar diante dele. Ou mesmo a insegurana quanto 
prpria deciso, que ainda no conseguia explicar nem a si prpria.
      - E, sabe de uma coisa, Charlotte?
      - O qu? - ela falou em meio  confuso de seus pensamentos. O calor do corpo de Damien ocupava todo o espao entre os dois, fazendo-a sentir constantemente
aquela presena sangnea.
      - Eu tambm quero ouvi-la - ele disse, para em seguida adotar um tom mais sexy na voz. - E, mais importante ainda: eu quero sentir voc...
      Os olhos obstinados fixaram-se na boca de Charlotte. O corao em pnico arrebentava-lhe o peito quando ela percebeu que estava prestes a ser beijada.
      Pare este homem!, a voz do desespero guinchou em sua mente.
      Seus lbios entreabriram-se como que para dar o grito. Mas nenhum som veio de sua garganta. A lngua permaneceu imvel, ansiosa por ser tocada, e no por tomar
uma atitude. E as mos tampouco esboaram qualquer reao. Sentiu um frio na barriga como se estivesse a ponto de deixar-se cair em um salto livre. Eu no me importo,
pensou. Eu quero que ele me beije. Eu quero que ele me beije agora.
      O primeiro contato pareceu carregado de eletricidade. Ela teria dado um salto para trs se no tivesse a mo firme de Damien segurando sua nuca e entrelaando
seus cabelos. Ento, passado o primeiro impulso, cedeu  fora que a dominava em uma sensualidade hipntica. E sentiu ter a boca invadida por uma lngua vigorosa,
primitiva, vida por explorar cada milmetro de um territrio do qual pretendia tomar posse.
      Atordoada com aquele assalto aos seus sentidos, ela nem mesmo percebeu que as prprias mos, antes inertes, j correspondiam ao contato fsico direto. E, ento,
outro choque a atingiu quando seus quadris foram pressionados por trs contra a virilha de Damien. Aquilo a deixou desgovernada. Enquanto isso, a lngua dura e possessiva
continuava a dominar-lhe a boca.
      Seus dedos agarraram a cabea de Damien, enquanto a lngua duelava com a dele, invadindo-lhe a boca em uma reao agressiva do prprio desejo. Ele a tomara
em seu controle e agora ela o estava envolvendo em sua intimidade apaixonada, acesa com o calor estimulante do corpo dele, com a presso dos msculos de suas coxas,
com a fora dos braos que lhe comprimia os seios arfantes contra um peito slido e vasto, no propsito de obter sua redeno final.
      Nunca!
      A palavra ecoou dentro dela como tambores de guerra e de resistncia. Estava em chamas, o corao fazia seu corpo estremecer at a ponta dos dedos, os mamilos
como flechas incendirias, e uma nsia de prazer flamejava entre suas pernas. Mas no daria a Damien a satisfao de ceder quela emboscada traioeira. Ela o beijara
de volta com tanta violncia quanto ele havia aplicado em sua investida, e no dera nenhum sinal de submisso quando finalmente se desvencilhou da armadilha.
      O ritmo ofegante de suas respiraes era o mesmo. Ela procurou os olhos dele sem um segundo de hesitao, recusando-lhe qualquer poder sobre si. A mo que
ainda segurava sua cabea lentamente a libertou, tocando-lhe o rosto, mais como um sinal de reconhecimento de sua ferocidade do que como uma carcia ntima.
      - Voc teria comido Freedman vivo. Mas no a mim, Charlotte, no a mim - ele disse, e ela percebeu que estava exaltado, no frustrado com sua resposta contundente.
- Ns somos almas gmeas. Lembre-se disso quando falar com seu pai.
      Meu pai! Havia completamente escapado de sua mente que ele a estava esperando.
      - E voc acha que um beijo comprova isso? - ela falou em retaliao, sem pretender atuar documente de acordo com aquela melodia.
      Ele sorriu, o desejo ainda fervendo em seus olhos.
      - Vamos dizer apenas que estou louco para que chegue o dia de nosso casamento.
      O corpo dela concordava com ele, mas sua voz lhe atirou uma questo mais importante:
      - H mais coisas em jogo em um casamento do que sexo, Damien. No se esquea de que eu quero um pai para meus filhos. Um pai participativo, no um pai ausente.
      Isso no o perturbou nem um pouco.
      - Eu sei como foi sua infncia, Charlotte. E tambm sei como foi a minha. Ns dois queremos que seja diferente com nossos filhos.
      - Veremos - ela murmurou, pouco convencida com meras palavras, apesar de a terem recordado de que precisava saber muito mais sobre a vida e o passado de Damien
Wynter. Talvez fossem um casal que combinava em mais aspectos do que tinha sido capaz de imaginar.
      - Sim, veremos - ele disse, retirando o brao de sua cintura para indicar o corredor que levava ao quarto de seu pai. - Enquanto isso...
      - Estou indo - falou Charlotte, forando suas pernas a dar passos firmes para o quarto do pai. Sentia o corpo como se tivesse sido atingido por um terremoto,
e era difcil manter o controle. Ainda assim, ao entrar na sute VIP do hospital, havia conseguido retomar sua compostura.
      - Voc parece melhor, papai - ela comeou a conversa, diante da intensidade do olhar do pai nos seus olhos.
      - Bem melhor por saber que voc se descartou de Freedman.
      - Sim. Eu... - Esboou uma frase, mas deu de ombros sabendo que com seu pai era sempre melhor ir direto ao assunto. - Eu no estou aqui para falar dele, estou?
      - Parece que no. Mas no fique a na ponta da cama. - Ele indicou a cadeira em que sua mulher estivera sentada  noite. - Sente-se aqui.
      Sentindo-se como uma acusada no banco dos rus diante de um juiz rigoroso, ela fez o que lhe foi pedido, consciente de que o pai avaliava o seu comportamento,
procurando nele gestos suspeitos e atos falhos. Tentou parecer o mais  vontade possvel, acomodando-se na cadeira, cruzando as pernas, retornando o olhar com segurana.
      - Esse novo casamento  um efeito colateral de suas frustraes recentes, Charlotte? - ele perguntou, direto.
      - No - ela respondeu com firmeza. Casar-se com Damien tinha que ser visto como algo positivo.
      - Eu lhe apresentei Damien Wynter como um noivo apropriado e ainda acho que seria um bom par para voc. Em todos os sentidos. Mas se voc est apenas querendo
superar...
      - No. Ele de fato  apropriado para mim, papai - ela insistiu.
      - Eu devo morrer em breve, Charlotte. Voc sabe disso. E no quero v-la se casando s para me agradar.
      Ela sorriu, contente em perceber que ele realmente se preocupava com sua felicidade pessoal. Isso significava muito para ela. Preocupava-se com a dele, tambm.
Antes de Mark sempre haviam tido uma boa relao. E ela queria isso de volta.
      - Voc estava certo sobre Mark. - Admitir isso j no doa nem um pouco. - Por que no deveria acreditar que est certo sobre Damien?
      Ele refletiu sobre aquele ponto e em seguida confirmou:
      - Eu acho que  o melhor para voc. Na verdade, foi mesmo muito bom ouvir que voc estava disposta a casar-se com ele. Minha filha... - O orgulho e a satisfao
nestas palavras fizeram surgir um largo sorriso em seus lbios. - Ele est  sua altura. Voc no far um casamento desigual. Ter um homem que pode respeitar.
      A ansiedade com a deciso que tomara amenizou. Ela, certamente, no perderia a estima do pai por isso. E a rachadura provocada por sua relao com Mark estava
superada.
      Mas um momento de cautela subitamente interrompeu os comentrios positivos do pai.
      - Eu parecerei um idiota se emitir um comunicado  imprensa sobre esse casamento e ele no acontecer.
      - No mudarei de idia - ela garantiu.
      Estranhamente, j no havia nenhum sinal de dvida em sua voz. A aprovao incondicional do pai era o provvel antdoto de que precisava para acalmar sua turbulncia
interna.
      Ele prosseguiu em suas ponderaes.
      - No  preciso tanta pressa. Eu posso muito bem pagar por outro casamento.
      No. Sem demora, veio a ordem de sua mente. Vamos logo ao que tem que ser feito.
      - No quero planejar outro casamento - replicou, decidida. - Esse j est preparado do jeito que gosto.
      Damien estava certo quanto a isso. Era uma produo perfeita, at o ltimo detalhe. Ela no queria nada diferente.
      - Voc est mesmo disposta a ter Damien Wynter como marido?
      - Sim. Estou - ela respondeu, como se aquilo tivesse se tornado uma verdade absoluta em sua cabea.
      - Me diga por qu, Charlotte.
      As razes eram muito ntimas para explic-las. Sorriu ao encontrar uma resposta que o pai poderia aceitar.
      - Porque ele  o homem, no , papai?
      O homem do dinheiro, o homem de deciso, o homem dos genes certos para os netos de Lloyd Ramsey... um deles!
      - Sim, tenho que concordar - ele assentiu com alguma alegria. - E fico feliz de que voc o veja assim tambm.
      O pai estava certo em muitos aspectos. Damien encaixava-se em suas vidas. At que ponto encaixava-se no papel de seu marido s o tempo iria dizer. Ela estava
disposta a arriscar esse tempo naquele casamento. A promessa de filhos fazia valer a pena.
      - Ento estamos acertados - ele falou sem reprimir a satisfao. - Eu no vou mais questionar voc, Charlotte. Damien at colocou a fortuna pessoal dele em
jogo no caso de um divrcio.
      - Eu no estou interessada na fortuna dele, ainda mais se o casamento vier a ser um erro.                                         ;
      - Esta  a minha garota! - o pai disse, em calorosa afeio. - Mantenha a cabea erguida e eu oferecerei sua mo a ele com orgulho, o que no faria se estivesse
se casando com Freedman. E deixe os boatos correrem. No se importe com eles. Eu no me importarei nem um pouco.
      Esta manifestao de afeto libertou Charlotte de um peso que ainda a oprimia.
      - Estou feliz de no estar levando voc a outro ataque do corao.
      Ele deu uma risada.
      - Eu vou adorar comunicar isso aos jornais. E vou contar cada detalhe, o que colocar Freedman em uma posio bastante desconfortvel... assim ningum ter
dvidas quanto ao acerto de sua brilhante deciso.
      Brilhante?
      Sim, a escolha podia ser vista por este ngulo, pensou Charlotte. Ou ao menos esperava que no fim das contas ela pudesse ser, mesmo que agora no tivesse tanta
confiana. Levantou-se da cadeira e deu um beijo na testa do pai.
      - Obrigada, papai. Eu vou deixar voc com o divertimento de bolar um texto que explique esse mal-entendido. Agora vou com Damien dar a notcia a mame e Peter.
      - No, no. V comemorar! Eu farei com que eles saibam.
      Um ltimo n no corao de Charlotte se desfez com a sensao de que enfim tudo estava encaminhado. Um limite fora ultrapassado e agora j no se podia voltar
atrs.
      Em menos de duas semanas, estaria casada com Damien Wynter.


      CAPITULO ONZE

      Reviravolta na Alta Roda Noiva Arrependida  Capturada por Magnata Surpresas do Corao - e do Dinheiro Tambm Troca de Noivos: Sai Freedman, Entra Wynter
A Inacreditvel Histria de Charlotte Ramsey
      Foi uma notcia que a mdia adorou, uma verso sensacional depois da outra, at o dia do casamento. O pai voltou para casa pouco depois de redigir o comunicado
 imprensa e instantaneamente reforou a segurana ao redor da manso em Palm Beach para manter afastados os paparazzi. Para no submeter Charlotte a um ataque de
fotgrafos e reprteres, Damien fez com que uma seleo de alianas de noivado e casamento fosse levada a eles pelos melhores joalheiros de Sidney. Todo o resto
havia sido planejado com antecedncia.
      Charlotte no precisava ir a lugar nenhum, e de fato no ia, mas ficava bastante ocupada ao telefone, para satisfazer a curiosidade de amigos e conhecidos.
As pessoas mais prximas a Mark declinaram do convite. Charlotte escreveu uma polida carta de desculpas  famlia dele, apesar de no ser exatamente uma obrigao
dela, diante da publicao dos motivos que haviam levado  quebra do compromisso.
      Como Damien previra, ningum criticou sua deciso. Ficaram apenas estupefatos com a velocidade em que ocorrera. Na maior parte do tempo, Charlotte ignorou
os comentrios insidiosos e manteve a mente no futuro, pensando no que Damien prometera lhe proporcionar.
      Ele pediu a Peter que fosse seu padrinho. E convidou outros amigos de Londres para formar sua comitiva. Seu pai, Richard Wynter, insistiu em comparecer, chegando
em um jatinho particular, com a madrasta de Damien. A terceira... Houve muitos cumprimentos, geralmente bastante calorosos.
      Todos declaravam que aquela era uma unio perfeita. Charlotte simplesmente aceitava os elogios.
      De certa forma, era bom que estivesse to ocupada, com menos tempo para pensar at o momento em que estava indo para a cama, para dormir instantaneamente.
Com tantas pessoas indo e vindo, quase no ficava a ss com Damien, e suas conversas eram principalmente sobre os preparativos.
      Ele era quase sempre solcito, atencioso, antecipando-se a qualquer pergunta capciosa que lhe fosse lanada. Um perfeito cavalheiro, apesar de Charlotte sentir
seus olhos negros e lupinos sobre ela a todo instante, como que aguardando a noite do casamento para iniciar um ataque feroz.
      No a beijara novamente. No intimamente. Segurava sua mo quando tinham companhia, enlaava-a pela cintura, mantinha Charlotte perto dele, fazendo-a sentir
sua presena fsica. Mas no fazia insinuaes sexuais, respeitando a lei: nenhuma amostra grtis antes do casamento.
      Para consternao de Charlotte, em vez de acalmar seus nervos, aquela conteno a deixava ainda mais excitada, e ela suspeitava que ele soubesse disso, o que
fez com que se esforasse em manter uma aparncia equilibrada em sua presena. Mas, dia a dia, ele a estava envolvendo em seu charme, o que fez com que ela se sentisse
muito vulnervel. E se terminasse por querer aquele homem mais do que aos prprios filhos? Como podia controlar seus sentimentos?
      Estas eram questes que no podiam ser respondidas, ento, ela as deixava de lado, enquanto o turbilho do casamento seguia em frente. Tendas foram erguidas
nos jardins. Decoradores supervisionavam os trabalhos. Chegavam caminhes de rosas. Os vestidos da noiva e de suas damas de honra foram experimentados para que nenhuma
alterao fosse necessria no ltimo minuto.
      At que chegou o dia.
      Estava claro e ensolarado.
      Estava perfeito.
      As horas voavam: brunch com as damas de honra, sesses com o cabeleireiro, acalmar a me, subitamente chorosa por perd-la para um homem que a levaria embora
da Austrlia.
      - Eu no verei meus netos - ela se lamentava.
      - Voc pode arrumar um tempo para viajar entre suas atividades, mame - Charlotte argumentou. - Voc pode acompanhar papai nas viagens dele e visitar-nos.
E ns viremos visit-los, no estou indo embora para sempre.
      -  s que... - Ela suspirou e balanou a cabea. - No, deixa pra l. Damien  mesmo o melhor marido para voc. Seu pai est certo. Eu realmente espero que
seja feliz; com ele, querida.
      Feliz... Charlotte no estava nem mesmo pensando em termos de felicidade, apesar de manter isso para si mesma, sorrindo com serenidade para a me, demonstrando
uma segurana que no sentia mais profundamente. Tinha controlado sua perturbao com uma carapaa de tranqilidade irreal enquanto seguia com a preparao do casamento.
O compromisso estava selado. E chegara o dia em que ele seria confirmado. Depois pensaria no resto... depois.
      - Voc  uma linda noiva - a me declarou quando ela estava pronta para a cerimnia.
      Seu reflexo no espelho lhe dizia que nunca estivera mais bonita. Os cabelos presos formavam tnues ondulaes tranadas por sobre a cabea, exceto por alguns
fios soltos, que lhe emolduravam o rosto. Um vu em camadas sobrepostas partia de uma delicada tiara de diamantes, que pertencera  me e agora, pela segunda vez,
era usada em um casamento na famlia.
      Uma fina corrente de ouro contornava seu tornozelo direito, e dela pendia uma pequena turquesa azul. A nica outra jia que ela usava era o magnfico diamante
que Damien pusera em seu dedo, em um estilo muito diferente do que ela havia devolvido a Mark. Com Damien,  claro, o custo no tinha sido um fator relevante. Ele
havia insistido para ela escolher apenas de acordo com seu gosto, e ela no teve reservas ao faz-lo.
      A maquiagem dava  sua pele um tom ainda mais fresco do que o habitual. Seus lbios exibiam um vermelho suave e as sombras dos olhos habilmente os iluminavam.
Ela de fato estava linda, ou to linda quanto era capaz de parecer.
      O vestido era fantstico. Um decote em V adornado com pequenos cristais reluzia em seu busto esculpido pelo corpete, de onde surgiam os ombros suavemente cobertos
por mangas esvoaantes. Uma saia de cetim modelava-lhe a cintura, descendo at os joelhos, e, ento, dando lugar a volumosas peas de chiffon maravilhosamente drapejadas.
O estilo era, ao mesmo tempo, romntico e sexy. Charlotte esperava que Damien Wynter fosse nocauteado com sua apario.
      O fato de que comprara o vestido para o casamento com Mark era irrelevante. Ela o tinha escolhido para viver aquele grande momento de sua vida, independente
de quem fosse o noivo.
      - Damien me disse para dar-lhe isso. - Sua me lhe passou um pequeno pacote envolto em papel prateado. - Ele gostaria que voc os usasse.
      Eram brincos que pendiam com gotas de diamantes rosados e brancos. Eram incrivelmente belos e deviam ter custado uma fortuna. A cor tambm combinava com as
rosas do buqu. Charlotte no vacilou em colocar os brincos, satisfeita com um presente to gentil e carinhoso. Ao menos ela esperava que aquilo no fosse apenas
uma exibio de sua riqueza. Mas isso ela descobriria depois. Justo agora estava contente de ser sua esposa... ou talvez todos os detalhes romnticos de um casamento
como aquele tivessem momentaneamente aliviado o peso de suas dvidas a respeito do que estava fazendo.
      Era hora de descer.
      Seu pai a estava esperando para acompanh-la.
      Todos os convidados reunidos na grande tenda do jardim estavam aguardando para testemunhar aquele acontecimento excepcional.
      Damien Wynter esperava para ter o direito de t-la em sua cama.
      E Charlotte no sabia se o tremor em suas pernas era causado pelo nervosismo ou pela excitao.
      Damien, Peter e outros dois padrinhos alinharam-se  direita da rvore coberta de rosas diante da qual estava o oficial que iria conduzir a cerimnia.  frente
deles estavam cerca de 400 convidados, inquietos em seus assentos, ansiosos por no perder nada. Houve uma pausa na msica executada por uma orquestra de cmara.
      - Ento vamos l - disse Peter, bem-humorado, olhando para Damien. - Tudo certo com voc?
      Ele estava tenso. O dia tinha sido bastante longo, at aquele momento, o momento crucial! Havia feito tudo que estava ao seu alcance para assegurar-se das
intenes de Charlotte, mas ela poderia sempre desistir at que tivessem sido ditas as palavras decisivas: marido e mulher.
      Lanou um sorriso enviesado para Peter.
      - Deseje-me sorte, meu amigo.
      - Nervoso?
      - Um pouco. Mas s at Charlotte caminhar por este corredor.
      - No se preocupe. Ela vir.
      - Eu talvez a tenha forado a isso, Peter.
      - Voc no pode forar minha irm a fazer nada que ela no queira. Ela sempre tomou suas decises por si prpria. Eu mesmo o adverti disso, est lembrado?
      Mas Peter no sabia o quo implacavelmente ele havia manipulado a situao em seu proveito. No que Damien estivesse arrependido, nem por um segundo. Ele queria
Charlotte Ramsey e utilizaria qualquer ttica de guerra para t-la. E, ainda assim, tinha toda a noo da precariedade de sua conquista at aquele instante. Qualquer
escorrego teria sido fatal. Mas ele no tinha escorregado. Ou, pelo menos, no conseguia lembrar-se de falha alguma em seus planos.
      Aparentemente, por sentir que no atenuara a tenso de Damien, Peter arriscou um toque de humor mais irnico:
      - Na verdade, sinto certa pena de voc, que no sabe onde est se metendo.
      - Quanto a isso, no se preocupe. Charlotte  tudo que sempre procurei em uma mulher.
      - Bem, parece ento que voc conseguiu - disse Peter. - A vem mame e as damas de honra esto posicionadas para a cerimnia.
      Ambos se viraram para ver uma harpista que do outro lado da rvore havia comeado a tocar com virtuosismo. Assim que Kate Ramsey se sentou, a primeira dama
de honra deu o primeiro passo. Para Damien ela era uma mancha rosada. Ela no era importante. Nada alm de Charlotte realmente importava.
      Seu peito era uma jaula trancada com o corao como uma fera querendo escapar. Seu olhar fixava-se na fina e transparente cortina branca no final da tenda.
Concentrava todas as foras na vontade de que Charlotte viesse a ele, de que no desistisse no ltimo minuto.
      As damas de honra alinharam-se no lado esquerdo da rvore.
      Damien apertou os pulsos. Seu corpo foi tomado pela ansiedade. Se Charlotte no aparecesse logo...
      A harpista parou de tocar. O silncio sbito era intimidante. E, ento, a orquestra iniciou a Marcha Nupcial, de Mendelssohn.
      Damien respirou aliviado quando dois criados abriram as cortinas... e l estava ela! Um orgulho triunfante substituiu todos os seus temores. Sua noiva... linda,
radiante, absolutamente principesca em sua postura ao caminhar pela passagem, o brao levemente pousado sobre o do pai, sem buscar nele qualquer apoio, sensualmente
elegante em um vestido que lhe moldava as curvas, com um apelo sexual to grande que o corpo de Damien teve que conter uma inesperada onda de desejo.
      Nesta noite ela ser minha, disse a si mesmo com ardor. A espera estava quase terminada. Direcionou o olhar para o rosto dela, determinado a interromper o
fluxo de sangue em seus msculos. O que Charlotte estaria sentindo, o que ela estaria pensando? Um sorriso tnue aflorava aos lbios da noiva. Haveria percebido
o impacto que tivera sobre ele? Seria aquele um sorriso de satisfao, de doce prazer, ou um disfarce para um nervosismo que se recusava a aceitar?
      Charlotte podia suportar qualquer situao com total controle sobre si mesma.
      Sua mulher.
      Ela estava usando os brincos, seu presente de casamento. Um prazer intenso irrompeu no sorriso do prprio Damien, enquanto ela se aproximava lentamente, cada
passo trazendo-a mais para dentro de sua vida. Nenhum dos dois prestava qualquer ateno aos convidados. Ele sentia que ela os ignorava, mantendo a mente no que
fazia naquele momento. As pestanas dela abaixaram-se, ocultando sua expresso quando se aproximou dele.
      Ele levantou a mo. Ela soltou o brao do contato com o do pai, transferiu o buqu para a mo esquerda e pousou os dedos trmulos na palma estendida de Damien.
Ele fechou os prprios dedos ao redor dos dela, apertando com firmeza...
      - Eu lhe ofereo a mo de minha filha - Lloyd Ramsey disse, e deu um passo atrs, postando-se ao lado da esposa.
      Os clios de Charlotte se ergueram, olhando-o diretamente - com olhos frgeis que ansiavam por proteo, despertando uma estranha mistura de sentimentos nele...
um acesso de ternura, um forte instinto de posse e um impulso selvagem de tom-la para si.
      Ele era seu homem.
      E provaria isso a ela.
      Mas, antes de tudo, precisavam se casar.
      Damien fez um gesto sutil para que o oficiante comeasse a cerimnia, segurando firme a mo de Charlotte. De maneira alguma ela escaparia agora. A frente deles
estava o desafio de um matrimnio. Silenciosamente, prometeu a si mesmo enfrentar aquele desafio. E sabia que estava apenas no comeo.


      CAPTULO DOZE

      A recepo se realizou em um clima razoavelmente agradvel para Charlotte. Era bvio que todos os convidados pensavam que ela havia feito uma jogada admirvel
ao tornar Damien Wynter seu marido, o que era definitivamente um triunfo seu. Ele,  claro, encantava a todos, um mestre em todas as situaes. Ela estava feliz
com isso. Ele tornava bastante fcil seu papel como sua noiva. Enquanto era claramente considerado um noivo espetacular, o prprio Damien reafirmava o quanto estava
contente por ter encontrado e conquistado Charlotte para torn-la sua esposa.
      Nem sequer uma vez Mark Freedman foi mencionado. Teria sido de mau gosto, mas Charlotte no podia deixar de pensar quo rapidamente ele tinha sido eliminado
de sua vida. Damien era uma fora to dominante que era difcil no ficar totalmente arrebatada por ele. No entanto, o redemoinho do casamento iria logo cessar,
e, ento, ela aprenderia com que estava lidando de fato.
      A tranqilidade que manteve por toda a tarde comeou a se desintegrar quando entraram no helicptero, que voaria de Palm Beach para um hotel na cidade onde
Damien reservara uma sute nupcial, e para onde sua bagagem j fora levada. Eles no mais tinham uma multido ao redor deles. Fora o piloto, ela estava sozinha com
o homem com quem compartilharia a cama  noite... pela primeira vez.
      Ele segurava a mo dela, como se comportara por quase toda a recepo. O helicptero fazia muito barulho, ento, ficaram em silncio durante a curta viagem.
Charlotte olhou para as luzes de Sidney, pensado em quando as veria novamente, e tentando dissimular os efeitos do contato com a pele de Damien, ao menos at chegarem
ao hotel.
      No dia seguinte, voariam para o Mxico, para a lua-de-mel. Ela e Mark haviam planejado ir  Tailndia. Um homem diferente, um lugar diferente. E por que estava
pensando em Mark de novo? Provavelmente, porque tinham sido amantes por um longo tempo, e ela estava em pnico com a proximidade de uma experincia nova. Um beijo
apaixonado fora uma preliminar suficiente para o que estava por vir.
      Talvez insistir em que ele esperasse no tivesse sido uma deciso inteligente. Todos os nervos dela estavam atiados, sentindo a energia represada dele, uma
energia sexual nem um pouco diminuda com os eventos do dia. Ele no iria, de modo algum, cair em um sono inebriado. Parecia que somente agora estava realmente comeando
a gostar da festa.
      O helicptero pousou no teto do hotel e foram conduzidos  sute. A decorao era de um extremo luxo nupcial, toda romanticamente branca, excetuando as cestas
de ptalas de rosas para o banho e os morangos cobertos de chocolate em uma bandeja prateada ao lado da garrafa de champanhe. Charlotte notou que era meia-noite
quando Damien levou  porta o homem que insistira em mostrar-lhe o quarto com todos os seus confortos, e como eles funcionavam.
      Ela caminhou at a janela de onde se divisava o porto de Sidney, mantendo o dorso ereto para que Damien no notasse os sentimentos que a assaltavam. O grande
corao vermelho que fora aceso na noite do rveillon ainda brilhava no arco da ponte, e podia-se ver seu reflexo nas guas. O prprio corao de Charlotte de repente
estava sedento do que ele simbolizava: amor.
      Amor verdadeiro.
      O estigma de ser filha de Lloyd Ramsey seria insignificante se ela viesse a ser amada pela pessoa que era. Mark deixara um vazio onde devia existir segurana
emocional.
      Em que medida ser a esposa de Damien Wynter e me de seus filhos iria preencher esse vazio ela no sabia, mas havia se colocado nesse lugar e entrar em pnico
agora no fazia qualquer sentido.
      Podia ouvi-lo tirar a roupa, aprontando-se para a ao. Talvez tivesse que fazer o mesmo, adotando uma atitude sem receios, mas seus ossos estavam derretendo
e ela se sentia sem cho. Ele iria at ela. Isso era inevitvel. Enquanto isso, era mais fcil manter as aparncias, mas a aproximao dele era cada vez mais evidente.
      - Voc no est mais sozinha, Charlotte - Damien disse calmamente, com sua voz profunda e firme. - Voc est comigo.
      - Para o bem ou para o mal - ela murmurou, olhando o corao vermelho, enquanto o seu ainda batia no ritmo de sua preocupao com o compromisso que assumira.
Ela no tinha que se virar e encar-lo. Ele teria o que queria. Que viesse buscar. E a fizesse sentir como uma vencedora tambm.
      - Vai ser melhor assim, eu prometo - ele sussurrou em seu ouvido, e ento deu um beijo suave em seu ombro, formando uma pequena ilha de calor que enviou suas
ondas por todo o corpo de Charlotte.
      Ela no respondeu. Apenas o tempo diria se a promessa era verdadeira ou falsa. Sentiu as mos dele em seus cabelos, retirando as presilhas que os seguravam.
O vu tinha sido descartado mais cedo, e deixado aos cuidados da me. Dedos gentis estavam soltando as longas trancas agora, revolvendo-as, massageando os lugares
onde haviam estado as presilhas.
      Assim estava bem... com cuidado, com carinho... ou estaria ele apenas dissimulando seus instintos primitivos?
      No importava.
      Assim estava bem.
      Sem ataques inesperados. Sem fora bruta.
      Ela respirou profundamente, dizendo a si mesma para relaxar.
      - No estou com dor de cabea - ela falou com bom humor, para tentar conferir alguma leveza  situao.
      - timo. - Ele deu uma risada. - Esta  a minha Charlotte.
      Eu no sou sua, ela pensou imediatamente, reagindo contra a declarao possessiva. Mas, ento, lembrou-se de que ele tinha todo o direito de pensar isso. Dera
a ele esse direito. Por outro lado, ele era dela, tambm.
      - Meu Damien - ela disse, para test-lo.
      - Seu criado... soltando seus cabelos depois de um longo dia - ele respondeu, sua voz ainda vibrando de contentamento. Logicamente, no se importava nem um
pouco de ser chamado daquela maneira.
      Supere isso, Charlotte, ela disse a si mesma. Voc no  mais uma mulher independente. Voc agora  parte de um casal.
      - Foi mesmo um longo dia - concordou com um suspiro. - O tempo todo quis um momento de paz.
      - E escapar um pouco da multido de olhos curiosos.
      - Sim.
      - Voc foi uma noiva fabulosa.
      As palavras compreensivas acariciaram seu corao frio, derretendo um pouco do gelo ao seu redor. Mas sua mente rejeitava qualquer sugesto de romance naquele
casamento e providenciou uma resposta irnica:
      - Eu tinha que corresponder ao meu prncipe sado de um conto de fadas.
      Damien adotou um tom mais cuidadoso diante daquele ataque.
      - O casamento foi como voc queria? No.
      A dor da verdade machucava.
      O casamento tinha sido planejado como uma magnfica celebrao do amor, e aquele sonho fora estilhaado em um escritrio de advocacia diante de uma questo
legal. E naquele dia ela juntara todas as peas do quebra-cabea para que sua imagem reaparecesse, mas j sem substncia alguma por trs.
      Sem alegrias transbordantes. Sem nenhuma confiana na felicidade. Apenas seguindo adiante, com determinao, mas sem amor.
      Uma representao vazia.
      Mas, enfim, o casamento acontecera, e agora seu marido certamente no apreciaria que ela ficasse se lamentando pelo que no tinha sido.
      Ele estava ainda mexendo em seus cabelos, correndo os dedos por eles e sentindo sua textura, ou apenas exercendo a liberdade de faz-lo. Liberdade que ela
havia escolhido dar a ele e com a qual agora tinha que conviver. Seria mesquinho contamin-la com problemas pessoais que deviam ser esquecidos.
      - Tudo correu perfeitamente - ela disse, concisa. O que era verdade, em um nvel superficial.
      - Tambm achei isso.
      Era melhor do que fingirem que tinha sido algo mais. Pelo menos nesse sentido ela sabia com quem estava lidando. Damien Wynter no tinha o hbito de fazer
exageros desnecessrios.
      Ele a queria. Muito. No havia nenhum exagero. Havia at mesmo conteno na maneira como expressava isso.
      As pontas dos dedos dele subiram pela curva de sua espinha at a extremidade do zper do corpete.
      - Foi um homem que desenhou este vestido? - ele perguntou, admirando-a por trs.
      Todo o corpo dela era presa de intensa antecipao. Em algum lugar encontrou foras para dizer apenas sim.
      - Ele sabia o que estava fazendo. - O comentrio surtiu o efeito de diminuir um pouco a tenso nos nervos maltratados de Charlotte. -  uma obra-prima da sensualidade.
Eu gosto do seu estilo, Charlotte. Dignidade com um pequeno toque de malcia feminina.
      Ela nunca tinha pensado desse jeito. Apenas escolhia para vestir o que a fazia sentir-se bem.
      - Que bom que voc gosta, porque no pretendo mud-lo nem um pouco - ela disse, apegando-se  sua individualidade para no tornar-se algo que no era no papel
de esposa de Damien Wynter. Ele era um macho que teria sempre as coisas do seu jeito, mas Charlotte no se deixaria subjugar por aquela personalidade dominante.
      - Eu no quero mudar nada em voc, Charlotte. Voc  perfeita como est.
      A observao a distraiu um pouco da conscincia de estar sendo despida, mas sua espinha automaticamente enrijeceu-se enquanto o zper era puxado lentamente,
abrindo parte de trs do corpete, desnudando seu corpo para um homem que ela no amava.
      Era mais fcil no olhar para ele e apenas sentir-lhe as mos deslizando pelas costas at os ombros, retirando as mangas finas atravs dos braos. No estava
usando suti e seus mamilos exibiram-se proeminentes e duros quando o tecido caiu.
      A saia de cetim tambm cedeu, e agora tudo o que Charlotte tinha para cobrir o corpo era uma angua branca, quase transparente. Se era perfeita para ele, estar
nua no deveria preocup-la. E fazer sexo com ele era um pr-requisito necessrio para engravidar. Este era seu objetivo. Ela no precisava de amor para alcan-lo.
      A angua foi puxada, juntando-se ao enorme volume de tecido branco aos seus ps.
      - Venha at aqui, Charlotte - Damien instruiu, tomando-a pela cintura.
      Foi preciso um ato de vontade para que ela fizesse as pernas se moverem. Sentia-se como uma gua-viva. De algum modo, conseguiu erguer um p e depois o outro,
deixando para trs o vestido no cho. Mas ainda usava uma pea: brincos de diamantes. Sem dvida, ele os deixara para marcar o territrio de sua posse.
      O contato comeou... leves carcias em suas panturrilhas, circulando a rea sensvel atrs dos joelhos, e, ento, o calor do seu corpo cada vez mais perto,
a sensao concreta da intensidade do seu desejo... as mos dele vagando, acariciando-a com uma habilidade inebriante, no total controle de sua excitao.
      Com todos os msculos do corpo em expectativa, Charlotte se esqueceu de respirar at que a falta de ar a forou a lembrar-se. Ele interrompeu as carcias e
a abraou pela cintura com firmeza, a cabea pendendo prxima ao ouvido dela, em p diante da janela da sute.
      - No que voc est pensando? - perguntou em um murmrio.
      A boca de Charlotte estava to seca que era difcil falar. Mas, apesar de j no estar pensando em absolutamente nada h alguns segundos, ela no quis dar
a entender que estava completamente entregue.
      - No corao na ponte - ela respondeu.
      Eram apenas as palavras que estavam mais  mo, e ainda assim produziram um efeito explosivo. As mos dele seguraram-lhe o rosto, no mais gentis, exigindo
que o olhasse direto nos olhos:
      - No pense nele! - Damien ordenou, os dentes  mostra em sua ira repentina.
      Nele?
      Estava se referindo a Mark?
      Ela ficou desnorteada. Por que ele estava com tanta raiva? Ela nunca voltaria para Mark. Ele teria alguma dvida quanto a isso?
      - Voc  minha, Charlotte Wynter - ele declarou. - Voc me pertence. E eu farei com que entenda isso. Eu vou fazer com que voc sinta isso.
      O lobo que existia dentro dele fora libertado de sua jaula. Damien a lanou na cama cheio de cime. Deitou-se "obre ela e colocou-se exatamente na posio
de um lobo sobre seu corpo, como que garantindo a posse de sua presa. Mas, estranhamente, Charlotte no sentia medo. A sensao da proximidade de algo muito esperado
a deixava extasiada.
      O perfeito controle que Damien exercera em todas as situaes desde que haviam se conhecido desaparecera. Este era o homem em sua verso mais bruta, sem suas
sofisticadas artes de seduo, colocando a prpria natureza em atividade, abrindo caminho somente com as foras de uma paixo inexplicvel, uma paixo que exigia
que aquela mulher fosse permanentemente sua, apenas sua, em corpo e em pensamento.
      Mas aquilo, em grande medida, transferia o poder a ela. Charlotte no mais se sentia trmula e vulnervel. Era como se as exigncias instintivas de Damien
tivessem injetado nela um novo vigor, em vez de submet-la aos seus comandos. Quando lhe sentiu a boca chocando-se contra a sua, todo indcio de seduo fora deixado
para trs. Charlotte negou-lhe a supremacia masculina que ambicionava, contra-atacando com seus prprios recursos, sugando as energias de Damien, levando a prpria
lngua para dentro do territrio inimigo, em um duelo feroz de beijos invasivos.
      Ela esquivava-se do domnio fsico usando sua flexibilidade feminina, as pernas entrelaadas s dele, seus corpos suados favorecendo os contatos escorregadios,
quando a nudez j no era mais motivo de preocupao e um ardor mtuo era gerado pela frico de pele contra pele, todo toque causando um novo pulsar luxuriante,
e a disputa entre os dois seguia sem vencedores.
      Ela tirou os sapatos em um s gesto, seus ps expostos encontrando melhor aplicao nas pernas de Damien, empurrando-o, fustigando seu desejo, fazendo-o sentir
que ela no seria controlada to facilmente. As mos dele firmaram-se nos antebraos de Charlotte, enquanto a boca abandonava os lbios dela, em busca da jugular,
onde sentiu as fortes batidas do corao de Charlotte em atividade, e ps-se a sugar aquela regio como que se alimentando dos fluidos vitais de sua fmea, deixando
agir sua natureza primitiva e fora de qualquer controle.
      Ela gostou daquilo, gostou que ele sentisse aquela necessidade, enquanto as suas queimavam dentro dela, com a determinao de deixar de ser a caa para tornar-se
caadora.
      Mas algo mudou quando ele se lanou aos seios com avidez ainda maior, fazendo-os doer em meio  excitao, e usando a lngua como um chicote em chamas contra
seus mamilos sensveis, roando os dentes sobre a superfcie enrijecida, para, ento, cobri-los com toda a boca, o que proporcionou a Charlotte um prazer to intenso
que ela chegou a querer que ele os mordesse. As mos dela reviravam-lhe os cabelos, acompanhando em xtase o movimento de um seio ao outro, na expectativa acentuada
do seu toque em cada segundo que o contato era interrompido.
      Ele soltou os braos dela e ps-se a beijar-lhe a barriga, provocando o mais doce dos tormentos, erigindo uma fogueira ardente, atiando as brasas at que
no pudesse mais suportar, as mos dela marcando seus ombros como garras, os quadris se deslocando, as coxas em espasmos.             ;
      - Basta!
      - No at que voc diga que me quer - Damien respondeu, com a lngua ainda margeando o umbigo de Charlotte de modo provocativo.
      Ela fechou os punhos sobre os lenis, e seus dedos dos ps se contorceram uma ltima vez antes que soltasse a voz:
      - Maldito seja, Damien Wynter! Eu quero voc! Agora!
      - Certo - ele disparou, ao mover o corpo para cima dela, que cruzou as pernas para segur-lo contra si, recebendo-o como se no fosse deix-lo sair dali jamais.
      - Eu tenho voc e voc tem a mim - ele falou, com a voz e os olhos exultantes e animalescos. - E  assim que vai ser daqui por diante, Charlotte.
      E ele a beijou brutalmente, para reafirmar a posse, estamp-la nos lbios dela, marcar o corpo de Charlotte com os sinais de uma batalha ntima. Sim, ela pensou.
Sim, sim, sim... capturada pela paixo do momento, vtima do prprio prazer, ela entreabriu os lbios e murmurou essa palavra definitiva.
      Ela se movimentava como ele determinava, querendo senti-lo cada vez mais, levando-o a aumentar a intensidade de suas respiraes, em sucessivas descargas da
mais pura energia sexual, at atingir os pinculos de uma escalada rumo a um clmax glorioso. Nunca antes havia experimentado algo como aquilo. Seu corpo debatia-se
em um mar de prazeres desconhecidos. Sua mente flutuava naquele mar.
      No havia mais qualquer resqucio nela do esprito de luta, e no havia mais nada contra o que lutar. Ela amava t-lo sobre si, amava tocar seu corpo musculoso,
amava sentir a escalada do ritmo do prazer dele at o instante explosivo que estivera por tanto tempo aguardando aquela noite. E, ento, passou a amar a maneira
como ele a abraou em seguida, como se quisesse permanecer nu ao seu lado para sempre.
      A cabea de Charlotte acomodou-se sob o queixo de Damien, sentindo as pulsaes de sua garganta. Beijou-lhe o pescoo, querendo que ele sentisse o que estava
sentindo agora. Uma das mos dele passou a acariciar os cabelos dela, que estava entregue a uma indescritvel felicidade.
      No mais se importava com os impulsos possessivos que fluam de Damien. Era uma afirmao do que ela mesma sentia. A sensao daquele acordo tornara obsoletos
outros sentimentos, emergindo do silncio depois que toda energia havia sido gasta. Foi um momento de paz, de conforto, e Charlotte estava satisfeita por simplesmente
estar ali com ele, aproveitando o instante nico de uma tranqilidade de corpo e esprito.
      - Voc  minha alma gmea, Charlotte.
      O que Damien dissera antes, com aparente presuno, repetia agora, em um momento em que suas palavras podiam ser ouvidas de outro modo.
      Mas a mente de Charlotte apressou-se em recus-las, retirando-a contrariada de seu torpor. Talvez perfeitos parceiros sexuais, ela prosseguiu o raciocnio,
reconhecendo a maneira como a ferocidade fsica dele lhe causara rompantes instintivos similares, liberando-a de inibies e constrangimentos.
      Talvez a chave da libertao sexual de uma pessoa estava em no se preocupar com o que o outro pensava, apenas fazer o que mandava o corpo.
      Mas eles no haviam feito amor, certo? Tinha sido uma coisa mais primitiva do que isso, e ela no estava certa de at onde isso iria lev-los em um matrimnio.
Uma onda de tristeza tomou o lugar da tranqilidade. O amor no tivera parte alguma naquele festim. Era apenas...
      - Um cruzamento - ela disse, a palavra saindo-lhe dos lbios com a lembrana do que fazem os animais para procriar. Mas, tendo em vista que se casara com Damien
Wynter justamente para isso, no havia porque se sentir desconfortvel agora com aquela constatao.
      - No mnimo, um cruzamento perfeito - ele replicou.
      Charlotte sentiu um primeiro impulso de retomar a discusso, mas foi abatida pelo cansao de sua mente, e por uma sbita vontade de chorar.
      Tinha sido um longo dia. Uma longa noite. O amor teria feito dela uma noite perfeita, mas no se pode ter tudo de uma vez. Como estavam, havia a perspectiva
de muitas outras noites como aquela, que poderiam mat-la de prazer, mas no corresponder s carncias de sua alma. E ela no acreditava que ele era o tipo de homem
que pudesse fazer isso.
      As lgrimas contidas logo escorreram por seu rosto. Era difcil falar com aquele n na garganta, e a splica veio em um sussurro quase inaudvel:
      - Preciso dormir.
      Houve uma pausa antes que ele respondesse, na qual ela rogou-lhe mentalmente que no fizesse mais nenhuma demanda. Por favor, Damien... voc est satisfeito,
no est?
      - Como voc gosta de dormir, Charlotte? Do seu lado? A questo gentil trouxe-lhe um enorme alvio.
      - Sim - respondeu, na esperana de que no houvesse mais conversa, mais ao, mais nada naquela noite.
      Damien apenas rolou o corpo dela um pouco para o lado e encaixou-se nele, abraando-a por trs como uma concha.
      Ela no se importou com mais aquele sinal de posse, pois era morno e reconfortante, fazendo-a sentir-se protegida antes de adormecer. Ento, lhe ocorreu que
tambm isso era o que significava ser a esposa de Damien Wynter. Entre outras coisas, tambm isso.
      Era uma parte instintiva da natureza desse macho cuidar de sua mulher, e apesar da independncia  qual Charlotte queria agarrar-se, uma parte profundamente
feminina dela gostava da sensao de ser cuidada pelo marido, gostava de deix-lo ser o centro de fora do casal, gostava de sentir-se segura com sua proteo.
      - Durma bem - ele murmurou, dando-lhe um beijo suave. - Tudo vai ser mais fcil amanh, Charlotte. S voc e eu. Vamos deixar o resto para trs, certo?
      - Certo.
      Ela suspirou e expeliu as ltimas fagulhas de sua tenso, fechou os olhos para bloquear outro fluxo de lgrimas tolas, e disse a si mesma que Damien estava
certo. Tudo seria mais fcil no dia seguinte.
      Tinha que ser mais fcil.
      Eles estavam casados.


      CAPTULO TREZE

      Charlotte lanou-lhe um olhar de incerteza.
      - Voc tem certeza de que o motorista sabe aonde est indo?
      Damien teria tido a mesma preocupao se no tivesse lido a matria sobre Ikal Del Mar, mencionado a estrada de acesso esburacada e a selva pr-histrica que
teriam que atravessar sem nenhum sinal de civilizao ao redor. Haviam deixado o aeroporto de Cancn 40 minutos antes, e o caminho at o destino final deveria levar
45.
      - Estamos quase chegando. - Ele deu-lhe um abrao reconfortante. -  um lugar bem isolado.
      O que era exatamente o que queria: ter Charlotte s para si, sem conhecidos surgindo por todos os lados, e nada para invadir a intimidade que a convivncia
de uma semana deveria criar entre os dois. O objetivo dessa lua-de-mel era deixar Charlotte relaxada na sua presena, com a esperana de que o aceitasse definitivamente
como marido.
      As lgrimas dela na noite de npcias haviam sido tocantes. Ele perdera todo o controle diante da lembrana de Freedman e agira como um touro irado, no como
o amante cuidadoso que pretendia ser. Servia pouco como consolo que ela tivesse respondido fisicamente  sua brutalidade. Ele sabia que a tinha levado ao clmax,
mas depois...
      Damien comprovara sua intuio. Para ele, os dois se saram muito bem juntos, e foi um choque quando percebeu que ela no sentia o mesmo. O choro silencioso,
o pedido suplicante antes de dormir... ele tinha que mudar sua atitude e no for-la a mais nada. O amor que Charlotte sentira por Freedman podia ter sido uma fantasia,
mas ainda assim fora real para ela por muito tempo, muito mais tempo do que quaisquer sentimentos que pudesse ter por ele.
      Tinha o tempo a seu lado agora, tempo para provar que a deciso do casamento havia sido acertada. De alguma forma, tinha que fazer Charlotte ver aquilo, e
acreditar naquilo com tanta firmeza quanto ele. Agora ela estava cumprindo o papel da esposa solcita, acompanhando-o nos planos que fizera, sempre pronta a agradar.
Mas Damien percebia que seu corao se refugiara em um lugar muito bem guardado, e encontrar o caminho at ele no ia ser fcil.
      - Olhe isso!
      Haviam chegado, e a exclamao de espanto de Charlotte deu a Damien uma pontada de satisfao. Ele escolhera o lugar por ela. Ikal Del Mar significava "Poema
do Mar" em maia, e ele contava com o clima de romance para que as barreiras emocionais dela cedessem s possibilidades de uma nova vida.
      Charlotte ficou encantada com a escolha de Damien para a lua-de-mel. Um resort no Caribe lhe sugerira a imagem de um ambiente povoado por turistas inquietos,
como a Gold Coast em Queensland: cassinos, praias, boates e restaurantes ao ar livre com um constante fluxo de pessoas de todas as nacionalidades.
      Este era um paraso tropical bastante privativo, protegido do resto do mundo, e as acomodaes limitavam-se a 29 villas separadas, no meio da selva, diante
do mar turquesa. Havia apenas um restaurante na propriedade, alm de um servio completo de spa.
      Damien logo marcou uma massagem para ambos, de modo que os efeitos da viagem desconfortvel fossem atenuados. Apesar disso, estar em harmonia com a ateno
que mostrara na viagem at aqui lhe dizia que a massagem seria mais propriamente uma preliminar para outra coisa que tinha em mente.
      Ele no a pressionara por sexo na manh aps o casamento, nem tomara liberdades fsicas com ela durante o vo. Uma vez que fizeram a viagem at o Mxico em
um jatinho particular, ela havia esperado uma atitude semelhante  da noite de npcias por parte dele, mas Damien a surpreendeu ao no requerer seus direitos como
marido, especialmente quando j dera mostras do que era capaz.
      Haviam jogado xadrez no avio. Ele era muito bom no jogo, e foi um passatempo desafiador, mantendo a mente dela ocupada para que no fosse vtima de medos
e dvidas quanto aos ltimos acontecimentos. Tambm ouvira dele algumas explicaes sobre seus negcios e atividades comerciais, voltados para desenvolvimento e
propriedade tecnolgica.
      Ela sabia que o pai dele possua uma rede de cassinos, mas aparentemente Damien preferia aplicar seus bens de maneira mais construtiva, no estilo do seu prprio
pai, e Charlotte, assim, podia se imaginar adequando-se ao mundo em que ele vivia. A ironia estava em que ela tentara escapar desse mesmo mundo na relao inconseqente
com Mark, mas talvez nunca houvesse acontecido de fato uma fuga. Era o mundo para o qual tinha nascido, ento, podia muito bem aceit-lo a partir do momento em que
se casara com um de seus membros.
      Era a esposa de Damien Wynter e percebia agora que ele estivera apenas lhe dando tempo, aguardando uma boa oportunidade para buscar mais prazer sexual com
ela. Enquanto conheciam a villa presidencial, que era exclusivamente deles por uma semana, ela estava bem consciente da intimidade que o lugar proporcionava.
      Nenhuma das outras villas podia ser vista de l. Construda com a madeira local, era contornada por jardins selvagens, de modo que mesmo aquela habitao de
dois andares estava oculta dos outros hspedes. E, se parecia primitiva vista de fora, o interior era belssimo e muito elegante. Decorado por um artista mexicano
em estilo minimalista, justificava suas cinco estrelas em cada detalhe.
      No trreo havia uma sala de jantar, uma sala de estar e um espaoso terrao com chaise-longues e uma rede tranada ao lado da piscina. Uma enorme cama de casal
dominava o quarto no segundo andar, de onde se tinha uma vista espetacular do mar da ilha de Cozumel. O banheiro de mrmore e madeira tinha closets para ele e para
ela. O p-direito alto dava uma sensao luxuriante do espao, e toda a villa contava com os confortos do ar condicionado.
      Era um lugar perfeito para uma lua-de-mel.
      Se eles estivessem apaixonados um pelo outro!
      Charlotte sentia uma pesada compresso no peito quando o recepcionista do hotel deixou a villa. Esquea o amor, disse a si mesma. O casamento poderia funcionar,
desde que no se esperasse o que no podia prover. E valia a pena pelos filhos que ela tanto queria!
      Damien fez um gesto indicando a piscina e perguntou:
      - Quer dar um mergulho antes de irmos conhecer o spa?
      - Sim. - Qualquer atividade era melhor do que ficar pensando sobre o que no se podia ter. - Vou pegar meu maio.
      A bagagem j estava no quarto quando ela cruzou o terrao para entrar. Charlotte estava pensando que talvez devesse desfazer as malas de uma vez.
      - Voc no precisa de um maio, Charlotte. S estamos ns dois aqui.
      Ela parou para pensar. De fato no tinha motivo algum trocar de roupa, exceto por nunca ter nadado nua antes. E isso deixaria seu corpo mais uma vez em contato
direto com o de Damien, sem qualquer proteo.
      Por que ele a havia feito sentir-se to fragilizada naquele momento ela no sabia. Estar nua com Mark nunca a preocupara. Talvez porque estivesse no comando
da relao. Havia uma enorme diferena entre um cachorrinho e um lobo.
      A noite de npcias deixara mais assuntos em aberto do que resolvidos entre os dois. E ela sentia que ele a estava desafiando a enfrent-los mais uma vez. Optara
por casar-se com aquele homem. De modo algum poderia deix-lo pensar que era uma criatura fraca ou medrosa demais para lidar com aquilo. Virou-se, exibindo um sorriso
para superar o momento de hesitao.
      - Tudo tem uma primeira vez.
      Ele j estava desabotoando a camisa, com uma expresso sombria que estivera direcionada s costas de Charlotte. Aquilo a deixou com algumas suspeitas. O que
ele teria feito se ela continuasse andando para buscar o maio? Mas, de todo modo, seu comentrio espantara as nuvens do olhar dele. Damien ergueu uma sobrancelha,
curioso e mais bem-humorado:
      - Uma primeira vez?
      Ela deu de ombros, tentando afastar a tenso por ter despertado os instintos primitivos dele com sua falta de aceitao imediata do que seria uma expectativa
razovel.
      - Eu nunca tive o hbito de nadar nua, mas voc est certo: temos uma piscina s para ns dois.
      O rosto dele, ento, relaxou em definitivo, feliz com a aquiescncia dela.
      - Voc vai gostar.
      Charlotte no pde tirar os olhos do corpo de Damien enquanto ele tirava a camisa. A pele dele brilhava ao sol. Uma pele muito pouco inglesa, ela pensou, mas
Damien era ingls somente por parte de pai. Contara que a me era espanhola, uma danarina profissional de flamenco que morrera de embolia logo aps seu nascimento.
Havia sido criado por babs e governantas at ser mandado para um colgio interno aos 7 anos de idade, sem nunca ter participado de uma verdadeira vida em famlia.
      Talvez a quisesse como esposa para satisfazer essa carncia. Era to belo que no teriam faltado mulheres dispostas a deitar-se com ele, mas talvez nenhuma
com tanta vontade de ter filhos. Mesmo assim, Charlotte se sentia to atrada por aquele sex-appeal quanto intimidada por ele, pensando na comparao desfavorvel
com outras mulheres com quem ele teria se relacionado. Era impossvel no se sentir inibida ao ficar nua perto daquele homem, porm tampouco podia demonstrar seu
constrangimento.
      Isso significaria que no se sentia boa o suficiente para ele.
      E ela era boa o suficiente. Mais do que o suficiente. O que importava sua aparncia?
      Damien a escolhera como esposa sem que sua fortuna fizesse parte da transao. Isso tinha que confirmar sua opo pelo que Charlotte era como indivduo, e,
ento, ela no possua motivos para no se sentir segura em sua presena.
      Ele jogou a camisa em uma chaise longue e sentou-se para tirar sapatos e meias. Charlotte forou-se a caminhar at uma outra e fazer o mesmo. Quando ele se
levantou para abrir o fecho do jeans, ela tambm comeou a remover suas roupas, com a resoluo de no ser despida por ele, dessa vez.
      Ficar nervosa naquele momento s tornava a situao mais difcil. O melhor era adotar uma atitude blas, ou ao menos simul-la. S porque ele era um prodgio
da natureza, e ela... um pouco menos privilegiada, por assim dizer, isso no era to importante. Estava feliz com seus dons, e era o que contava.
      Mas o corao de Charlotte batia descontrolado, e seus nervos j eram um emaranhado de ns, enquanto as mos, inseguras, se atrapalhavam com o zper do prprio
jeans, incapazes de executar uma ao to simples. Para seu enorme alvio, Damien no a estava observando, tendo ido diretamente para a piscina e saltado em um atltico
mergulho.
      - Venha logo, Charlotte. A gua est uma delcia - ele falou, para encoraj-la.
      Aps deixar a ltima pea de roupa na chaise longue, Charlotte puxou o ar, endireitou os ombros e caminhou com toda a dignidade at a beirada da piscina, olhando
Damien que estava chegando ao outro lado.
      O queixo dela, automaticamente, se ergueu quando ele se virou e percorreu seu corpo com um olhar, dos ps  cabea. Isso  o que voc queria; isso  o que
voc tem, ela telegrafou a Damien em silncio, resolvida a no depender da avaliao que ele faria de seu corpo  luz do dia.
      - Vamos, Charlotte! Pule!
      O vapor que enevoava a cabea dela se dispersou quando ela tocou a gua fria. Seu corpo sentiu uma carcia sedosa, morna, alm de uma deliciosa liberdade,
uma liberdade muito sexy, por no ter absolutamente nada entre a pele e a gua. Era um prazer to sensual que quando olhou para a outra extremidade da piscina j
estava feliz por estar nua, despreocupada com o que Damien poderia pensar dela.
      Ele tinha um convidativo sorriso nos lbios.
      - A gua no est tima?
      A prpria Charlotte deu um sorriso sincero.
      - Est. Maravilhosa.
      - Aposto que voc nunca mais vai querer usar maio.
      - Isso depende de onde estiver e com quem estiver.
      - Comigo voc pode ficar tranqila, Charlotte.
      A reafirmao enftica a levou a pensar se ele precisava da sua nudez para torn-la sexualmente mais acessvel, ou se, de fato, gostava da sua aparncia, que,
sem dvida, no seguia os padres correntes de beleza, mas tinha atrativos particulares.
      - Voc sempre gostou de mulheres corpulentas?
      - Corpulentas? - Ele olhou para ela com alguma surpresa.
      - Bem, eu no posso dizer que sou magra, e me recuso a dizer que sou gorda.
      Ele deu uma gargalhada.
      - Voc  perfeita, Charlotte. Para mim,  um modelo de mulher: ombros e braos perfeitamente contornados, lindos seios, sem costelas marcando a pele, quadris
que so um convite  luxria, uma barriga macia, pernas fortes para prender o homem no momento certo.
      - Pernas fortes para nadar, tambm. - Ela tomou impulso na parede da piscina e sentiu mais uma vez a gua, com a sensao de ter parecido ridcula ao ouvir
aquele catlogo de seus atributos, deixando-se por um momento ficar hipnotizada pela maneira como Damien se expressava, com admirao e desejo em doses iguais na
voz.
      Em um segundo ele estava ao lado dela. Deram algumas braadas juntos, com Charlotte cada vez mais afetada com a percepo do corpo dele, que no a tocava mas
estava muito, muito perto.
      No era uma piscina grande. No tinha sido construda para competio. Servia a atividades mais ociosas e sensuais, mergulhos noturnos, refrescar-se aps o
sexo, compartilhar com um amante o tipo diferente de meio, flutuar sob as estrelas. No havia razo para ela no relaxar e aproveitar o momento com Damien.
      Ele, certamente, esperava aproveit-lo, com ela,  sua maneira. E ela tambm queria toc-lo, senti-lo. Se apenas o fizesse, em vez de lamentar a ausncia de
amor entre os dois, em definitivo ganharia algo com aquele casamento, mesmo que em um plano estritamente fsico.
      Era o que sua mente lhe dizia.
      E, aps tal constatao, ela parou de nadar, pisou no fundo da piscina, afastou os cabelos do rosto e deu um sorriso confiante para o marido. Damien estava
a um metro, e sorriu de volta.
      - E, ento? - perguntou, sem mover-se para mais perto. - Vou aproveitar muito esta piscina enquanto estivermos aqui - acrescentou, com um ar casual.
      - timo!
      O sorriso dele alargou-se ao ponto de faz-la pensar se no estaria jogando um jogo em que acabara de marcar um gol. Mas e da? Ela tambm estava vencendo,
no estava?
      - Vou buscar as toalhas - ele falou, saindo da piscina.
      Charlotte estava surpresa de que ele no tivesse tentado nada com ela. Nem mesmo um toque! Assistiu-o sair da gua, fixando o olhar nos movimentos dos msculos
de suas costas, nas pernas longas e poderosas... to diferente de Mark! Melhor do que Mark. E era dela, na alegria e na tristeza. Mas no conseguia fazer o primeiro
movimento, convid-lo ou incit-lo a uma conexo sexual. Aquilo seria uma redeno, e ela no estava disposta a ceder. No para Damien Wynter!
      Ele enrolou uma toalha na cintura, o que significava que no iria tentar a nenhuma intimidade fsica agora. Charlotte procurou imaginar o que ele esperava,
ao pegar a toalha que Damien segurava para ela com um sorriso na beira da piscina, um sorriso que sugeria que ele sabia no que ela estava pensando, e aproveitava
para prolongar a expectativa pelo tempo que ele quisesse.
      Charlotte exasperou-se com aquele jogo de provocaes, mas no demonstrou. Se ele pensava que podia simplesmente atac-la a qualquer instante, de acordo com
sua vontade e seus instintos, estava muito enganado. Saiu da piscina, agradeceu pela toalha, enrolou-a no corpo e disse, com animao:
      - Vamos para a massagem agora?
      - Hummm... vamos. No ser preciso colocar roupas. Roupes e sandlias so suficientes para ir ao spa.
      Minutos depois estavam a caminho, Charlotte determinada a seguir com a mesma despreocupao de Damien, apesar da percepo da alta carga de energia sexual
entre ambos. No spa, foram levados ao quarto de massagens para casais                 e ficaram lado a lado, enquanto seus corpos eram banhados com leos aromticos
com extrema habilidade. Tambm era incrivelmente sexy compartilhar uma massagem, com todo o prazer e o relaxamento que ela proporcionava.
      No estavam se tocando, mas Charlotte no podia imaginar situao mais ertica, e sabia que tudo fazia parte do plano de Damien para deix-la cada vez mais
excitada. Um plano que estava funcionando. A lembrana de sua reao na noite de npcias ainda era uma presena constante entre os dois. Quando deixaram o spa, para
retornar  villa, o corpo dela ansiava por um prazer mais ardente e profundo.
      - Pronta para o almoo? - Damien perguntou, enquanto subiam as escadas.
      O corao de Charlotte instantaneamente disparou. Sua mente guinchava de protesto contra as prprias inibies e resistncias. Em uma exploso de revolta,
virou-se para ele com uma expresso vida:
      -  isso o que voc quer, Damien?
      - Eu s quero agradar a voc, Charlotte - ele respondeu, mantendo a pose gentil e provocativa, o que a fez perder todo resqucio de distanciamento.
      - Voc pode me agradar me engravidando. Foi para isso que me casei com voc.
      A fasca que pairava nos olhos dele transformou-se em uma impiedosa observao:
      - Ento talvez devesse demonstrar mais vontade em partir comigo para essa tarefa.
      A compreenso do pleno significado do que ele dissera deixou-a perdida por um instante.
      - Eu pensei que voc era do tipo que gosta de tomar, no receber, Damien - disse, em meio a um acesso de culpa pela prpria postura nos ltimos dias.
      Ele tocou-lhe o rosto enquanto seu olhar escarnecia do pedido que ela fizera.
      - Tambm sou do tipo que gosta de oferecer, Charlotte. E lhe darei o tempo necessrio para que esquea Freedman e comece a me querer. Ter uma parceira indiferente
realmente no me agrada.
      A acusao de indiferena doeu, fazendo-a pensar em como estivera envolvida com uma negatividade egosta desde que optara pelo casamento com Damien. Mas tambm
doeu a afirmao de que estivesse pensando em Mark, que perdera qualquer espao depois daquela manh no escritrio do advogado. Para seu prprio bem, e auto-estima,
ambas as acusaes tinham que ser invalidadas.
      - Esquea o que passou - disse por entre os dentes cerrados. - Eu quero voc agora!
      Agarrou-o pelo roupo enquanto ainda subiam as escadas. Assim que chegaram ao quarto, lanou-se sobre ele, passando as mos por seus ombros e braos quando
ele se despia.
      - Quer mais vontade do que isso? - perguntou com ferocidade.
      - Digamos que voc est indo bem at agora - Damien respondeu. - Mas apenas tirar seu prprio roupo ser ainda mais provocante.
      - Feito! - ela reagiu imediatamente, e ento ps as mos no pescoo dele e passou a faz-lo sentir o calor do seu corpo.
      - E o que acha disso?
      - Definitivamente sedutor - ele assentiu, com os olhos brilhando de satisfao.
      - Mas voc tem o que eu quero? - ela escarneceu, sentindo os msculos dele em toda a sua potncia, como prova irrefutvel de que o tinha deixado em brasa.
      - Venha buscar - murmurou Damien, aproximando os lbios da boca de Charlotte e logo recuando na provocante simulao de um beijo.
      Isso a levou a expor a prpria lngua para forar a entrada e sug-lo, possuda pelo desejo. O que levou a ao a comear de fato. De repente, as mos dele
estavam nas costas dela, exigindo um contato mais direto de seus corpos, ambos partes ativas de um mesma paixo.
      Ele a conduziu com as coxas duras como rochas at a cama. Deitaram-se juntos, as peles ainda brilhando com os leos aromticos, fazendo com que deslizassem
sensualmente, sentindo tudo o que havia para sentir, com mos, pernas e bocas empenhadas somente no aumento do prazer.
      Com toda a vontade que j fora capaz de reunir na vida, ela queria senti-lo, e margeou o abismo da loucura enquanto ele lhe cobria de carcias. Envolveu-o
com as pernas, abandonando-se to completamente que nada mais existia para ela. Todos os seus movimentos respondiam  poderosa cadncia de Damien, que em sua lentido
lasciva causava a nsia de uma repetio eterna e incessante dos mesmos toques. Charlotte no pensou em amor por nenhum segundo. Estava consumida pelas sensaes,
que prometiam lev-la a alturas inacreditveis.
      Ele era fantstico!
      E levou-a ao xtase.
      Quando Charlotte, enfim, sentiu-se novamente na cama, aps um vo de olhos fechados em cu aberto, no pde negar-se o prazer de ser abraada por ele, mesmo
que isso indicasse apenas intimidade sexual. A verdade  que era bom. Muito bom! Pele contra pele, maciez contra fora muscular, coraes batendo em unssono contentamento.
Ela poderia viver assim com Damien Wynter.
      Sorriu para ele ao brincar com os cabelos do seu peito e disse:
      - Agora voc admite que eu tenha vontades, no?
      E alm de tudo, quanto mais fizessem sexo, maiores eram as chances de engravidar.
      Ele no se rendeu, mas manteve o bom humor.
      - Vou prosseguir com os testes, Charlotte.
      - No tem problema. Eu sempre fui muito boa em testes.
      Ele girou sobre a cama, pegou uma das pernas dela e comeou a massagear-lhe os ps. Para surpresa de Charlotte, um raio de uma estranha comoo fsica foi
direto at a base de suas coxas, espalhando a sensao pela barriga at os mamilos, que responderam de imediato, erigindo-se como duas torres fortificadas.
      - Ah! - ela gritou, sentando-se na cama em um s impulso.
      - Isso  uma reao positiva? - ele perguntou, com uma dvida dissimulada.
      Ela sussurrou, em meio a uma respirao ofegante e um olhar perdido:
      - No pare. Por favor, no pare. - E deitou-se novamente, decidida a aproveitar cada dcimo das habilidades de Damien como amante. Mesmo que ele terminasse
por ser um marido imprestvel, ela teria uma maravilhosa lua-de-mel para recordar.


      CAPTULO CATORZE

      Poema do Mar...
      Se da poesia se espera que atinja todos os sentidos, Ikal Del Mar cumpria essa promessa  perfeio. Na ltima manh da lua-de-mel, Charlotte pensava com alegria
no tempo que ali haviam permanecido, enquanto olhava o reluzente mar do Caribe e esperava que Damien acordasse. No conseguia se lembrar de ter passado antes uma
semana mais agradvel.
      O sexo com Damien Wynter logo se tornou um hbito. Ele no apenas era um amante completo, como tambm a fazia sentir-se to desejada e desejvel que pela primeira
vez na vida Charlotte estava adorando ser mulher. E era impossvel negar a luxria que ele despertava, a paixo selvagem que sempre entrava em ao quando faziam
amor.
      Amor fsico!
      Ela se recusava a pensar em algo alm disso, embora tivesse de admitir que gostava da companhia de Damien, tendo compartilhado com ele muitos outros pequenos
prazeres naquele lugar. A comida era fabulosa, toda refeio uma deliciosa aventura pela cozinha mediterrnea, com toques de influncia mexicana. Ela j estava pensando
nos croissants frescos e no bolo de damasco que o chef teria feito para o caf-da-manh. O ltimo, ela pensou, com alguma melancolia, diante da iminncia da partida.
      Sentia-se relaxada, mimada e cercada de cuidados. O banho em Temazcal, na praia, no dia anterior, havia sido um fantstico preldio para a ltima noite. O
blsamo suave de ervas e flores deixara sua pele brilhando e com um leve perfume permanente. Estivera consciente de seu corpo durante todo o jantar, uma maravilhosa
paella acompanhada por um vinho espanhol encorpado, e, ento, depois... sem dvida, Damien era um amante completo.
      Ele abraou Charlotte pela cintura e deu-lhe um beijo no ombro.
      - Est acordada?
      Ela sorriu ainda olhando para o mar.
      - Mais uma bela manh. Vou ter saudades de acordar e contemplar essa vista.
      Ele se encostou na parede, com uma expresso acariciante nos olhos voltados para o corpo de Charlotte.
      - Estou feliz de que voc tenha gostado.
      - Eu estava mesmo pensando no quanto esta semana foi boa.
      - Tambm adorei estar com voc estes dias - ele disse, querendo que ela admitisse o quanto o fato de estarem juntos proporcionara aquele bem-estar.
      - Hummmm... , voc deu sua contribuio ao meu prazer. - Charlotte no queria inflar demais o ego de Damien.
      Ele deu uma risada, j feliz com aquela concesso.
      - Falando em prazer, vou lev-la a Las Vegas por uns dias.
      - Las Vegas? - Ela estranhou a escolha. - Voc gosta tanto de jogar assim, Damien?
      - Tanto quanto voc, Charlotte.
      - No sou assim! Nunca estive em um cassino.
      - Ento ser uma experincia nova.
      Charlotte no estava muito segura de que gostaria de ir, mas no falou nada, lembrando-se de que o pai dele tinha cassinos entre seus negcios. E, se o jogo
viesse a ser um problema naquele casamento, era bom saber logo, para que ela soubesse com o que estava lidando.
      Ele percorreu os lbios de Charlotte com o dedo em um movimento suave.
      - Nosso casamento foi uma aposta - ele a fez recordar.
      - Como voc se sente em relao a isso agora?
      Ela mordeu a ponta do dedo dele, como que para dar o aviso de que tinha dentes fortes e afiados.
      - Mas eu no apostei no escuro. Agi de acordo com as probabilidades. Voc tem um cdigo gentico admirvel e espero que eles sejam herdados por meus filhos.
      - Admirvel, ? - Os olhos dele exultavam. - E foi por essa razo que voc tomou emprstimos do meu banco de esperma durante toda a semana?
      -  o que chamamos de estratgia intensiva de arrecadao de fundos. - Puxou-lhe a cabea em direo  sua.
      -  preciso aproveitar ao mximo a hora em que o mercado est em alta.
      - Hummm... - Ele exibiu um sorriso malicioso. -No me parece que ele estar em queda to cedo.
      - Obrigada por ser to compreensivo com as necessidades de nossa empresa - ela disse, movendo-se para cima dele.
      - O prazer  todo meu - Damien murmurou. E no disseram mais nada por um bom tempo.
      Chegaram a Las Vegas  noite. Uma limusine foi busc-los no aeroporto. Damien havia feito reservas no Hotel Bellagio, do qual Charlotte nunca tinha ouvido
falar. Ela sabia que o pai se hospedava no Mirage quando queria fazer grandes apostas em uma mesa de pquer, mas, fora isso, tinha apenas um conhecimento televisivo
da cidade luminosa e de seus muitos cassinos temticos: Treasure Island, New York, New York, MGM, Egypt, Paris, Venice...
      Damien apontava para essas fantasias arquitetnicas alucinantes enquanto percorriam a cidade. Charlotte resolveu que aproveitaria a viagem fazendo caminhadas
e passeios tursticos. Tudo parecia to colorido e extravagante! Seu olhar localizou uma pequena multido em uma.calada enquanto Damien dizia:
      - J estamos chegando ao hotel.
      -  onde esto aquelas pessoas?
      - Sim.
      - E o que elas esto olhando?
      Estavam todas de costas para a rua, esticando os pescoos para ver algo.
      A primeira viso que Charlotte teve do hotel a deixou maravilhada. Colunas romanas brancas contornavam todo o edifcio. A entrada principal era sobre um grande
lago, e enquanto a limusine se aproximava uma longa fileira de fontes exibiu suas plumas de gua e espuma, para logo em seguida ser substituda por outra fileira
no ritmo exato da msica Big Spender. Era uma coisa to fascinante que Charlotte logo entendeu por que aquelas pessoas estavam reunidas ali na rua.
      - As fontes danantes do Bellagio so bem famosas - disse Damien, contente com a surpresa de Charlotte.
      - Com que freqncia esse espetculo  mostrado? - ela perguntou.
      - Acho que a cada hora. Ou, talvez, a cada duas. No me lembro bem, mas tenho certeza de que  o suficiente para que possamos v-las de novo. Jantaremos no
restaurante com vista para o lago, se voc quiser.
      - Sim, por favor - ela disse, com tanto entusiasmo que ele pegou-lhe a mo, o que a fez perceber como j adorava aquele toque. Seria perigoso ficar muito dependente
dele, Charlotte pensou. Ela no se imaginara to conectada a Damien.
      Efeitos da lua-de-mel, disse a si mesma. Tudo seria diferente quando voltassem  vida real. Damien se envolveria com seus negcios e ela estaria ocupada em
organizar a casa de uma famlia. A sensao de proximidade no duraria muito, e ela no devia esperar que durasse. Casar-se com Damien Wynter havia sido uma deciso
pragmtica de sua parte, com o propsito de ter filhos, e era mais inteligente manter o pragmatismo, sem alimentar iluses sentimentais.
      - Quantas vezes voc esteve aqui? - ela perguntou, imaginando as viagens que ele j fizera pelo mundo.
      - Fiquei no Bellagio uma vez. Conheo a maioria dos cassinos em Vegas, e tambm os principais da Europa e da sia. Meu pai esperava que eu participasse do
negcio com ele. Mas nessas visitas entendi que  um mundo para o qual no tenho muita inclinao profissional. Prefiro fazer as coisas acontecerem, ver algo crescer,
desenvolver-se.
      - Como uma famlia - Charlotte soltou, antes que pudesse bloquear as prprias palavras, repletas de esperana de que ele realmente compartilharia uma vida
com ela e com os filhos. O medo tomou-lhe o corao. Ela estava comeando a esperar muito de Damien.
      Com se sentisse o surgimento daqueles temores, ele segurou-lhe as mos com firmeza:
      - No vou decepcionar voc, Charlotte.
      Uma determinao incondicional ressoava em sua voz, o que fez com que o corao dela galopasse com mais esperana ainda. Talvez pudesse confiar em Damien,
acreditar que ele seria tudo o que ela esperava de um marido. Ele havia mantido sua palavra em todas as circunstncias, at agora.
      A limusine chegara ao destino e o chofer estava abrindo a porta. Desconcertada com a expectativa que passara a demonstrar, e mais ainda com a que passara a
mostrar, Charlotte logo puxou a mo, virou-se e quase saltou do carro. Damien saiu tambm, e um tapete vermelho foi estendido para receb-los pelo gerente do hotel.
      -  um prazer t-lo conosco mais uma vez, sr. Wynter. Sra. Wynter, seja bem-vinda ao Bellagio.
      Foram conduzidos para o interior do hotel e receberam tantas atenes que qualquer um pensaria que eram um casal clebre. Este  o mundo dos muito, muito ricos,
Charlotte pensou, percebendo que a vida com Damien seria sempre assim. Haviam ficado relativamente annimos em Ikal Del Mar, mas aquela havia sido uma ocasio nica.
E, apesar de saber que qualquer relao normal com outras pessoas seria impossvel para aqueles multibilionrios, Charlotte sabia tambm que todo o resto era possvel
para eles.
      - O concierge separou bilhetes para os shows que podem interessar a vocs e eu garanti lugares especiais no Fontana Room para esta noite - o gerente informou.
      - Que shows? - Charlotte perguntou a Damien, quando ficaram a ss na luxuosa sute.
      - Celine Dion, Cirque du Soleil... e o que mais voc quiser assistir. Falaremos com o concierge amanh de manh. - Ele sorriu. - Vegas oferece todo tipo de
atraes da mais alta qualidade.
      No apenas cassinos, portanto.
      No sorriso de Charlotte havia um trao de alvio.
      - Ento me diga o que haver no Fontana Room.
      Damien no queria estragar a surpresa desse evento em particular.
      - Voc vai ver - respondeu, de maneira instigante. -  um teste para ver o quanto voc pode resistir a uma espera.
      Ela ps uma das mos nos quadris em um gesto irnico.
      - Sou bem capaz de esperar por dcadas. Desde que valha a pena.
      Ele simulou preocupao.
      - Estou ouvindo um tom de ameaa em algum lugar?
      - Fique me provocando que voc vai ver. Ele deu uma risada, e abraou Charlotte.
      -  s daqui a algumas horas. At l podemos encontrar alguma outra distrao.
      Eles encontraram.
      De fato, no havia nada na personalidade de Charlotte que Damien gostaria de mudar. Ele nunca gostara tanto da companhia de outra mulher. Ela gostava da companhia
dele tambm, principalmente agora que estava mais relaxada ao seu lado. A atitude mais reservada que ocasionalmente tomava era devido ao medo de estar acreditando
no sonho de uma felicidade irrealizvel. O que era compreensvel, por causa de como sua relao com Mark Freedman chegara ao fim.
      Damien entendia isso, mas odiava sentir que no tinha toda a confiana de Charlotte. Queria faz-la perceber o quanto eram parceiros. Em todos os nveis. Havia
reconhecido essa possibilidade desde o comeo. J Charlotte tentara recus-la na noite de Ano-Novo no iate... e agora precisa senti-la, admitir aquele fato para
si mesma.
      Ela conteve a curiosidade at que estivessem no elevador do Fontana Room.
      - Espero que seja uma boa surpresa - disse, olhando-o de soslaio.
      - Tambm espero.
      Ela deu um suspiro profundo, reconhecendo, enfim, a prpria impacincia, e recostou-se nele enquanto o elevador descia. Isso o deixou mais aliviado quanto
 cumplicidade necessria para que ela aceitasse a proposta daquela noite, apesar de suas ressalvas ao tipo de jogo que campeava nos cassinos.
      - A final do Campeonato Mundial de Pquer est acontecendo aqui - Damien comentou. - Como voc mesma  uma jogadora sensacional, pensei que gostaria de ver
profissionais em ao.
      Os olhos dela faiscaram de expectativa.
      - A final do campeonato? Ele sorriu.
      - Os melhores entre os melhores.
      - E ns vamos ver isso?
      - Nos melhores lugares.
      - Ah! - Ela esfregou as mos com alegria. - Vou adorar!
      A alegria estampou-se no rosto de Damien. Isso era algo que Freedman realmente nunca pensaria em proporcionar a ela. Aquele manipulador cheio de truques no
a conhecia, e no viria a conhecer jamais. Nunca iria apreciar as observaes mordazes daquela inteligncia arguta, que funcionava no mesmo tipo de velocidade da
de Damien, rpida, incisiva e em constante atividade.
      Era uma noite especial, mesmo para o Fontana Room. A postura dos jogadores, suas caractersticas particulares, tudo conferia mais brilho ao jogo, com suas
incrveis apostas, blefes que exigiam nervos de ao, a tenso quando as decises estavam por ser tomadas e, em questo de segundos, enormes quantias eram ganhas
e perdidas, para a sempre crescente excitao dos espectadores.
      A ateno e as emoes de Charlotte foram completamente capturadas pelos dramticos movimentos das partidas, acompanhando os picos de intensidade e as surpresas
de cada movimento, abismada com a inacreditvel audcia de alguns jogadores. Ela expressava tudo o que estava sentindo, compartilhando a experincia com ele, sabendo
que ele entendia o que estava acontecendo  sua frente e era tambm capaz de admirar-se.
      Ela ainda estava imersa no impacto da ltima jogada quando tomaram o elevador de volta  sute.
      - No acredito que ele foi at o fim com um par de setes!
      -  mesmo muita coragem - ele assentiu com a cabea, igualmente espantado com o desfecho da partida.
      - Coragem?  loucura!
      - Mas voc sabe que ele estava jogando de acordo com a psicologia do adversrio. As atitudes dele durante a noite indicavam que estava blefando.
      - Sim, eu sei, Damien! Mas um par de setes!  muita audcia!
      As portas do elevador se abriram, e ao sarem ele passou a mo por sob a abertura nas costas do vestido de Charlotte.
      - Voc tambm est muito audacioso para o meu gosto - ela advertiu, mas sem demonstrar verdadeira ofensa com o gesto.
      -  mesmo? Ainda nem comecei - ele respondeu, passando com agilidade o carto para abrir a porta da sute.
      - Voc deve ser o homem mais provocante que j conheci! Em todos os aspectos!
      Os olhos dela flertavam com os dele, a excitao da noite ainda tremulando em sua voz... sem reservas nas palavras, sem reservas nos gestos. Exultante por
ter alcanado esse efeito, Damien estava ardendo de desejo ao entrar na sute, fechando a porta rapidamente e jogando Charlotte na cama, deitando-se ao seu lado,
sorrindo ao dizer:
      - Nunca mais despreze um par. Dois  definitivamente o nmero perfeito. Voc e eu, Charlotte.
      Ela ergueu as sobrancelhas em sinal de desafio.
      - Voc no est blefando comigo, Damien?
      - No. Isso  tudo o que eu tenho e tudo o que quero ter nas mos.
      E a partir da ele comeou uma verdadeira celebrao fsica de seus sentimentos. Estivera s por tanto tempo... Primeiro, como uma criana deixada aos cuidados
de babs; depois, como um adolescente sobrevivendo aos rigores de um colgio interno; e, enfim, como um homem procurando um lugar no mundo em que se sentisse em
casa.
      Mas nunca estaria em casa se no tivesse encontrado Charlotte. Ele sabia disso, na mente, no corao na alma. Acima de tudo, queria o que ela queria: uma famlia,
uma sensao de pertencimento a algo maior e mais profundo, que tornaria sua vida muito mais plena de sentido do que uma peregrinao incerta e solitria pelo mundo.
      Damien estava certo de estar muito mais prximo disso aquela noite.
      Havia acabado de dar um grande passo.


      CAPITULO QUINZE

      O primeiro ms de Charlotte em Londres foi um turbilho de atividades: estabelecer-se na casa de Damien, que ficava muito bem situada em Knightsbridge, especialmente
por estar prxima  Harrods; comprar roupas apropriadas ao inverno ingls; conhecer os amigos de Damien e ser introduzida em seu crculo social; ir ao teatro; jantar
fora...
      Era tudo novo, e ela apreciou cada detalhe. Damien no a afastou de seus negcios. Compartilhava cada projeto, pedia sua opinio, discutia planos e estratgias,
escutando o ponto de vista de Charlotte com real interesse.
      Ela no havia esperado ser feliz no casamento, mas era. No podia negar. Mais do que fora feliz no relacionamento com Mark. Rememorando-o agora, parecia ser
um relacionamento apenas confortvel, com Mark sempre se esforando para que nada sasse dos trilhos. J cada momento com Damien continha uma vibrao prpria.
      Ele dissera que formavam um grande casal e ela estava comeando a acreditar nisso, tanto na cama como fora dela. Mas ainda era cedo. Damien estava indo bem
em provar que podia ser um bom marido, mas restava ver como se sairia como pai. Um beb iria modificar bastante o tipo de vida que levavam agora.
      Em primeiro lugar, porque a espontaneidade sexual no seria a mesma diante dos cuidados e atenes que um filho recm-nascido exige. E Damien podia no gostar
de ter de moderar seu apetite. O tempo que gastava com ela agora poderia ser substitudo por desculpas para estar fora, concentrando-se mais em seus projetos, justamente
como o pai de Charlotte.
      Ela no conseguia acreditar em qualquer felicidade permanente com Damien. No entanto, quando o teste de gravidez confirmou suas suspeitas, no pde conter
a alegria: saiu do banheiro e mergulhou na cama, sacudindo o ombro de Damien para dar-lhe a notcia:
      - Adivinha!
      Era ainda manh, cedo. Ela mal dormira  noite, com a expectativa de estar certa em suas suspeitas. Despertado de modo to abrupto de seu sono, Damien aos
poucos compreendeu o significado da pergunta em sua mente enevoada.
      - O qu?
      - Estou grvida!
      Aquilo, definitivamente, capturou a ateno dele. Os dois olhos se abriram por completo, mas logo em seguida Damien deixou escapar:
      - J?
      No era a reao que ela esperava. O corao de Charlotte, que flutuava de felicidade, de repente era um balo se esvaziando. Antes que pudesse controlar suas
palavras, fez Damien recordar os termos originais do acordo de ambos:
      - Foi para isso que me casei com voc.
      Aquilo soava vil, mesmo para seus prprios ouvidos. Era uma afirmao mesquinha. Eles haviam construdo um relacionamento que merecia respeito. Ela sentiu-se
terrivelmente culpada ao ver o rosto de Damien contrair-se como que ao sentir um gosto amargo. Um ressentimento sombrio pairou sobre seus olhos.
      - Fico feliz de ter cumprido minha parte, Charlotte. Isso estava muito errado! Ela comeou a entrar em pnico.
      No queria perder a maravilhosa sensao de intimidade que crescera entre ambos, o entendimento fcil, o prazer da vida a dois.
      - Me desculpe - ela falou, afinal. - Voc no  s um cdigo gentico para mim, Damien. Eu gosto de ser sua esposa... sua parceira...
      - Mas no tanto quanto quer ter um filho - ele disse, com irnica resignao que de alguma forma aumentava o sentimento de culpa de Charlotte, fazendo-a sentir-se
injusta.
      Ela ficou em silncio um momento, sem saber como consertar o estrago, com os olhos implorando por pacincia enquanto tentava articular os sentimentos variados
e contraditrios que de repente emergiram.
      - Est tudo bem - disse Damien, percebendo a confuso mental de Charlotte e inclinando-se para ela. - Tudo bem. - Acariciou-lhe o rosto. - Vamos ter um lindo
beb.
      - Vamos - ela soltou uma s palavra, afogada naquela enchente de emoes.
      Mas no estava tudo bem para ele. Logo em seguida Damien recomeou a falar:
      - Parece que somos mais frteis do que eu pensava. No tinha imaginado que ia acontecer to rpido. Passaram s dois meses.  verdade que tentamos muitas vezes...
      - , tentamos - ela confirmou, aliviada com o toque de humor. E era verdade. Ningum deveria estar surpreso, por isso. Mas era tambm verdade que, se houvesse
dado a notcia em outro momento, e de modo menos intenso, Damien talvez estivesse mais... preparado.
      O corao de Charlotte se contraiu mais uma vez.
      Ele no compartilhava sua alegria espontnea com a gravidez. Estava apenas aceitando o inevitvel, e escondendo seus sentimentos verdadeiros. Mas j no podia
recuar e mudar a primeira reao.
      - Ento - ele claramente tentava manter uma atitude positiva - quer dizer que vou ser pai...
      Charlotte tentou relaxar. Ela tambm devia seguir adiante. Em um movimento de reaproximao, tocou-lhe o rosto, dizendo:
      - Espero que voc seja um bom pai, Damien.
      - Este  o maior desafio de todos - ele replicou. - Mas, no se preocupe, pretendo ser um pai admirvel.
      Ela sorriu, pensando que, se havia algum desafio a ser enfrentado, Damien Wynter era o homem para tal funo.
      - E voc ser uma me sensacional - ele disse, inclinando-se para beij-la.
      Ela beijou-o de volta. Sentiu ento o toque de uma das mos dele em sua pele, acariciando-lhe o seio, e, ento, mais embaixo, sobre o tero, onde uma vida
acabara de comear. Com isso sentiu uma nova emoo. No sabia se ela surgira do conforto que ele era capaz de lhe proporcionar, ou da sensao de que desde j seu
filho estava protegido por um pai forte e atencioso.
      Ento, fizeram amor.
      E no foi como antes.
      Foi diferente.
      O amor que Charlotte instintivamente j sentia pelo beb fluiu na direo de Damien, e parecia retornar, na mesma medida.
      Estava tudo bem, ela pensou logo em seguida.
      Os dois, juntos, iriam fazer com que estivesse.
      As semanas seguintes passaram rapidamente. A gravidez foi confirmada por um mdico, e ela escutou com seriedade os conselhos e as instrues para cuidar-se.
Telefonou para a me, para dar a notcia. Damien providenciou um jantar com o pai, que pareceu feliz com a idia de tornar-se av. O pai de Charlotte telefonou de
volta, para dar os parabns, realmente eufrico com a chegada de uma nova gerao na famlia. Peter foi at Londres, levando presentes para o enxoval do beb.
      Charlotte estava feliz.
      At que acordou uma noite sentido um mal-estar. Seu primeiro pensamento foi o de ter comido algo que no lhe fizera bem, mas ao chegar ao banheiro j teve
que enfrentar outra possibilidade. Estava sangrando.
      Ficou aterrorizada e sem ao. O que poderia fazer, ou deveria fazer, diante do que estava acontecendo?
      Por toda a vida tivera o orgulho de ser capaz de lidar com quaisquer circunstncias difceis, mas agora esta... com esta no podia lidar sozinha.
      Gritou chamando Damien. Ele era o guardio, protetor. No podia deixar que nada acontecesse com ela.
      Ele foi at o banheiro, entendeu o motivo do pnico de Charlotte, telefonou para o mdico, levou-a ao carro e dirigiu at o hospital.
      Ela estava aprisionada em um pesadelo. Suas mos estiveram o tempo todo entrelaadas sobre a barriga, como que desesperadamente tentando assegurar-se da segurana
do beb. Damien no parou de falar com ela, tentando acalm-la, mas Charlotte no conseguia se concentrar em suas palavras. A mente dela apenas se ocupava de repetir
"Eu no posso perd-lo, eu no vou perd-lo".
      Mas toda a fora de vontade que reunira para enfrentar a crise no foi suficiente para evitar o desfecho trgico.
      O beb foi perdido.
      E Charlotte perdeu toda a capacidade de ver um sentido na vida.
      O pior momento de todos foi o de ouvir do mdico que a natureza havia seguido seu prprio curso e nada pudera ser feito para modific-lo. Acontecera algo que
estava fora do controle da medicina.
      Em meio  angstia de Charlotte surgiu o pensamento: "Isto  uma punio. Porque eu me casei pelo motivo errado. E agora no posso ter justamente o que foi
ento meu objetivo."
      Ela fechou os olhos e ficou quieta, consumida por sentimentos torturantes que emergiam de seu tero vazio. O mdico disse mais algumas palavras a Damien, que
permanecia sentado ao lado da cama do hospital, segurando a mo dela para mostrar que ainda estava ali.
      - Sinto muito, Charlotte - ele murmurou.
      E ela sentiu dio daquilo. dio! Sua mo, instintivamente, se recolheu, rejeitando todo consolo que viesse dele.
      - No, voc no sente. Isso nunca teve a mesma importncia para voc.
      Ele deu um suspiro profundo antes de responder:
      - O filho era tanto meu quanto seu.
      Os olhos dela eram como duas lanas afiadas pela acusao.
      - Mas voc no o queria. No to cedo. S pode estar aliviado com o que aconteceu.
      - Aliviado? Que tipo de homem voc acha que eu sou, Charlotte?
      - O tipo que quer tudo do seu prprio jeito, no seu prprio tempo - ela retrucou, tentando, de algum modo, dividir a culpa que sentia por querer muito a criana,
colocando-a antes de tudo, sem dar ateno a mais nada. - Ter um filho em casa agora no estava nos seus planos, Damien, ento no finja o contrrio.
      As lgrimas que estiveram congeladas dentro dela de repente jorraram, sem obstculos, deixando-a  merc de suas emoes mais intensas. Ele no entendia o
que ela estava sentindo. No entendia. Ento, Charlotte deu-lhe as costas, encolhendo-se para chorar sozinha sua perda, com todo o corpo em violentos espasmos que
eram impossveis de conter.

      Damien estava de p, sentindo urgente necessidade de fazer algo, seu corao batendo em indignado protesto com o que estava acontecendo. Queria tomar Charlotte
nos braos e abra-la com fora at que cessasse aquele tormento, mas ela iria resistir. Impor-se  fora no adiantaria nada, no naquelas circunstncias. Poderia,
inclusive, aumentar a rejeio que ela estava sentindo.
      E o pior de tudo  que ele estava consternado com os fatos. Era verdade que no recebera bem a notcia da gravidez, mas no porque no quisesse a criana.
Queria apenas ter ainda mais tempo com Charlotte. Apenas os dois. A lua-de-mel tinha sido to boa, os melhores dias ide sua vida. E ela gostara de estar com ele,
tambm. At ento tudo correra  perfeio. Ele no podia, e no iria, deixar aquela conquista se perder.
      Muito angustiado para ficar quieto, Damien caminhou pelo quarto do hospital, com a mente empenhada em encontrar uma soluo para o problema. Mas e ento? Charlotte
se casara com ele para ter filhos. Aquela havia sido a motivao principal, abertamente expressada, e vrias vezes reiterada, desde as npcias. Ela no se desviara
desse propsito, apesar de terem compartilhado tanto mais!
      Estivera to radiante desde que a gravidez fora confirmada. Ter aquela alegria interrompida, e daquele modo... o que ele poderia fazer para que ela superasse
a dor? Damien no suportava v-la sofrendo. Se ela apenas lhe desse uma chance... mas no daria. Estava inacessvel para ele, fechada em si mesma.
      Ele tinha que encontrar uma entrada... uma entrada para a alma, para o corao dela.
      Ela queria ser me.
      Tornar-se sua mulher havia sido o meio mais prtico de alcanar aquele objetivo.
      Se ele queria mant-la como sua esposa, preservar tudo o que construra juntos, tinha de corresponder quele anseio. Agora! Antes que a perda da criana viesse
a ser muito destrutiva para o casamento.
      Uma idia surgiu da atividade frentica de sua mente. Damien se agarrou a ela como um nufrago a uma possibilidade de se salvar. Sem pensar duas vezes, agiu,
pegando a cadeira onde estivera sentado, levando-a at o outro lado da cama e sentando-se onde Charlotte poderia v-lo assim que abrisse os olhos.
      O pranto aterrorizado dela estava cessando. Parecia totalmente entregue, como se sua prpria vida lhe houvesse sido tirada. Por um instante, Damien pensou
se ele significava algo para ela. Mas recusava-se a aceitar que no tinha provocado nenhum impacto em seu esprito. Charlotte era sua alma gmea. Com o tempo, ela
perceberia isso tambm. Ele devia apenas ter algo positivo a dizer.
      - Charlotte, por favor... escute-me.
      A mente dela estava sem foras. Seu corpo, tambm. No tinha energia suficiente nem mesmo para falar. Era uma massa inerte, de fato somente capaz de ouvir,
embora em sua exausto quisesse que Damien fosse embora e a deixasse s.
      - No posso lhe dar de volta o que voc perdeu, o que ns perdemos, hoje - disse com tristeza. - Est feito.
      Sim, estava. Tambm para ele.
      A infelicidade em sua voz atingiu a conscincia dela. No deveria t-lo usado para descarregar sua prpria revolta. No era culpa de Damien que tivesse perdido
o beb. Ele fizera tudo o que estava ao seu alcance. E mantivera uma postura otimista diante da gravidez, aps a primeira reao.
      - Me desculpe - ela falou, descerrando os olhos o suficiente para expressar seu arrependimento.
      Ele balanou a cabea, desolado.
      - Charlotte, voc tomou todos os cuidados. No culpe a si mesma. O mdico disse que abortos naturais no so incomuns na primeira gravidez em mulheres de mais
de 30 anos, mas normalmente na segunda tentativa tudo sai bem.
      Ela no acreditou estar ouvindo aquilo.
      A punio no era por ter desejado muito o beb, mas por ter passado dos 30, por comear tarde. Deu um suspiro para aliviar o aperto no peito e tentou novamente
conter o mpeto de negar a ele qualquer sentimento de perda.
      - Sei que voc queria a criana tambm, Damien. Eu no devia ter dito... o que disse.
      - No se preocupe com isso - ele dispensou de imediato. - Mas eu quero mesmo ter filhos com voc. E estive pensando...
      Tomou-lhe a mo novamente, tentando reaproximar-se dela. Charlotte aceitou seu gesto, registrando vagamente que aquele toque parecia ter perdido seu antigo
poder, incapaz de gerar qualquer sensao de intimidade. Ou, talvez, ela estivesse incapacidade de esboar qualquer reao.
      - Ns no temos que esperar - ele prosseguiu com seriedade. - Podemos adotar um rfo. Eu conheo um orfanato na frica. H muitas crianas, bebs, tambm,
que perderam os pais por causa dos problemas que existem naquele continente...
      As palavras foram saindo, explicando a situao, assegurando que seria algo bom a fazer, que ele estaria com ela o tempo todo, sendo o pai de todos os filhos
que ela quisesse.
      Charlotte estava completamente desnorteada com a sugesto. Olhou para ele lutando para acreditar que Damien se preocupava tanto com o que ela queria.
      - Por qu?
      Ele estranhou a questo.
      - Como assim, por qu?
      - Voc no queria ter um filho to cedo. Eu no estava errada quanto a isso, Damien.
      - No - ele logo admitiu. Seus dedos entrelaaram-se aos dela, apertando firme. - Queria que voc confiasse no nosso casamento antes, Charlotte. Voc no se
casou comigo muito segura do que estava fazendo e achei que isso deveria ser garantido. Mas se, antes de tudo, voc precisa de uma criana... se essa  a prova fundamental...
      O corao que ela pensara estar dilacerado comeou a inflar com um sentimento diferente, novamente cheio de vida.
      - Eu pensava que voc s queria a mim, Damien, e estava determinado a me conquistar.
      - Eu queria. Eu quero. - Ele no resistiu a dar um leve trao de ironia  voz. - Mas quero voc no como um prmio, mas como mulher, esposa, parceira, e tudo
mais que pudermos ser juntos nesta vida.
      Ela sentia isso. Estava sentindo agora. Tinha sentido antes de muitas maneiras diferentes, mas sem permitir que se tornasse uma verdade concreta e permanente,
esquivando-se de acreditar nela porque podia estar se apegando a uma iluso. Mas, agora, como no poderia acreditar, quando ele havia se disposto a adotar uma criana
por sua causa? Que tipo de homem faria isso, a no ser que...
      Apesar de ter chorado um rio de lgrimas, Charlotte as sentiu flurem novamente, em outro surto de emoes. Havia desistido de ser amada algum dia por qualquer
homem, contando apenas com os possveis filhos para receber o amor que ela poderia lhes dar. Estivera to errada, to cega, to cheia de preconceitos, desde o incio,
resistindo ao homem que tudo fizera para faz-la ver, faz-la compreender que...
      - Me abrace... por favor - ela suplicou em um sussurro.
      Ele a envolveu e segurou contra si.
      - Me perdoe por ter entrado em minha concha e me fechado para voc - ela disse, soluante, por sobre o ombro dele.
      - Est tudo bem - ele respondeu, sentindo os cabelos dela no rosto. - Eu sei que voc via o beb como uma espcie de porto seguro em sua vida, Charlotte.
      - Eu gosto muito do nosso casamento. S que estava to obstinada...
      - Prometo que podemos adotar.
      - No. Voc est certo. Um pouco mais de tempo para ns vai ser bom. Preciso aprender a confiar. Obrigada... obrigada por ser to... to determinado, Damien.
Eu estava perdida...
      -Voc estava  deriva, Charlotte. Voc precisava ser resgatada.
      - , eu precisava.
      - E resgatou a mim, tambm.
      - Voc?
      - Sim, eu. De uma vida solitria. E por isso eu nunca a deixarei partir.
      Ela no conteve sua felicidade.
      - Eu tambm no vou deixar que voc parta.
      - Vamos ter um verdadeiro lar, Charlotte - ele murmurou no ouvido dela, aquecendo-o com aquelas palavras.
      - Sim, vamos.
      Antes de tudo, um verdadeiro lar devia ser erguido com amor.
      E ela sentia o amor fluindo dele, tocando sua pele, destruindo as ltimas barreiras de sua desconfiana e preenchendo espaos vazios com uma esperana radiante
que tomava o lugar de qualquer desespero. Ela o amava por ser o homem que era... forte, decidido e bastante insistente para resgat-la de si mesma.
      E haveria mais crianas, filhos naturais ou adotados. No importava.
      Desde que houvesse amor.


      CAPITULO DEZESSEIS

      Quinze meses depois...
      Richard Wynter insistira em realizar o batizado em sua casa de campo prxima a Oxford. O pai de Charlotte havia se encarregado do casamento, era justo que
o grande evento seguinte na famlia coubesse a ele. Alm disso, Damien fora batizado na igreja local e era o hbito o filho ter o nome inscrito nos mesmos livros
de registro.
      E assim aconteceu: em um belo domingo de junho, diante de numerosos parentes e amigos, Matthew James Wynter foi batizado. Depois, todos foram  tpica manso
inglesa de Richard, ocupando o grande salo de recepes com animadas conversas e alegria. Para todos os lados que Charlotte olhasse havia sorrisos amigveis e calorosos.
 o poder de uma criana, ela pensou, transbordante de orgulho e contentamento ao ver os sentimentos que seu filho era capaz de despertar nas pessoas.
      - Papai parece muito bem - disse  me. - No corre mais perigo?
      - Um aviso foi suficiente - ela respondeu, com um olhar significativo. - Eu vigio a dieta dele como um gavio e agora ele tem uma sade que h tempos no tinha.
- E, ento, sorriu para o marido, que havia tomado Matthew dos braos de Damien e o balanava no colo. - Olhe para ele, como fica bem no papel de av.
      Charlotte reconheceu, com um acrscimo:
      - To bem quanto no de pai.
      - E no de companheiro - a me completou.
      A segunda gravidez de Charlotte acontecera sem problemas, com todas as etapas cuidadosamente acompanhadas, e Damien estivera com ela durante todo o trabalho
de parto, to ansioso quanto ela por ver o filho com sade.
      - Que criana linda vocs tiveram - disse ainda a me, expressando o prprio orgulho de av. - Estou to feliz por voc, Charlotte! Cheguei a ficar preocupada
quando tomou daquele jeito a deciso de casar-se com Damien, mas seu pai tinha razo. Ele  o homem para voc, no ?
      - Em todos os aspectos. - Ela no tinha nenhuma dvida. E no podia sequer imaginar a profundidade de seu amor pelo marido.
      - Ainda bem que se livrou de Freedman. Aquele rapaz mostrou-se ainda mais ignbil ao requerer seu apartamento. Um verdadeiro homem deve ter sua prpria casa,
ou, ento, lutar para consegui-la honestamente.
      - Com certeza, me. - E uma casa para sua famlia, pensou, feliz com a que Damien havia comprado para eles.
      - A vem Lloyd, sorrindo de orelha a orelha. Voc, certamente, fez muito bem ao corao dele ao gerar um herdeiro. Peter anda por a sem nenhuma perspectiva
mais prxima nesse sentido.
      No  fcil ser um Ramsey, Charlotte pensou. Ela tivera sorte. No apenas sua fortuna no fora relevante para Damien como tambm ele a amava pela pessoa que
era. Charlotte esperava que o irmo encontrasse uma mulher que viesse a amar sua personalidade, seu carter, no seu dinheiro.
      - Charlotte... -Veio falar-lhe o pai, estufando o peito de satisfao, com Matthew parecendo minsculo em seus braos. - Preciso lhe dizer que este  um beb
perfeito, ento no entenda como uma crtica que lhe pea para encomendar olhos azuis da prxima vez.
      - As probabilidades esto contra voc, papai - ela alertou. - Os meus so castanhos e os de Damien quase pretos.
      - Mas mesmo com um por cento de chances podemos ganhar no final.
      -  verdade. Damien e eu assistimos a uma final do Campeonato Mundial de Pquer em que um par foi o vencedor.
      - Est vendo? E meus genes so fortes. Voc se parece muito comigo - ele declarou, ainda mais orgulhoso.
      Ela deu uma risada.
      - Voc nunca desiste, no , papai?! Ele sorriu de volta.
      - No quando sei que estou certo. E seu marido parece ser do mesmo tipo.  um bom homem. Voc fez uma escolha brilhante, Charlotte.
      - Sim, eu fiz. - Ela buscou Damien com os olhos e o encontrou conversando com Peter. - Estou muito feliz com ele.
      Como se a tivesse escutado, Damien virou-se e sorriu para ela.
      Era assim que se entendiam agora. Com os olhos. Pouco precisava ser dito entre os dois.
      - Voc est mesmo tonto de amor por ela, no est? - comentou Peter em um tom brincalho.
      Damien voltou-se para ele novamente.
      - Sua irm  a melhor coisa que j me aconteceu. E por isso tenho que lhe agradecer, meu amigo. Nunca a teria encontrado se no fosse voc.
      - E l estava eu, realmente preocupado com voc no casamento. - Peter balanou a cabea. - Ento me diga... como soube que Charlotte era a mulher certa para
voc? Eu bem que queria encontrar algum com quem quisesse passar o resto de minha vida...
      - Voc vai saber, quando surgir a oportunidade, Peter. No  apenas uma questo de atrao fsica. H uma vibrao no crebro que lhe diz para no deixar escapar
esta chance. Quando voc percebe que encontrou a pessoa que estava procurando.
      - Simples assim?
      - No to simples quando ela est prestes a se casar com outro homem - Damien observou. - Ento voc faz o que tiver que fazer para ganh-la.
      - Ela fez voc suar um bocado, no foi? - Os olhos azuis de Peter brilharam. - Seno no seria minha irm.
      - Nada como um verdadeiro desafio para acelerar meu sangue.
      Peter deu uma risada.
      - Bem, pode ter certeza de que ela  sua agora. Nunca vi um casal to feliz. O que  bom para mim, tambm. Eu nunca teria me entendido com Freedman.
      Damien sorriu de volta. A fantasia que Charlotte alimentara com Freedman estava completamente superada. O que ele e a esposa compartilhavam era uma realidade
muito slida e consistente, inacessvel para qualquer outra pessoa. Olhou para ela mais uma vez, o corao tranqilo e acalentado pela certeza de que a relao entre
ambos era tudo que ele acreditara ser possvel.
      - Com licena, Peter, Charlotte est tomando Matthew dos braos de seu pai. J passou da hora dele mamar, ento...
      - Sei, e voc precisa estar com eles - Peter completou, surpreso com o grau da envolvente paixo de Damien.
      - Espere at ter seu primeiro filho - Damien retorquiu. -  algo mgico.
      Especialmente quando se teve a experincia de perder um, pensou, caminhando na direo de Charlotte. O que tornava Matthew uma ddiva ainda mais preciosa.
      Charlotte sentiu que ele estava chegando e viu as pessoas abrindo caminho para Damien, que emanava a fora de um homem no comando de seu espao. E ela se sentiu
imensamente feliz por ter sido acolhida naquele territrio, convidada a fazer parte dele.
      Sim, ele era um deles, mas era tambm muito mais, tanto que compreendia tudo o que ela pensava e sentia. Dissera que eram almas gmeas desde o comeo, e Charlotte
no tinha mais nenhum argumento contra aquela afirmao. A conexo dos dois era to firme e profunda que jamais poderia ser quebrada.
      - Quer levar Matthew para cima agora? - ele perguntou ao alcan-la.
      - Sim. Ele parece gostar de toda esta ateno, mas...
      - Vai comear a chorar agora mesmo se no for alimentado - Damien completou. - Ento vamos.
      Ele a conduziu para fora do salo de recepes, com toda a segurana e proteo que era capaz de assegurar contidas naquele simples gesto, que gerava nela
uma imensa paz de esprito. Charlotte acomodou a cabea no ombro dele e murmurou:
      - Voc sabe o quanto o amo, Damien Wynter?
      - Meu amor por voc est alm de toda medida. S posso esperar que isso seja mtuo - ele respondeu.
      Ela sorriu, e quase no conteve uma lgrima de felicidade.
      Ele estava certo. Eles tinham sido destinados um para o outro. E com aquela pequena criatura que tinha no colo, fruto de um amor to sem limites, a vida no
poderia ser mais plena.
      E o melhor de tudo era a convico de que aquela maravilhosa sensao duraria para o resto de suas vidas. Eles queriam compartilhar tudo. E compartilhavam!
      Charlotte sorriu ao relembrar um comentrio do pai: Sim, fiz uma escolha brilhante, pensou. Damien  o homem certo para mim. E sempre ser.
